A Bolsa brasileira registrou um volume recorde de 32 ações negociadas abaixo de R$ 1, as chamadas penny stocks, no segundo trimestre, de acordo com levantamento da Elos Ayta.
Para a consultoria, essa tendência de alta é observada desde o terceiro trimestre de 2025 e sinaliza que um número crescente de companhias perdeu valor de mercado suficiente para ingressar nessa categoria.
No mesmo período, 29 empresas tinham ações negociadas entre R$ 1 e R$ 2, próximo do recorde de 33 companhias, registrado no primeiro trimestre de 2023 e repetido no primeiro trimestre de 2025. Em uma análise mais ampla, 133 empresas negociam ações abaixo de R$ 5, o segundo maior resultado da série histórica, atrás apenas das 134 companhias registradas no segundo trimestre de 2025.
Pelas regras da B3, empresas não podem permanecer por 30 pregões consecutivos na condição de penny stock. Caso isso aconteça, precisam apresentar um plano para recuperar a valorização dos papéis. Em casos extremos, a situação pode resultar na exclusão da companhia da Bolsa.
Para Einar Rivero, CEO da Elos Ayta, os dados revelam que uma parcela significativa das empresas listadas continua com a precificação pressionada há vários trimestres, formando uma espécie de “zona intermediária” da Bolsa, onde convivem empresas em recuperação, negócios estruturalmente fragilizados e companhias que perderam relevância perante investidores institucionais.
Participação das penny stocks cresce mais de 15 vezes
O levantamento mostra que, em menos de seis anos, a presença das penny stocks na Bolsa brasileira aumentou mais de 15 vezes, deixando de ser um fenômeno pontual para se tornar uma característica relevante da composição do mercado.
No segundo trimestre, as 32 ações negociadas abaixo de R$ 1 representavam 7,8% das 412 empresas analisadas, registrando o maior percentual da série histórica. No terceiro trimestre de 2020, segundo cruzamento de dados da Elos Ayta, havia apenas duas companhias nessa situação, equivalentes a 0,5% das 435 empresas avaliadas naquele período.
A partir desse movimento, a consultoria concluiu que, em menos de seis anos, a participação das penny stocks multiplicou-se por mais de quinze vezes, evidenciando que o fenômeno deixou de ser pontual para se tornar uma característica relevante da composição da Bolsa brasileira.
Segundo Rivero, o crescimento simultâneo do número de empresas negociadas abaixo de R$ 1, R$ 2 e R$ 5 indica que uma parcela relevante da Bolsa enfrenta dificuldades para recuperar valor de mercado.
Ele explica que esse cenário pode decorrer de fatores macroeconômicos, como juros elevados por um período prolongado, crescimento econômico mais lento, redução do fluxo de capital estrangeiro e problemas específicos das empresas. Em contrapartida, uma redução consistente desse universo costuma sinalizar melhora da confiança dos investidores, aumento da liquidez e fortalecimento dos fundamentos corporativos.
Preço baixo não significa desconto
Rivero também alerta para um erro frequente entre investidores: confundir preço baixo com oportunidade de investimento. Ele explica que uma ação negociada a R$ 0,80 pode ser muito mais cara do que outra cotada a R$ 80, dependendo da capacidade de geração de lucros, da qualidade da gestão, da governança corporativa, da liquidez e das perspectivas futuras da empresa.
“O preço unitário da ação, isoladamente, praticamente não possui significado econômico. O que realmente importa é o valor da companhia como um todo, sua capacidade de gerar caixa e criar valor aos acionistas no longo prazo. Por isso, gestores profissionais raramente utilizam o preço nominal como critério de seleção de investimentos”, complementa.
Grupamento altera o preço, mas não os fundamentos
Para deixar a condição de penny stock, muitas empresas recorrem ao agrupamento de ações (reverse split), operação que reduz a quantidade de papéis em circulação e eleva o preço unitário das ações.
