A super quarta (17) desta semana deve ser marcada por cautela nas definições dos juros no Brasil e nos Estados Unidos. Essa é a avaliação de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, que reforça que as tensões geopolíticas tornaram a tarefa dos bancos centrais mais complexa.
Para ele, a economia global vive uma mudança de regime em que fatores geopolíticos passaram a ter peso crescente na definição das expectativas de inflação, dos investimentos e das decisões de política monetária.
Segundo Simioni, o conflito entre Estados Unidos e Irã deixou de ser apenas um evento pontual e passou a influenciar diretamente a dinâmica econômica global. Desde o início das tensões, o petróleo acumulou forte valorização, elevando custos de transporte, logística, energia e produção industrial em diversas regiões do mundo.
Bancos centrais monitoram inflação de energia
Na avaliação do economista, o principal desafio das autoridades monetárias nesta super quarta é determinar se o atual choque de oferta será temporário ou persistente.
Nunca foi tão fácil ficar atualizado sobre finanças, economia e investimentos. Assine gratuitamente
Esse cenário já começa a influenciar a postura de diversos bancos centrais. O Banco do Japão (BoJ) e o Banco da Coreia do Sul (BoK) sinalizam a possibilidade de elevar juros no segundo semestre diante da aceleração da inflação.
Na Europa, investidores acompanham os próximos passos do Banco Central Europeu (BCE) — que elevou os juros pela 1ª vez em três anos —, enquanto o Banco da Inglaterra (BoE) também enfrenta desafios relacionados à inflação de serviços e ao crescimento econômico mais fraco.
Fed pode manter discurso cauteloso na super quarta
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) realiza sua próxima reunião em um ambiente de inflação ainda pressionada e mercado de trabalho resiliente.
Segundo Simioni, caso a autoridade monetária avalie que os impactos inflacionários decorrentes do choque energético persistirão por dois trimestres, poderá realizar ao menos três elevações graduais de juros ao longo do segundo semestre.
Em um cenário mais prolongado, com duração superior a três trimestres, o economista avalia que o Fed poderia optar por aumentos mais fortes, entre 0,50 e 0,75 ponto percentual, priorizando o controle da inflação mesmo diante dos riscos para a atividade econômica.
Para Andressa Durão, economista do ASA, apesar de manter os juros, o Fed deve retirar o viés de flexibilização do primeiro comunicado assinado pelo novo presidente da instituição, Kevin Warsh.
Mercado vê corte residual da Selic
No Brasil, a expectativa predominante continua sendo de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic nesta quarta. Para Rafael Sueishi, head de renda fixa da Manchester Investimentos, o cenário-base contempla uma redução residual dos juros, levando a Selic para 14,25% ao ano.
“A decisão mais provável é um corte de 0,25 ponto percentual, mas acompanhado de uma comunicação dura e sem compromisso com novas reduções nas próximas reuniões”, afirma.
Segundo Sueishi, o IPCA de maio acima das expectativas e a deterioração das projeções inflacionárias reforçam a necessidade de cautela por parte do Banco Central.
O economista observa que as projeções para a inflação de 2026 continuam em alta e que o mercado já passou a trabalhar com um ciclo de afrouxamento monetário mais curto e mais lento do que o esperado no início do ano.
Acordo entre EUA e Irã pode aliviar pressão na super quarta
Apesar das preocupações inflacionárias, o avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã neste final de semana pode contribuir para reduzir parte das pressões sobre os preços globais.
Sueishi destaca que a perspectiva de um acordo de paz ajudou a derrubar os preços do petróleo e melhorou o apetite por ativos de risco nos mercados internacionais.
Segundo ele, esse movimento tende a beneficiar moedas emergentes, como o real, e aliviar parcialmente as expectativas de inflação por meio de um câmbio mais favorável. Ainda assim, o especialista avalia que esse fator, isoladamente, não deve alterar de forma relevante a estratégia do Banco Central brasileiro.
Dois cenários para o Banco Central
Na avaliação da Blue3, o Banco Central terá de sinalizar qual leitura faz da duração do choque inflacionário.
No primeiro cenário, caso considere que os efeitos serão temporários (até dois trimestres), a autoridade monetária poderia encerrar o ciclo de cortes e manter os juros estáveis ao longo do segundo semestre. Nesse caso, a inflação ficaria entre 4% e 4,5% em 2026 e entre 3,5% e 4,0% em 2027. Com o PIB crescendo 1,6% neste ano.
No segundo cenário, caso avalie que as pressões inflacionárias serão mais persistentes (acima de três trimestres), o BC poderia voltar a elevar os juros para conter a deterioração das expectativas e evitar efeitos secundários sobre preços e salários.
Para Simioni, a próxima reunião do Copom pode representar um ponto importante na definição da estratégia monetária para o restante de 2026, especialmente diante das incertezas envolvendo inflação, câmbio, atividade econômica e cenário internacional.
Neste cenário, as projeções da Blue3 apontam para uma inflação entre 4,8% e 5,2% em 2026, e o crescimento econômico ficaria entre 1,4% e 1,7%.











