*Lucas Candia Pereira de Moraes
Com a taxa de juros em patamares elevados já há algum tempo, os investidores acabam reduzindo o apetite a risco, buscando alternativas mais seguras e com menor volatilidade. Nesse cenário, o crédito privado surge como uma alternativa de investimento que traz um prêmio de risco adicional ao CDI sem abrir mão da consistência.
Segundo a ANBIMA, as ofertas no mercado de capitais somaram R$ 236,1 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026, o maior volume já registrado para o período, com alta de 15,5% frente ao mesmo intervalo de 2025. Parte crescente dessa conta tem vindo de produtos de Renda Fixa, como Debêntures, CRIs, CRAs e especialmente os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), que já representam cerca de 15% do volume total de emissões.
Esse crescimento não ocorre por acaso. Com o avanço dos investidores institucionais, como gestoras, fundos de pensão, seguradoras e family offices, que são mais sofisticados em sua análise e exigentes em seus critérios de alocação, o mercado tende a se desenvolver cada vez mais.
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Esse movimento é comparável ao que ocorreu com as debêntures ao longo dos últimos anos: um instrumento antes restrito a um nicho de investidores tornou-se amplamente difundido à medida que mais capital institucional passou a acessá-lo. A tendência com os FIDCs aponta para uma trajetória semelhante, com democratização progressiva e aprofundamento técnico do mercado.
Parte dessa evolução está diretamente ligada à versatilidade da estrutura. O FIDC é um instrumento abrangente, que possibilita ao gestor criar diversas estratégias visando mitigar riscos e ainda assim entregar um retorno consistente com baixa volatilidade.
Para a empresa tomadora do crédito, especialmente empresas de menor porte que não teriam acesso ao mercado de capitais tradicional, como uma emissão de debêntures, a flexibilidade do FIDC propicia a possibilidade de realizar uma solução específica para a sua necessidade, adequando-a às garantias que possui, de forma ágil e com um preço competitivo quando comparado ao crédito bancário tradicional.
Essa flexibilidade também beneficia o investidor. Torna-se possível criar soluções inteligentes visando mitigar o risco. Um exemplo é a criação de classes de cotas: a classe subordinada júnior terá um potencial de retorno mais elevado, mas será responsável por assumir as primeiras perdas, caso ocorram; já a classe sênior terá um retorno menor, porém contará com menor volatilidade e a proteção adicional provida pela subordinada júnior.
Além das classes de cotas, é possível construir uma carteira pulverizada e revolvente. Isso significa que o caixa de uma operação já liquidada dentro do FIDC pode ser reciclado para originar novas operações, contribuindo para encurtar o prazo médio da carteira. Na perspectiva de risco de crédito, isso representa menor exposição a variações macroeconômicas de longo prazo.
Nesse contexto, o papel do gestor ativo faz toda a diferença. Cabe a ele realizar a análise de crédito dos ativos, ajustar as taxas de desconto dos recebíveis em função das condições de mercado, como um cenário de juros futuros mais elevados, verificar a documentação e as garantias, além de acompanhar a liquidação e a cobrança das operações ao longo do tempo. É a qualidade dessa gestão que diferencia estruturas resilientes de estruturas vulneráveis.
Diante desse conjunto de características, acredita-se que a classe de ativos estruturados, especialmente os FIDCs, deverá seguir crescendo. Ainda mais agora que se vê cada vez mais investidores acessando esses produtos, principalmente os institucionais, o que tende a ampliar a liquidez, elevar o nível de governança e consolidar o crédito estruturado como um dos pilares do financiamento da economia real brasileira nos próximos anos.
*Lucas Candia Pereira de Moraes é sócio e gestor de fundos de crédito estruturado da Brave Asset, gestora especializada em crédito privado e estruturado, com foco em renda fixa e FIDCs.











