O desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) pelo governo Trump abriu um rombo de quase US$ 1 bilhão no financiamento internacional destinado à conservação ambiental e deixou projetos em diferentes países sem recursos para continuar suas atividades.
Vinte meses depois do encerramento da agência, iniciativas de proteção da biodiversidade, monitoramento florestal, combate à caça ilegal e adaptação climática enfrentam paralisações, cortes de orçamento e uma corrida por novos financiadores, aponta relatório da One Earth Partners, divulgado pelo site Mongabay, nesta terça-feira (6).
No ano fiscal de 2024, a USAID gastou US$ 366 milhões em conservação da biodiversidade e US$ 257 milhões em adaptação climática, além de centenas de milhões para energia limpa, soluções climáticas naturais e combate à poluição por plásticos nos oceanos.
O levantamento, que rastreia o destino de parte desse trabalho após o encerramento, baseou-se em entrevistas com 150 pessoas que conheciam o trabalho da USAID em Bangladesh, Peru, Quênia, Colômbia e Vietnã. Patrulhas de vida selvagem, monitoramento de florestas, programas comunitários de conservação e políticas ambientais foram todos afetados, com iniciativas paralisadas ou colapsadas.
Fim da USAID interrompe projetos de longo prazo
O impacto financeiro aparece de forma concreta nas organizações que dependiam dos recursos americanos. No Quênia, por exemplo, a Associação de Conservação da Vida Selvagem Maasai Mara perdeu uma verba de US$ 6,5 milhões prevista para cinco anos.
Segundo entrevista de Daniel Sopia, que dirige a Associação de Conservação da Vida Selvagem Maasai Mara, à Mongabay, a entidade demitiu dez funcionários, reduziu seu orçamento em 72% e suspendeu planos para criar novas áreas de conservação destinadas à proteção de corredores ecológicos.
O levantamento mostra, porém, que a interrupção dos recursos não produziu o mesmo efeito em todas as organizações. Algumas conseguiram substituir parte do dinheiro perdido por financiamento de outros órgãos governamentais e por recursos de filantropia privada.
Outras ainda estão tentando encontrar alternativas. A One Earth Partners publicou uma relação de 100 projetos que anteriormente recebiam apoio da USAID e agora procuram novos financiadores.
Impacto em outras regiões
Na Colômbia e no Peru, a USAID havia treinado funcionários para utilizar dados de satélite no acompanhamento do desmatamento da Amazônia.
Em Moçambique, a agência era uma das principais apoiadoras das ações de combate à caça ilegal e de aplicação das leis de proteção da vida selvagem no Parque Nacional da Gorongosa.
Em Bangladesh, o impacto atingiu iniciativas construídas ao longo de quase duas décadas. Os programas ajudavam comunidades a desenvolver o turismo de natureza e a negociar acordos de compartilhamento de receitas relacionados a áreas protegidas.
USAID deixa de implementar ajuda externa
A mudança ocorreu dentro de uma reformulação mais ampla da política de assistência internacional dos Estados Unidos. O governo Donald Trump iniciou em 2025 o processo de desmonte da USAID. Mais de 80% dos programas da agência foram cancelados durante uma revisão conduzida pela administração, segundo informações divulgadas à época pelo secretário de Estado Marco Rubio.
Em 1º de julho de 2025, a USAID deixou oficialmente de implementar programas de assistência externa, e as atividades que permaneceram passaram a ser administradas pelo Departamento de Estado. Rubio afirmou que a assistência americana continuaria, mas seria mais limitada e direcionada de acordo com os interesses e prioridades dos Estados Unidos.
Na ocasião, o secretário de Estado voltou a criticar a agência e classificou seu funcionamento anterior como ineficiente.
“Essa era de ineficiência sancionada pelo governo chegou oficialmente ao fim. (…) A partir de 1º de julho, a USAID deixará oficialmente de implementar a assistência externa. Os programas de assistência internacional que estiverem alinhados com as políticas da administração — e que promovam os interesses dos Estados Unidos — serão administrados pelo Departamento de Estado, onde serão executados com mais responsabilidade, estratégia e eficiência”, afirmou Rubio.
A USAID também tinha críticos entre organizações de conservação. As principais reclamações envolviam burocracia, custos administrativos elevados e exigências consideradas excessivas para os parceiros locais.
Impacto ultrapassa conservação ambiental
A retirada dos recursos da USAID também afetou a assistência humanitária internacional. A agência administrava uma parcela significativa da ajuda externa fornecida pelos Estados Unidos, com programas espalhados por dezenas de países e diferentes áreas.
A assistência administrada pela USAID correspondia a 42% de toda a ajuda humanitária mundial. O encerramento da agência, por isso, ampliou as preocupações sobre a continuidade de programas financiados pelos Estados Unidos.
Um estudo publicado pela revista científica The Lancet estimou que os cortes americanos na ajuda humanitária internacional poderiam resultar em mais de 14 milhões de mortes até 2030.
Trump fala sobre uso político da USAID na América Latina
O desmonte da USAID também entrou no debate político sobre a América Latina nesta semana. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, republicou no Truth Social uma manifestação de seu filho mais velho, Donald Trump Jr., que relacionou o encerramento da agência aos recentes resultados eleitorais favoráveis à direita na região.
A publicação ocorreu após o primeiro turno da eleição presidencial brasileira, que levou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Trump Jr. afirmou que o enfraquecimento da USAID teria alterado o cenário político latino-americano. “Desde que desmontamos a USAID, a esquerda não ganhou uma única eleição presidencial na América Latina”, escreveu.
Na sequência, ele acusou programas financiados com recursos públicos americanos de beneficiar grupos alinhados a uma determinada orientação política. “Bilhões em dinheiro dos contribuintes financiavam ONGs, programas de ‘democracia’ e redes de ativistas que convenientemente sempre apoiavam o mesmo lado”, afirmou.
Trump Jr. também classificou esses programas como uma forma de interferência política. “Eles chamavam isso de ajuda, mas era interferência eleitoral”, escreveu.










