O projeto Xlinks Morocco-UK Power Project propôs ligar o norte da África à rede britânica por cabos submarinos HVDC de cerca de 3.800 quilômetros. A promessa era entregar energia renovável contínua, mas o plano também expôs dúvidas sobre custo, segurança energética, licenciamento e dependência internacional.
Como o megaprojeto Xlinks pretendia gerar energia no Marrocos?
A proposta da Xlinks First Ltd previa um grande complexo renovável na região de Guelmim-Oued Noun, no Marrocos, combinando geração solar, eólica e baterias. Relatos do projeto indicavam 10,5 GW de capacidade renovável, sendo 7 GW solares e 3,5 GW eólicos.
A lógica era aproveitar alta radiação solar, regime de ventos complementar e armazenamento para fornecer eletricidade com perfil mais estável. A energia seria exportada para o sudoeste da Inglaterra, reduzindo oscilações típicas de geração renovável puramente local.

Por que os cabos HVDC seriam essenciais para atravessar o Atlântico?
A transmissão em corrente contínua de alta tensão é usada em grandes distâncias porque reduz perdas em comparação com alternativas de corrente alternada em trajetos submarinos extensos. No caso da Xlinks, o plano envolvia aproximadamente 3.800 quilômetros de cabos submarinos entre Marrocos e Reino Unido.
A documentação ambiental do processo britânico descrevia corredor offshore, obras terrestres e conexão à rede de transmissão inglesa. Também previa infraestrutura em North Devon, incluindo ligação até subestações e estações conversoras para transformar energia entre corrente contínua e alternada.
Que infraestrutura seria instalada no lado britânico?
No Reino Unido, o projeto incluía cabos onshore, estações conversoras, conexão à rede nacional e obras associadas. Documentos de autoridades locais em Devon indicavam um corredor terrestre de aproximadamente 14,5 quilômetros para conectar os cabos HVDC às estações conversoras planejadas.
O empreendimento chegou a ser tratado como infraestrutura nacionalmente significativa. Relatório do Devon County Council registrou que, em 26 de setembro de 2023, o Secretário de Estado confirmou a relevância nacional do projeto e direcionou a necessidade de consentimento de desenvolvimento.
Quais riscos técnicos e estratégicos cercavam a proposta?
A escala do projeto exigia avaliar cabos, conversores, rotas marítimas, licenciamento, financiamento e segurança. Em interligações transcontinentais, a engenharia não se limita à instalação física: cada trecho precisa lidar com fundo marinho, manutenção, proteção contra danos, integração à rede e riscos geopolíticos de longo prazo.
Os principais pontos de atenção eram:
- Cabo submarino de cerca de 3.800 quilômetros.
- Estações conversoras HVDC no Reino Unido.
- Integração com a rede de transmissão britânica.
- Licenciamento ambiental terrestre e marinho.
- Risco de atrasos na cadeia global de cabos.
- Segurança física de infraestrutura submarina crítica.
- Dependência de geração fora do território britânico.
- Necessidade de contrato de longo prazo para viabilizar receita.
Esses fatores explicam por que o debate não era apenas climático. O projeto combinava transição energética, comércio internacional de eletricidade, vulnerabilidade de infraestrutura submarina e política industrial, temas centrais para qualquer governo que busca reduzir emissões sem ampliar riscos sistêmicos.

O que decidiu o governo britânico sobre apoiar o projeto?
Em 2025, o governo britânico decidiu não apoiar o Xlinks Morocco-UK Power Project com um contrato por diferença. Um registro oficial do Department for Energy Security and Net Zero cita reunião para comunicar a decisão de não apoiar a proposta da Xlinks.
A decisão foi noticiada como rejeição do apoio estatal ao projeto, estimado em cerca de US$ 34 bilhões. Segundo a Reuters, o governo concluiu que renováveis domésticas trariam melhores benefícios econômicos e alinhamento maior com metas estratégicas nacionais.
O projeto ainda pode influenciar a transição energética global?
Mesmo sem apoio britânico naquele formato, o projeto segue relevante como estudo de caso. Ele mostra que cabos HVDC submarinos podem transformar regiões ricas em sol e vento em exportadoras de eletricidade, mas também evidenciam a dificuldade de financiar infraestrutura transcontinental crítica.
A política energética britânica continua priorizando segurança, resiliência e independência. O plano oficial Powering Up Britain: Energy Security Plan afirma que o Reino Unido busca tornar seu sistema energético mais independente, seguro e resiliente, ponto que ajuda a explicar a preferência por alternativas domésticas.











