*Por Igor Monteiro
A evolução do mercado financeiro na última década foi marcada por um fenômeno que, embora pouco conhecido, tem modificado (e muito) a forma como o investidor moderno se comporta. O financial deepening, termo comum na literatura internacional, representa o processo de amadurecimento e expansão estrutural dos mercados financeiros, sendo majoritariamente caracterizado por uma maior disponibilidade de ativos e pela ampliação do acesso a produtos mais sofisticados. No Brasil, esse processo tem ganhado contornos cada vez mais visíveis, que moldam tanto o comportamento dos investidores quanto o próprio desenho dos portfólios.
Mas o que isso significa para os investimentos alternativos e, em especial, para o venture capital?
Um novo perfil de investidor brasileiro em construção
Até o início dos anos 2000, a intermediação financeira no Brasil era majoritariamente pública e concentrada. O acesso a produtos no mercado de capitais era limitado a um grupo restrito, e a renda variável não fazia parte do vocabulário da maior parte dos investidores. O amadurecimento veio com a consolidação de instituições como a CVM e a B3, e com o desenvolvimento do ambiente de negócios.
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Entre 2010 e 2025, observamos um crescimento expressivo dos ativos financeiros no país. O patrimônio líquido da indústria de fundos, por exemplo, saltou de cerca de R$ 1,5 trilhão em 2010 para R$ 10,7 trilhões ao fim de 2025, segundo dados da ANBIMA.
Esse avanço foi acompanhado da multiplicação de investidores pessoa física na B3: de menos de 500 mil em 2010 para cerca de 5,5 milhões ao fim de 2025. De certo modo, ainda que a passos pequenos, o Brasil está absorvendo esse movimento, com uma maior base de investidores e maior volume de recursos disponíveis no mercado de capitais. Essa transformação abriu espaço para que novas dinâmicas de diversificação se instalassem, aumentando a penetração dos ativos alternativos na carteira dos investidores.
De 2020 a 2025: a mudança de mentalidade do investidor
Essa evolução aconteceu tanto no mercado quanto no próprio comportamento dos investidores. Num retrospecto, a 3ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro (ANBIMA/Datafolha, 2020) mostrou que 62% da população não conseguiu poupar em 2019. Já a 9ª edição (2025) apontou que 33% da população conseguiu poupar, mas apenas 12% desse grupo transformou a reserva em investimento — um potencial de mais 35 milhões de investidores.
Atualmente, 60,6 milhões de brasileiros já investem (36% da população). E a ANBIMA projeta que mais de 23 milhões de pessoas pretendem começar a investir em 2026, com potencial líquido de 8,7 milhões de novos investidores.
Mais capital, mais infraestrutura, mais alternativas
Trazendo essa discussão para os investimentos alternativos, e falando de venture capital mais especificamente, conseguimos identificar a manifestação do financial deepening em alguns exemplos como:
Demanda crescente por diversificação
Pesquisas feitas pelas consultorias Mercer e Cais mostram que 90% dos assessores já incorporam produtos alternativos nas carteiras de seus clientes, enquanto 88% projetam ampliar essas alocações nos próximos anos. Quase metade (49%) já destina mais de 10% das carteiras a essa classe.
Essa tendência é sustentada pela escala global da indústria: o volume de ativos sob gestão em alternativos deve alcançar US$ 32 trilhões globalmente até 2030 (Preqin, Private Markets in 2030).
No Brasil, que pouco a pouco tem ganhado mais maturidade regulatória e tecnológica, vemos investidores recorrendo cada vez mais a essas classes como estratégia de diversificação e de construção de portfólios mais sofisticados.
Entre os alternativos mais buscados, estão as participações em empresas privadas — tanto via fundos de venture capital e private equity quanto em plataformas de investimento online — além de ativos digitais tokenizados, que ampliam a liquidez e acessibilidade de investimentos outrora restritos. No venture capital especificamente, foram R$ 14,5 bilhões investidos em 367 rodadas ao longo do ano (TTR Data).
Um portfólio moderno reflete um sistema financeiro maduro
O avanço estrutural do mercado brasileiro abriu espaço para teses de investimento antes fora do radar da maioria dos investidores. O financial deepening, para além de democratizar, também qualificou o ambiente para que ativos sofisticados se tornassem acessíveis ao investidor pessoa física.
Ainda há muito dever de casa a ser feito, mas essa tendência tem se mostrado como uma oportunidade para sofisticar o portfólio não só pela diversificação, mas pela capacidade de encontrar valor onde ele nasce: nas empresas que estão construindo o futuro.
*Igor Monteiro é CEO da EqSeed
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