A intervenção coordenada entre Japão e Estados Unidos para fortalecer o iene perdeu força em poucos dias e voltou a colocar em evidência os desafios enfrentados pelas autoridades japonesas para conter a desvalorização da moeda. Apenas uma semana depois da operação, o iene já devolveu quase metade da valorização obtida com a ação conjunta e agora reacende as expectativas de uma nova intervenção no mercado cambial.
Na manhã desta sexta-feira (7), a moeda japonesa era negociada em torno de 158,45 ienes por dólar, distante da cotação de aproximadamente 155,23 registrada na segunda-feira (3), quando a atuação coordenada do Banco do Japão (BoJ) e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impulsionou a recuperação da moeda.
Essa desvalorização evidencia os limites das intervenções cambiais quando permanecem inalterados os fatores estruturais que pressionam o iene. Entre eles estão a ampla diferença entre os juros japoneses e americanos, o elevado endividamento do Japão e o ambiente de incerteza geopolítica, que segue favorecendo a demanda pelo dólar.
No sentido oposto, a moeda americana registrava seu maior ganho diário em duas semanas, na quinta-feira (6), acompanhando a alta dos preços do petróleo, em meio à redução das expectativas de um arrefecimento das tensões no Oriente Médio.
Especulação de nova intervenção sobre o iene volta ao mercado
A rápida perda de força do iene levou investidores a cogitarem uma nova atuação conjunta das autoridades japonesas e americanas. Representantes do Japão e dos EUA já afirmaram que permanecem preparados para defender a moeda japonesa caso seja necessário, reforçando a disposição de atuar novamente para conter movimentos considerados excessivos no câmbio.
Dados trimestrais divulgados nesta sexta-feira pelo Ministério das Finanças do Japão mostram que o governo realizou intervenções em três pregões entre 30 de abril e 6 de maio, período em que a liquidez do mercado estava reduzida devido aos feriados no país.
Na semana passada, antes da mais recente operação coordenada com os EUA, o iene havia se aproximado da mínima em cerca de quatro décadas, perto de 164 unidades por dólar. A ação marcou a primeira compra conjunta de ienes realizada por Japão e Estados Unidos desde 1998.
Impactos da intervenção dos EUA no iene
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, avalia que a intervenção dos Estados Unidos no mercado de câmbio japonês pode ser interpretada a partir de três fatores principais:
- Sinalização de parceria estratégica entre os dois países: para o especialista, apesar de o movimento ter um componente político, o impacto financeiro direto da operação é relativamente limitado, considerando que a participação americana foi estimada em cerca de US$ 10 bilhões, um valor pequeno diante do tamanho dos mercados globais.
- Proteção do mercado de títulos americanos: considerando o cenário atual no qual o Japão é o maior detentor estrangeiro de Treasuries, com mais de US$ 1 trilhão em títulos da dívida dos EUA, Alves explica que, para conter a desvalorização do iene, o Banco Central japonês precisa vender dólares e, consequentemente, pode reduzir suas reservas em títulos americanos.
Ele explica que uma venda relevante de Treasuries poderia pressionar os juros americanos para cima, aumentando o custo de financiamento. Analisando esses aspectos, a intervenção americana ajuda a evitar uma pressão adicional sobre o mercado de renda fixa. - Redução de movimentos excessivos nas moedas: segundo o estrategista, intervenções cambiais fazem parte da atuação tradicional dos bancos centrais para reduzir movimentos excessivos nas moedas. O diferencial no caso do iene, aponta Alves, foi a participação dos EUA, enquanto o objetivo principal é dar tempo para que o Japão ajuste sua política monetária de forma gradual, evitando impactos mais fortes sobre a economia.
Mercado volta a olhar para os Treasuries
Com o efeito inicial da intervenção perdendo força, investidores voltaram a direcionar a atenção para o comportamento dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, que continuam sendo apontados por analistas ouvidos pela Bloomberg como um dos principais fatores de sustentação do dólar frente ao iene.
