Os juros do rotativo do cartão de crédito chegaram a 432,1% ao ano em abril, enquanto no cheque especial a taxa média de juros cobrada foi de 141,1%, vinda de 138,9% em março, mantendo a modalidade entre as mais caras do país, segundo dados recentes divulgados pelo Banco Central (BC).
Esse cenário reflete a pressão sobre o orçamento das famílias: de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,9% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em abril, o maior percentual da série histórica. O cartão de crédito continua sendo a principal modalidade entre os endividados.
No varejo, esse ambiente tem provocado uma mudança no comportamento do consumidor. Levantamento da Top One Financeira mostra que as operações de crediário, por meio do parcelamento via boleto no ponto de venda, cresceram 11,6% nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
A modalidade tradicional, com parcelas fixas, volta a ganhar espaço como alternativa para consumidores que já convivem com elevado nível de endividamento. O tíquete médio das operações foi de R$ 1.543, indicando o uso do crédito para a compra de bens duráveis diversos, como eletrodomésticos e eletrônicos.
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Segundo Vanderley Cardoso de Moraes, CEO da Top One Financeira, “o que vemos em 2026 é uma redefinição da porta de entrada do crédito no varejo físico”.
Ele destaca como vantagem que o crediário permite que a compra seja feita com uma parcela previsível, dentro da capacidade real de pagamento e sem o risco dos juros compostos do cartão.
Como o rotativo amplia o valor da dívida
O funcionamento do crédito rotativo ajuda a explicar esse movimento. Quando o consumidor não consegue quitar o valor total da fatura em até 30 dias e opta pelo pagamento mínimo, o saldo restante passa automaticamente a ser financiado pela taxa do rotativo, que supera 400% ao ano.
Na prática, uma fatura não paga pode ter seu valor quadruplicado em apenas 12 meses, elevando rapidamente o custo da dívida.
Outro fator que impulsiona a migração para o crediário é o comprometimento do limite do cartão de crédito, somado ao encarecimento das demais linhas de financiamento.
Segundo o Banco Central, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas atingiu 63% ao ano em abril, favorecendo o retorno do parcelamento via boleto no varejo.
Parcelas fixas impulsionam o crediário
Diferentemente do cartão de crédito, o crediário funciona como um financiamento fechado. Os juros são definidos no momento da compra e permanecem os mesmos até o fim do contrato, mantendo parcelas fixas e protegendo o consumidor da volatilidade do crédito rotativo.
Segundo o levantamento da Top One Financeira, a expansão de 11,6% nas operações entre janeiro e maio de 2026 reforça o aumento da procura por essa modalidade diante do custo elevado do crédito tradicional.
Moraes avalia que o cartão de crédito virou uma armadilha para quem não consegue zerar a fatura, uma vez que o consumidor entra no rotativo sem perceber e os juros dobram a dívida em poucos meses.
Para o executivo, o crescimento do parcelamento via boleto também revela uma postura mais cautelosa dos consumidores.
Ele recomenda que o cartão de crédito seja utilizado apenas para compras que caibam no orçamento do mês. Segundo ele, o parcelamento sem juros continua sendo vantajoso desde que o consumidor tenha condições de quitar integralmente a fatura. Caso exista o risco de pagar apenas o valor mínimo, a orientação é evitar o uso do cartão para não entrar no crédito rotativo e ficar sujeito aos juros elevados.











