Por Richard Ionescu*
Uma mudança importante está acontecendo no mercado brasileiro de crédito. Durante muito tempo, quando falava-se em securitização, instrumentos como Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs) ocupavam posição de destaque. Esse cenário está mudando rapidamente, e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) estão assumindo um papel cada vez mais relevante.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo a Anbima, no primeiro semestre de 2026, os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões, crescimento de 29,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Somados às debêntures de securitização, esses instrumentos passaram a representar 73,4% das captações entre os quatro principais produtos de securitização. Dois anos antes, essa participação conjunta era de 46,9%.
Não acredito que estejamos diante apenas de uma mudança conjuntural de preferência dos investidores. O avanço dos FIDCs revela uma transformação mais profunda na arquitetura do crédito brasileiro. Uma das razões está na própria versatilidade do instrumento. Diferentemente de títulos vinculados predominantemente a setores específicos, o FIDC pode reunir direitos creditórios originados em diferentes atividades econômicas. Recebíveis comerciais, duplicatas, crédito consignado, mensalidades, financiamentos, contratos e outros fluxos futuros podem, dependendo da política e da estrutura do fundo, ser transformados em ativos capazes de conectar empresas que precisam de capital a investidores interessados em crédito privado.
Essa flexibilidade permite que o instrumento acompanhe melhor a diversidade da economia real. E talvez esteja justamente aí uma das principais explicações para seu crescimento. O Brasil possui milhares de empresas economicamente saudáveis que geram recebíveis de boa qualidade, mas nem sempre encontram no sistema bancário tradicional condições de financiamento compatíveis com suas necessidades. Quando esses recebíveis podem ser estruturados dentro de um FIDC, surge uma nova ponte entre capital e atividade produtiva.
É uma mudança relevante porque amplia as alternativas disponíveis às empresas. O crédito deixa de depender exclusivamente do balanço e do apetite dos bancos e passa a contar também com recursos provenientes do mercado de capitais. Ao mesmo tempo, o FIDC permite uma engenharia financeira bastante mais sofisticada do que simplesmente comprar um título emitido por uma companhia.
É possível estruturar diferentes classes e subclasses de cotas, estabelecer critérios de elegibilidade dos recebíveis, mecanismos de subordinação, níveis de concentração e regras específicas de acompanhamento da carteira. Com isso, diferentes combinações de risco e retorno podem ser construídas dentro de uma mesma estrutura. Esse desenho ajuda a explicar por que o instrumento consegue atender tanto às necessidades de financiamento das empresas quanto às diferentes estratégias dos investidores.
Mas existe outro fator que considero ainda mais importante: os FIDCs representam a transformação do crédito em uma infraestrutura de dados. Quando falamos de uma carteira formada por centenas ou milhares de recebíveis, analisar apenas quem originou o crédito já não é suficiente. É necessário entender quem são os devedores, quais são os históricos de pagamento, como está distribuída a carteira, quais setores estão representados, onde existem concentrações e como esses indicadores evoluem ao longo do tempo.
É justamente nesse ponto que tecnologia e mercado de capitais começam a convergir. Bases de dados mais completas, automação, inteligência artificial e modelos avançados de análise de risco permitem acompanhar carteiras de crédito com uma granularidade que seria muito mais difícil alguns anos atrás. O futuro do crédito estruturado será cada vez menos baseado apenas em fotografias estáticas e cada vez mais em monitoramento contínuo.
Esse movimento também ajuda a explicar por que os FIDCs vêm conquistando espaço. O instrumento se adapta especialmente bem a uma economia na qual informação, capacidade de processamento e avaliação de risco estão se tornando tão importantes quanto o próprio capital. Há ainda um componente regulatório relevante. A modernização das regras dos fundos de investimento e as mudanças recentes no mercado de securitização contribuíram para reorganizar os caminhos disponíveis para o capital. Ao mesmo tempo, restrições impostas aos lastros elegíveis de CRIs e CRAs reduziram parte do espaço anteriormente ocupado por esses instrumentos.
Mas atribuir o crescimento dos FIDCs apenas à regulação seria simplificar demais o fenômeno. O que estamos vendo é o amadurecimento de um mercado que procura instrumentos mais flexíveis para financiar uma economia cada vez mais diversa.
Os números de 2025 reforçam essa leitura. Segundo o anuário da Uqbar, a indústria encerrou o ano com mais de R$ 833 bilhões em patrimônio líquido, crescimento de aproximadamente 30% em doze meses. As emissões primárias chegaram a cerca de R$ 290 bilhões, 31% acima do registrado em 2024. O número de fundos ativos também aumentou de pouco mais de 3 mil para quase 3,9 mil. Agora a indústria se aproxima R$ 1 trilhão. Esse crescimento traz, evidentemente, uma responsabilidade proporcional.
Quanto maior o mercado, maior precisa ser a qualidade da análise. FIDC não é sinônimo de baixo risco. A qualidade de uma estrutura depende da qualidade dos recebíveis, dos critérios de originação, da diversificação da carteira, das garantias, dos mecanismos de proteção, da governança e, principalmente, da capacidade de acompanhar o comportamento dos créditos ao longo do tempo. Esse ponto se torna ainda mais relevante porque o próprio crescimento da indústria amplia a diversidade de estruturas e participantes.
Por isso, acredito que a próxima etapa de evolução dos FIDCs não será medida apenas pelo volume de patrimônio ou pelo número de operações. Será determinada pela capacidade do mercado de construir transparência, governança e inteligência sobre o risco. Quanto mais sofisticado se torna o crédito privado, menos espaço existe para decisões baseadas exclusivamente em taxas de retorno.
O investidor precisa compreender o que existe por trás daquela rentabilidade: qual é o ativo real que gera o fluxo financeiro, quem são os devedores, como o risco está distribuído, quais mecanismos protegem a operação e como a carteira está se comportando. Essa é uma mudança importante de mentalidade.
O crescimento dos FIDCs mostra que o mercado brasileiro está deixando de enxergar o crédito estruturado como um segmento periférico e passando a tratá-lo como parte relevante da infraestrutura de financiamento da economia. Para as empresas, isso significa diversificação das fontes de capital. Para os investidores, significa acesso a novas estratégias e exposições à economia real. E, para o sistema financeiro, significa reduzir gradualmente uma dependência histórica do crédito bancário como principal canal de financiamento empresarial.
É por isso que considero o avanço dos FIDCs mais do que uma disputa entre instrumentos financeiros. CRIs, CRAs, debêntures e FIDCs continuarão cumprindo funções importantes e complementares. O que está mudando é a capacidade de o mercado escolher estruturas mais adequadas a cada tipo de ativo, empresa e necessidade de financiamento.
Os FIDCs estão ganhando espaço porque combinam três características particularmente importantes para essa nova fase: flexibilidade para estruturar diferentes tipos de crédito, capacidade de conectar capital diretamente à economia produtiva e potencial de utilizar tecnologia e dados para tornar a análise de risco mais granular.
O desafio agora é fazer com que governança, transparência e capacidade de análise avancem na mesma velocidade. Se isso acontecer, o crescimento dos FIDCs não representará apenas a ascensão de mais um produto financeiro. Representará um mercado de capitais mais profundo, diversificado e conectado à economia real.
*Richard Ionescu é CEO do Grupo IOX