Na avaliação de Rivero, porém, a medida não altera o valor econômico da companhia. “Uma ação de R$ 0,50 pode passar a valer R$ 5 após um grupamento de dez para um, mas a empresa continuará valendo exatamente o mesmo. Por isso, o mercado costuma afirmar que o agrupamento resolve a forma, mas não o conteúdo”.
Segundo o executivo, quando os fundamentos permanecem deteriorados, muitas empresas voltam gradualmente a perder valor e retornam ao universo das penny stocks meses ou anos depois. Por isso, embora o grupamento atenda às exigências regulatórias e preserve a negociação dos papéis, dificilmente representa uma solução definitiva para recuperar a confiança dos investidores.
Como os gestores enxergam as penny stocks
De acordo com Rivero, no mercado profissional as penny stocks costumam ser classificadas como ativos de maior risco. Por isso, muitos gestores institucionais adotam políticas que restringem ou até impedem investimentos em empresas com ações de preço muito baixo ou liquidez reduzida.
Segundo ele, essas companhias geralmente apresentam maior volatilidade, menor cobertura de analistas, dificuldades para captar recursos, spreads de negociação mais elevados e maior sensibilidade a movimentos especulativos.
O executivo ressalta, porém, que existem exceções. Alguns fundos especializados em deep value — estratégia baseada na busca por empresas consideradas muito descontadas em relação ao seu valor — procuram justamente companhias que o mercado pode ter penalizado excessivamente. Ainda assim, a decisão de investimento é baseada em uma análise fundamentalista aprofundada, e não apenas no baixo preço das ações.
Baixa liquidez das penny stocks afasta investidores estrangeiros
A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos considera, de forma geral, como penny stocks as ações negociadas abaixo de US$ 5, embora boa parte do mercado utilize informalmente o patamar de US$ 1 como principal referência.
Segundo Rivero, independentemente do limite adotado, investidores internacionais associam esse tipo de empresa a maior risco operacional e financeiro. Para os grandes fundos globais, contudo, a questão vai além do preço das ações.
Como administram patrimônios bilionários, esses investidores precisam de elevada liquidez para entrar e sair das posições. Dessa forma, empresas muito pequenas ou com ações excessivamente desvalorizadas acabam ficando fora do universo investível desses fundos.
Rivero afirma que esse processo cria um círculo vicioso. “Quanto menor o interesse institucional, menor tende a ser a liquidez. E quanto menor a liquidez, maior o desconto exigido pelos investidores. E quanto maior esse desconto, mais difícil se torna para a empresa recuperar valor de mercado e captar recursos para financiar seu crescimento”.
Bolsa tem menor número de empresas da série histórica
Além do avanço das penny stocks, o levantamento identificou uma redução do universo de empresas negociadas na Bolsa. No segundo trimestre de 2026, a amostra reuniu 412 ações com pelo menos um negócio realizado no período, o menor número desde o início da série histórica.
No primeiro trimestre de 2020 eram 427 ações, enquanto o pico foi registrado no primeiro trimestre de 2022, com 480 empresas. Desde então, o número vem diminuindo de forma praticamente contínua.
Segundo a Elos Ayta, esse movimento pode refletir uma combinação de fechamentos de capital, incorporações, reorganizações societárias, cancelamentos de registro, migração para outros mercados e, em alguns casos, perda de liquidez de determinadas ações.
A consultoria ressalta que essa redução, isoladamente, não caracteriza um enfraquecimento do mercado. Ainda assim, reforça a importância de acompanhar a amplitude da Bolsa, já que um mercado com maior número de empresas negociadas oferece mais alternativas de investimento e maior profundidade para investidores locais e estrangeiros.
Na avaliação da Elos Ayta, a combinação entre o crescimento das empresas negociadas abaixo de R$ 1, R$ 2 e R$ 5 e a redução do número de companhias com negociação ativa revela uma mudança relevante na composição do mercado brasileiro.
Segundo a consultoria, uma parcela crescente das empresas listadas permanece fora do radar dos grandes investidores institucionais, especialmente estrangeiros, devido à combinação entre baixa liquidez, menor valor de mercado e maior percepção de risco.











