*Por Linconl Rocha
No último mês, o Boletim Focus, do Banco Central (BC), trouxe uma informação que merece atenção: a projeção do mercado para a taxa Selic ao final de 2026 voltou a ser elevada para 12,5% ao ano.
Contudo, a realidade atual é ainda mais desafiadora: a Selic se encontra em 14,75%, após início de um ciclo de cortes cauteloso, sinalizando que o Banco Central mantém uma postura restritiva diante de pressões inflacionárias e riscos fiscais persistentes.
Não é um simples ajuste técnico em planilhas de economistas, mas um indicador de uma realidade econômica complexa, na qual fatores globais e internos convergem para criar um cenário que exigirá sabedoria e equilíbrio político de quem ocupar os principais cargos da economia brasileira.
Essa elevação de 0,5 ponto percentual — de 12% no início de março para 12,5% ao final do mês — reflete a percepção do mercado sobre as dificuldades acumuladas. O fato de a Selic já estar em 14,75% evidencia que os desafios são maiores do que se antecipava.
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Impacto da Selic na vida real: o cartão de crédito
E essas dificuldades têm impactos concretos na vida dos brasileiros. No setor de cartões de crédito, a inadimplência do rotativo atingiu 64,7% em dezembro de 2025, representando um aumento de quase 10 pontos percentuais em apenas 12 meses.
Dezenove milhões de brasileiros carregam dívidas em cartão de crédito. 76% das famílias começaram 2026 endividadas. Para muitas delas, o cartão deixou de ser conveniência e virou ferramenta de sobrevivência para cobrir despesas básicas.
O crédito rotativo tornou-se o retrato mais cruel desse ambiente econômico. Com juros históricos acima de 400% ao ano, dívidas se transformam em armadilhas financeiras.
Mesmo após a lei de 2024, que limitou o saldo devedor ao dobro da fatura original, milhões de brasileiros continuam recorrendo ao rotativo como último recurso. O cartão, antes símbolo de conveniência, passou a ser instrumento de sobrevivência diante da pressão inflacionária e dos juros elevados.
Convergência de fatores externos e internos
A escalada das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã no início de 2026 criou incerteza nos mercados de energia. Os ataques à infraestrutura iraniana e as ameaças de fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 1/3 do petróleo mundial — elevaram o preço do barril de Brent para US$ 105, uma alta de 30% desde o início das tensões. Caso o bloqueio dure dois meses, o barril pode ultrapassar US$ 120.
Para o Brasil, dependente do transporte rodoviário, o impacto é direto: diesel mais caro pressiona alimentos e produtos. A projeção de inflação (IPCA) para 2026 foi revisada nesta segunda-feira (13) para 4,71%, acima da banda de tolerância da meta (3% ± 1,5%).
Complexidade do desequilíbrio fiscal
O risco fiscal estrutural explica por que o mercado não acredita em uma redução substancial dos juros em 2026. A dívida pública brasileira atingiu 78,7% do PIB em 2025 e está projetada para alcançar 83,8% em 2026. O déficit primário foi de R$61,7 bilhões, mesmo com receitas totais de R$2,9 trilhões e despesas de R$3 trilhões.
O peso dos juros é brutal: cerca de R$1,165 trilhão por ano. De cada R$100 arrecadados, R$40 vão para o serviço da dívida. Esse ciclo vicioso mantém os juros elevados e amplia o déficit nominal, que alcançou 8,3% do PIB em 2025.
Para além da Selic, outros desafios para o próximo governo
O próximo presidente e seu ministro da economia enfrentarão três grandes tentações: a do intervencionismo populista, ao tentar forçar a queda da Selic, manipular preços administrados como combustíveis ou tabelar juros, gerando alívio imediato, mas com o risco de desancorar expectativas, afastar capitais e elevar o risco-país; a da negligência fiscal, ao sustentar gastos elevados via expansão da dívida pública, empurrando o ajuste para frente e alimentando um ciclo já conhecido de aumento estrutural dos juros, perda de credibilidade e compressão do investimento privado.
Por fim, o caminho do ajuste estrutural, que envolve reformas impopulares, revisão de despesas obrigatórias e eventual aumento de carga tributária — o mais consistente no longo prazo, porém politicamente mais custoso no curto.
O desafio real está em comprometer o futuro e a saia-justa da sustentação política de curto prazo que pode inviabilizar o próprio governo.
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A terceira via é a única sustentável: quando bem implementada, permite estabilizar a relação dívida/PIB em torno de 80%, por meio da geração de superávits primários consistentes e da redução do prêmio de risco, o que contribui para a queda da taxa neutra de juros e o alongamento do perfil da dívida.
Esse ajuste melhora a dinâmica fiscal ao reduzir o custo médio de financiamento e conter a trajetória do déficit nominal, criando espaço para uma flexibilização monetária estrutural.
Mais do que isso, estabelece as bases para um crescimento real e significativo, ancorado em ganhos de produtividade, aumento da taxa de investimento e expansão da produção real, em substituição a estímulos transitórios e distorções alocativas.
*Linconl Rocha é economista e presidente da PAGOS — Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos.











