Por Ana Claudia Badra Cotait*
A decisão do Governo Federal de zerar o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”, reacendeu um debate importante sobre o modelo econômico que o Brasil deseja fortalecer. À primeira vista, a medida pode parecer apenas um alívio no preço final para o consumidor, mas seus efeitos vão além das compras feitas em plataformas digitais. A discussão envolve competitividade, geração de empregos, fortalecimento da indústria nacional, equilíbrio concorrencial e previsibilidade para quem produz, vende e empreende dentro do país.
Quando produtos importados chegam ao Brasil com menor carga tributária e sem enfrentar as mesmas exigências impostas às empresas nacionais, cria-se uma assimetria difícil de sustentar. O consumidor pode perceber uma redução imediata de preço, mas a economia brasileira pode sentir, no médio e longo prazo, os impactos sobre empregos, arrecadação, produção local e pequenos negócios.
É legítimo discutir o acesso ao consumo e a busca por preços mais baixos. Em um país com tantas desigualdades, esse é um ponto importante, mas também é necessário reconhecer que o desenvolvimento econômico não se constrói apenas com produtos mais baratos. Ele depende de empresas fortes, indústria competitiva, comércio ativo, empregos preservados e regras claras para todos os agentes do mercado.
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Taxa das blusinhas com foco no equilíbrio concorrencial
A tributação das remessas internacionais foi criada justamente para tentar corrigir parte desse desequilíbrio. O objetivo era aproximar as condições de concorrência entre produtos vendidos por grandes plataformas estrangeiras e aqueles produzidos ou comercializados por empresas brasileiras, que pagam impostos, cumprem obrigações trabalhistas, seguem normas regulatórias e contribuem diretamente para a economia nacional.
Por isso, o debate não deve ser reduzido a uma escolha entre consumo e tributação. A pergunta central é mais ampla: queremos um país que apenas consome o que vem de fora ou um país capaz de produzir, empregar, inovar e competir em condições justas?
Setores mais afetados pelo fim da taxa das blusinhas
Setores como o têxtil, o vestuário, o comércio varejista, a beleza, a economia criativa e os serviços locais estão entre os mais sensíveis a mudanças bruscas nas regras de concorrência. São áreas formadas por milhares de micro e pequenas empresas, muitas delas familiares, que movimentam economias regionais e sustentam milhões de trabalhadores.
No caso da cadeia têxtil e de confecção, o impacto é ainda mais evidente. Trata-se de um setor intensivo em mão de obra, com forte presença no comércio local e grande capacidade de geração de renda. Quando essa cadeia perde competitividade diante de importados, o efeito não fica restrito às indústrias. Ele chega às lojas de bairro, às pequenas confecções, aos fornecedores, aos prestadores de serviço e às famílias que dependem dessa atividade.
Segundo estimativa do setor industrial em 2026, a tributação das remessas internacionais ajudou a preservar aproximadamente 135 mil empregos e evitou perdas bilionárias para a economia nacional. Esse dado mostra que a discussão precisa ser tratada com responsabilidade, considerando não apenas o impacto no preço final, mas também os efeitos sobre o emprego, a produção e a sustentabilidade dos negócios brasileiros.
Impacto sobre o empreendedorismo feminino
A previsibilidade regulatória e a segurança jurídica são fundamentais para qualquer economia saudável. Mudanças repentinas nas regras podem gerar incerteza para quem investe, produz e contrata. E a incerteza é um dos maiores obstáculos para o crescimento dos pequenos negócios, que têm menos margem para absorver perdas e se adaptar rapidamente a oscilações de mercado.
É nesse ponto que a discussão também se conecta ao empreendedorismo feminino. Muitas mulheres atuam justamente nos segmentos mais afetados por essa concorrência, como moda, vestuário, beleza, comércio varejista e serviços. São empreendedoras que construíram seus negócios com esforço, muitas vezes conciliando a gestão da empresa com responsabilidades familiares e desafios ainda presentes no mercado de trabalho.
Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT), elaborados em parceria com o Instituto de Estudos e Marketing Industrial (IEMI) e divulgados em 2026, apontam que cerca de 60% da força de trabalho da cadeia têxtil brasileira é composta por mulheres.
O mesmo levantamento mostra que a participação feminina no comando de empresas do vestuário cresceu de 9,8% em 2010 para 24,1% em 2025.
Esses números ajudam a compreender por que decisões de política econômica também têm efeitos sociais relevantes. Quando um setor perde competitividade, não são apenas empresas que enfrentam dificuldades. São empregos, rendas familiares, economias locais e trajetórias empreendedoras que ficam mais vulneráveis.
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O Brasil precisa garantir acesso ao consumo, mas também precisa proteger sua capacidade de produzir. Precisa dialogar com a economia digital, mas sem abandonar a indústria nacional. Precisa reconhecer a importância das plataformas internacionais, mas sem deixar desamparados os pequenos negócios que sustentam a economia real feita por pessoas.
A discussão sobre a “taxa das blusinhas” deve ser tratada, portanto, como uma pauta de equilíbrio, que precisa caminhar entre preço e produção, o consumo e o emprego, a abertura de mercado e a isonomia competitiva. A balança deve alinhar inovação e responsabilidade com quem empreende dentro das regras brasileiras.
Mais do que discutir uma alíquota, estamos discutindo o tipo de desenvolvimento que queremos para o país. Um desenvolvimento que valorize o consumidor, mas que também preserve empregos, fortaleça empresas brasileiras, estimule a produção nacional e dê condições justas para que pequenos negócios continuem crescendo.
Fortalecer a economia brasileira exige escolhas responsáveis. E proteger quem produz, emprega e empreende no Brasil é parte essencial desse caminho.
*Ana Claudia Badra Cotait é presidente Nacional do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB)











