A inadimplência bancária voltou a crescer em maio e atingiu o maior nível da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em março de 2011. A taxa média das operações de crédito com atraso superior a 90 dias subiu para 4,7%, ante os 4,6% registrados em abril (dado revisado), segundo o Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgado nesta quarta-feira (1º).
O aumento dos atrasos nos pagamentos ocorreu mesmo com o Novo Desenrola Brasil, programa do governo para renegociação de dívidas. Apesar da renegociação de pelo menos R$ 15 bilhões em débitos, a inadimplência continuou avançando ao longo do mês. Na comparação com maio do ano passado, o indicador cresceu 1 ponto percentual, evidenciando a deterioração da qualidade da carteira de crédito das instituições financeiras.
A piora foi concentrada principalmente nas operações de crédito livre, modalidade em que bancos e clientes negociam livremente juros, prazos e demais condições dos empréstimos. Entre as pessoas físicas, a taxa de inadimplência nessa categoria chegou a 7,6%, nível também considerado histórico.
Já entre as empresas, o índice alcançou 3,2%, o maior patamar desde 2017, refletindo o aumento dos atrasos em diferentes segmentos do mercado de crédito.
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Crédito livre concentra deterioração
O Banco Central atribuiu a piora da qualidade da carteira de crédito livre principalmente ao aumento dos atrasos em três modalidades:
- financiamentos de veículos
- crédito pessoal sem garantia
- empréstimos consignados para trabalhadores do setor privado
Em maio, a inadimplência chegou a 6,5% nos financiamentos de veículos, 14,2% no crédito pessoal sem garantia e 7,9% no consignado privado.
Já o crédito direcionado possui finalidade específica, voltada ao financiamento de setores considerados estratégicos, como habitação, agricultura e infraestrutura. Essas operações costumam utilizar recursos da poupança, fundos e programas públicos e, em muitos casos, contam com juros subsidiados. Entre as pessoas físicas, o crédito imobiliário é a modalidade mais comum.
Famílias registram maior inadimplência da série
Entre as pessoas físicas, a taxa de inadimplência passou de 5,5% para 5,6% entre abril e maio, estabelecendo um novo recorde da série histórica.
A situação é ainda mais crítica nas operações com recursos livres, modalidade em que os bancos têm autonomia para definir juros, prazos e demais condições do financiamento conforme a avaliação de risco. Nessa categoria, que inclui cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, a inadimplência atingiu 7,6%, ante 7,4% no mês anterior, também o maior nível já registrado.
Considerando todas as operações de crédito livre no país, o índice de inadimplência passou de 6,1% para 6,2%, alcançando o maior patamar desde o início da série do Banco Central.
Empresas também apresentam piora da inadimplência
Entre as pessoas jurídicas, a inadimplência aumentou de 3,1% para 3,2% em maio, atingindo o maior nível desde novembro de 2017, quando havia alcançado 3,3%, considerando apenas operações com atraso superior a 90 dias.
Crédito continua avançando
Mesmo com o aumento da inadimplência, o mercado de crédito continuou crescendo. As concessões totais de empréstimos aumentaram 0,2% em maio frente ao mês anterior, enquanto o estoque total de crédito avançou 0,6%, alcançando R$ 7,3 trilhões.
O saldo das operações com empresas cresceu 0,7%, para R$ 2,7 trilhões, enquanto o crédito às famílias aumentou 0,5%, chegando a R$ 4,6 trilhões.
Em 12 meses, a carteira total avançou 9,5%, após expansão de 6,8% nas operações com empresas e de 11,2% nas destinadas às famílias.
Na abertura por modalidade, as concessões com recursos livres recuaram 1,1% em maio. Já os financiamentos com recursos direcionados aumentaram 13,3%.
Juros também permanecem elevados
O Banco Central também informou no relatório que os juros médios cobrados nas operações de crédito livre chegaram a 49,5% ao ano, alta de 0,1 ponto percentual em relação a abril. Nas operações com recursos direcionados, a taxa caiu 0,3 ponto percentual, para 12,2% ao ano.
Entre as modalidades destinadas às pessoas físicas, os juros médios ficaram em 54,1% ao ano no consignado para trabalhadores do setor privado e em 142,7% ao ano no crédito pessoal sem garantia.
O spread bancário (diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada dos clientes) permaneceu estável em 35,8 pontos percentuais nas operações de crédito livre.
O relatório também lembra que a taxa básica de juros (Selic) está em 14,25% e que o Banco Central indicou que, apesar do início do ciclo de afrouxamento monetário em março, os juros deverão permanecer em patamar restritivo para conduzir a inflação de volta à meta de 3%.
Banco Central espera redução dos atrasos
Apesar da alta registrada em maio, o Banco Central afirmou que as medidas recentes que promovem a renegociação de dívidas de pessoas físicas tendem a reduzir a taxa de inadimplência nas linhas elegíveis nos próximos meses.
O Novo Desenrola Brasil prevê a utilização de até R$ 15 bilhões em garantias da União para facilitar renegociações com juros menores para famílias, micro e pequenas empresas e agricultores familiares. O impacto fiscal estimado é de até R$ 5 bilhões.
O principal foco do programa são as famílias. Consumidores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105) podem renegociar diretamente com os bancos dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.
Segundo balanço divulgado pela equipe econômica no fim de maio, o Desenrola Famílias havia renegociado R$ 10 bilhões em dívidas. Posteriormente, o governo informou que o programa já havia alcançado R$ 20 bilhões em renegociações bancárias, distribuídas em 1,4 milhão de acordos, com desconto médio de 85% sobre o valor original das dívidas.
Ainda de acordo com o governo, o estoque dessas dívidas foi reduzido para aproximadamente R$ 2,6 bilhões, sendo R$ 1,3 bilhão referente ao Desenrola Famílias e R$ 1,28 bilhão ao Desenrola Fies. O Desenrola Rural, voltado aos produtores rurais, ainda não teve balanço oficial divulgado.