Operadores também destacaram que uma segunda tentativa de levar a cotação do dólar abaixo de 155 ienes fracassou, fortalecendo a percepção de que a estratégia conduzida pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, teve caráter pontual e não representa, por enquanto, uma política contínua de atuação no mercado.
Operações de câmbio atingem volumes inéditos
A desvalorização do iene voltou a ganhar intensidade em julho, quando atingiu novas mínimas em aproximadamente 40 anos, sendo negociado abaixo de 163 unidades por dólar.
Dados preliminares do Banco do Japão indicam que o país pode ter utilizado até US$ 58,97 bilhões em 30 de julho e outros US$ 36,58 bilhões no dia seguinte para comprar ienes. Se confirmados, os valores representarão a maior intervenção cambial da história do país. Os números oficiais da operação serão divulgados pelo Ministério das Finanças em 28 de agosto.
Os dados do Ministério das Finanças mostravam que a maior intervenção individual ocorreu em 30 de abril, quando foram utilizados 6,28 trilhões de ienes (US$ 39,64 bilhões). O montante superou o recorde anterior, de 5,92 trilhões de ienes, registrado em 29 de abril de 2024, na série histórica iniciada em 1991.
As informações divulgadas por último detalham a intervenção mensal recorde de 11,7 trilhões de ienes realizada entre 28 de abril e 27 de maio, cujos números consolidados já haviam sido publicados anteriormente.
Naquele período, a atuação das autoridades levou o iene de uma mínima próxima de dois anos, de 160,725 por dólar, para cerca de 155 em 6 de maio. Apesar do impacto imediato, a operação não conseguiu alterar a tendência mais ampla de enfraquecimento da moeda.
Apoio do Fed amplia capacidade de intervenção sobre o iene
Para reduzir as preocupações do mercado sobre a capacidade do Japão de sustentar intervenções de grande porte, Tóquio e Washington informaram que o país poderá recorrer a um mecanismo de liquidez criado pelo Federal Reserve durante a pandemia de Covid-19 para os principais bancos centrais.
A ferramenta permite que o Japão obtenha dólares sem precisar vender diretamente títulos do Tesouro americano (Treasuries), evitando pressão adicional sobre suas reservas internacionais durante operações no mercado de câmbio.
Apesar dessa possibilidade, dados do Federal Reserve mostram que nenhum contrato de recompra foi realizado por meio de contas oficiais estrangeiras na semana encerrada em 5 de agosto, indicando que o Japão não utilizou esse mecanismo na intervenção mais recente.
Atuação no câmbio será coordenada com decisões do BoJ
O principal responsável pela política cambial japonesa, Atsushi Mimura, afirma que as autoridades responderão aos movimentos do mercado de câmbio em coordenação com as decisões de política monetária.
Os contratos de swaps de índice overnight indicam aproximadamente 60% de probabilidade de uma elevação dos juros até setembro, refletindo a expectativa de uma política monetária menos acomodatícia.
Alves avalia que uma crise japonesa não é o cenário mais provável, mas uma mudança abrupta na política monetária do país poderia gerar efeitos relevantes nos mercados globais, principalmente pela importância do Japão como fonte de liquidez internacional.
Japão reforça compromisso com estabilidade do iene
Em Tóquio, a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, confirmou que o governo japonês atuou em conjunto com Washington.
“Compramos ienes japoneses em coordenação com o Departamento do Tesouro dos EUA. Esta ação conjunta […] contrariou a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados do iene japonês nos últimos meses”, afirmou.
A ministra evitou confirmar uma nova rodada de intervenções, mas Atsushi Mimura deixou claro que Japão e Estados Unidos permanecerão vigilantes diante dos movimentos do mercado cambial.
A atuação recente amplia uma estratégia iniciada em abril, quando o Japão promoveu uma intervenção recorde ao vender cerca de US$ 40 bilhões de suas reservas internacionais em um único dia para comprar ienes e conter a desvalorização da moeda.











