A guerra no Oriente Médio deve levar o Federal Reserve (Fed) a elevar os juros nas próximas duas reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) em setembro e outubro, segundo a avaliação de Andressa Durão, economista do ASA.
A projeção foi apresentada nesta terça-feira (4), durante coletiva de imprensa sobre as perspectivas para o segundo semestre. Para a economista, a expectativa da instituição é de duas altas de 0,25 ponto percentual. Segundo ela, o objetivo seria tornar a política monetária mais restritiva diante da persistência da inflação de serviços.
“O Fed ainda não subiu juros, mas precisou mudar rapidamente o discurso para mostrar que ele fará o que for necessário para conter a inflação. Antes da guerra, já imaginávamos que não haveria corte em 2026. Se não tivéssemos o choque, manteríamos o cenário de manutenção neste ano, mas agora o cenário mudou”, disse.
Guerra muda expectativas para juros do Fed e credibilidade está no radar
Segundo Durão, o mercado passou a ser influenciado mais pelos choques geopolíticos do que pelos indicadores tradicionais de atividade econômica.
Ela comentou que os mercados já começaram a incorporar um cenário de petróleo acima de US$ 70 por barril, mas com preços mais próximos de US$ 90, o que aumenta a pressão sobre os índices de inflação.
Na avaliação da economista, apesar da indicação de dois aumentos nos juros, a economia norte-americana segue resiliente e não há sinais de deterioração do mercado de trabalho que justifiquem um ciclo intenso de aperto monetário. Ainda assim, o Fed deve agir para conter a inflação.
A economista também abordou a atuação de Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve indicado pelo presidente Donald Trump. Segundo ela, havia dúvidas sobre a postura que Warsh adotaria na condução da política monetária.
Em sua primeira coletiva, o dirigente reforçou a importância da credibilidade do Banco Central como instrumento para controlar a inflação, mas durante o comunicado da última decisão, essa credibilidade passou a ser questionada.
Brasil deve cortar Selic e interromper ciclo
Para a economia brasileira, o ASA mantém expectativa de redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira (5).
O economista Leonardo Costa afirmou que os indicadores recentes mostram desaceleração gradual da atividade econômica, embora o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ainda deva ficar próximo de 2% em 2026.
Entre os sinais de perda de ritmo, ele destacou a queda de 1,8% da produção industrial em junho, divulgada nesta terça-feira (4) pelo IBGE, além do enfraquecimento dos indicadores de confiança e da desaceleração observada no mercado de trabalho.
Segundo Costa, a inflação de curto prazo apresentou comportamento mais favorável nas últimas semanas, ajudada pelo desempenho do câmbio, que limitou parte do impacto da alta do petróleo sobre os combustíveis.
Eleições devem definir próximos passos dos juros no Brasil
Após o corte esperado nesta semana, o ASA prevê manutenção da Selic em 14% ao ano durante o período eleitoral. De acordo com Costa, a retomada do ciclo de redução dos juros dependerá do cenário fiscal que surgir após as eleições presidenciais.
“O desafio não é apenas saber quem vencerá a eleição, mas qual será o arranjo fiscal do próximo governo e como o mercado avaliará esse compromisso”, afirmou.
Segundo o economista, a velocidade e o momento da implementação de eventuais medidas de ajuste fiscal serão determinantes para a reação dos mercados e para a possibilidade de novos cortes da Selic, incluindo uma eventual redução adicional de 0,25 ponto percentual em dezembro.
ASA vê incerteza fiscal semelhante à de 2022
O head de macroeconomia do ASA, Jeferson Bittencourt, afirmou que o período eleitoral deve manter elevada a incerteza sobre a trajetória das contas públicas.
Segundo ele, há poucas indicações sobre o ajuste fiscal que poderá ser implementado pelo próximo governo, e o Congresso terá poucas janelas de votação para aprovar projetos de maior impacto até a eleição.
Bittencourt avaliou que o mercado acompanhará não apenas o tamanho de um eventual ajuste fiscal, mas também o momento de sua implementação. Caso medidas relevantes já sejam incorporadas ao Orçamento, a percepção dos investidores tende a ser mais favorável.
No cenário-base da instituição, com poucos avanços na consolidação fiscal, a dívida bruta do governo poderá atingir em 2027 um patamar semelhante ao observado durante o pico da pandemia de Covid-19.











