Por Vítor Ribeiro*
Na última semana, Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia firmaram um acordo para ampliar a participação norte-americana na defesa do território autônomo. Assinado no principal palco do multilateralismo global, a Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, o pacto soluciona um embate que ameaçou rachar a histórica aliança entre Washington e a Europa, mas deixa a sensação de que seu custo pode ter sido alto demais.
A rusga surgiu no início de 2026, após o presidente norte-americano, Donald Trump, exigir “negociações imediatas” para aquisição da Groenlândia. Rechaçado tanto pelos governos locais quanto por lideranças europeias, Trump subiu o tom, ameaçando utilizar sanções econômicas e ventilando até mesmo o uso da força para alcançar seu objetivo. Enquanto os políticos trocavam acusações, diplomatas agiam como adultos e trabalhavam nos bastidores para costurar um acordo.
Destacando “os oitenta anos de cooperação” entre as partes, o novo pacto tem como objetivo “facilitar todas as medidas necessárias e apropriadas” para defender “o tratado do Atlântico Norte, a Groenlândia e o continente americano”. Trump enfatizou que o entendimento dá aos Estados Unidos “controle permanente da segurança e de todas as outras necessidades” do território. Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, correu para contrapor que a “soberania e a integridade territorial” do país e o “direito à autodeterminação da Groenlândia” seguem garantidos.
Em sua essência, a particularidade do novo acordo reside justamente no quão similar é ao pacto original, de 1951. Neste, os signatários já concordavam em partilhar obrigações de defesa e abriam espaço para que os Estados Unidos estabelecessem – como o fizeram – bases militares na região. Ainda que preveja novas instalações e a ampliação das existentes, o entendimento mais reforça que inova, o que levou a críticas de que Trump teria apenas trocado as palavras e assinado ao final do trabalho. Uma mudança, todavia, merece destaque: a inclusão do chamado “Direito de Recusa”.
Similar ao já previsto em pactos entre os Estados Unidos e outras nações, especialmente do Pacífico, a cláusula estabelece limitações ao Investimento Estrangeiro Direto (IED) em setores estratégicos da Groenlândia. O texto exige aprovação unânime para que atores públicos ou privados de fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou da União Europeia (UE) tenham “controle, influência significativa e acesso à informação privada” em áreas ou atividades sensíveis. O objetivo é evitar a influência estrangeira na região, medida significativa diante da crescente importância do Ártico na geopolítica mundial.
Coberta por gelo em 80% de sua extensão, a Groenlândia é majoritariamente inóspita para ocupação humana. Contudo, abriga sob a superfície uma vasta riqueza mineral, incluindo reservas de terras-raras, recursos indispensáveis para a transição energética e tecnologias ligadas à Inteligência Artificial, e um dos mais cobiçados alvos da disputa geopolítica entre China e Estados Unidos. O principal trunfo do território, porém, não está debaixo da terra, mas sim no mapa.
Maior ilha do mundo, localiza-se em posição estratégica no norte do Oceano Atlântico. Posicionada entre Estados Unidos e o Círculo Polar Ártico, funcionaria como peça central em um sistema de alerta contra ataques de mísseis balísticos lançados do Leste. Além disso, com o degelo provocado pelas mudanças climáticas, o território figura como fundamental em rotas alternativas no caso de estresse das vias tradicionais. Os conflitos no Irã e no Iêmen, que no momento sufocam o comércio no Oriente Médio, evidenciam a urgência.
Não obstante o estilo exagerado e combativo, Trump costuma acertar no diagnóstico. Nesse caso, novamente, foi preciso: Rússia e China têm ampliado sua presença no Ártico. Com 25% de seu território na região, Moscou é um de seus principais atores, onde regularmente realiza atividades civis e militares. Diplomatas europeus, inclusive, a veem como palco propício a ataques híbridos russos. Pequim, por sua vez, se declara “Estado quase-Ártico” e vem expandindo investimentos na busca pela “Rota da Seda do Gelo”. Recentemente, uma empresa chinesa anunciou o primeiro serviço regular de contêineres pelo Ártico, prometendo reduzir em 50% o tempo de transporte entre China e Europa.
A inserção do Direito de Recusa, portanto, é progresso que chancela a relevância do novo acordo. Aliado às medidas de prevenção à espionagem também presentes no texto, dará às partes insumos para reagir a – e repelir – ameaças não apenas no território, mas no Atlântico Norte como um todo. A natureza permanente do pacto, teoricamente válido mesmo em uma possível independência da Groenlândia, reforça sua estabilidade, promove segurança jurídica e facilita a atração de capital. A grande questão é avaliar se o ganho do avanço compensa o custo de alcançá-lo.
No auge da disputa, analistas – e mesmo líderes da organização – afirmaram que a crise poderia representar “o fim da OTAN”. Àquela altura, outros embates já assolavam a parceria, como a exigência norte-americana de mais gastos europeus com defesa, concessões pesadas em acordos comerciais e a sempre dúbia relação de Trump com o russo Vladimir Putin. A diplomacia prevaleceu, e a ruptura não veio, no entanto cada nova farpa minou mais a já abalada confiança, afastando os aliados.
Essa tendência fica clara na busca europeia por alternativas: à época, reviveu o quase esquecido acordo com o Mercosul, finalmente sacramentado após 20 anos de negociação. Agora, impulsiona a crescente aproximação com o Canadá, convidado a se tornar o “primeiro membro associado” à União Europeia, expressão indeterminada, mas que demonstra, no mínimo, interesse. A busca pela chamada “autonomia estratégica” é hoje mantra exaustivamente repetido tanto em Bruxelas quanto nas capitais europeias, e engloba desde iniciativas para estimular o uso do euro em transações internacionais e medidas para fortalecer a produção local até a criação de um complexo industrial bélico próprio.
Até o momento, a pressão norte-americana tem feito aliados buscarem aliados. Há, contudo, um limite para o que tais conexões são capazes de oferecer. A probabilidade segue maior de que, frente a necessidades não supridas, o camarada rejeitado resigne-se e volte aos braços de quem o afastou. Mas isso está longe de ser um axioma. Caso a corda estique demais, há interessados a Leste prontos a oferecer uma mão, supostamente, amiga.
Uma máxima estabelece que não há vácuos nas relações internacionais. Todo espaço vago deixado por uma liderança tende a ser rapidamente preenchido por seus adversários. Nesse caso, não será diferente. A questão não é saber se alguém o fará, mas sim quem e quando. E, acima de tudo, quais solavancos na ordem internacional isso provocará.
*Vítor Ribeiro é especialista em Finanças Públicas e sócio na consultoria de risco geopolítico na World on Watch










