A recuperação dos spreads da carne bovina nos Estados Unidos não representa uma mudança estrutural no ciclo pecuário do país, segundo o BTG Pactual. Para o banco, a melhora das margens dos frigoríficos está mais relacionada à sazonalidade que antecede o Dia do Trabalho, em 7 de setembro, enquanto a oferta de gado continua restrita.
Os spreads, diferença entre o preço da carne e o custo do gado, são considerados pelo BTG um dos principais indicadores antecedentes das margens dos frigoríficos. Nas últimas semanas, eles se recuperaram, mas o banco resume o cenário em uma frase: “Os spreads estão melhores; o ciclo não.”
Para o BTG, essa recuperação e o desempenho das ações do setor de proteínas podem indicar que o mercado está antecipando uma normalização mais rápida das margens dos frigoríficos.
O banco, porém, considera que o ciclo pecuário pode evoluir em direção diferente. Isso ocorre porque o período mais difícil para os frigoríficos costuma aparecer próximo do fim da fase de retenção de animais, e não necessariamente no início.
Alta da carne segue padrão sazonal
O movimento recente coincide com um comportamento recorrente antes do feriado do Dia do Trabalho. Em um levantamento de 22 anos, os preços da carne bovina subiram em 17 deles nos 30 dias anteriores à data, com alta média de 3,9%.
Depois do feriado, porém, os preços recuaram em 17 dos 22 anos seguintes, com queda média de 4,8%. O pico costuma ocorrer cerca de duas semanas antes da data, quando os varejistas antecipam as compras.
Para o BTG, a recuperação atual ocorre após uma temporada de churrascos considerada excepcionalmente fraca e, por isso, apresenta mais características sazonais do que estruturais.
O fechamento da unidade da Tyson em Joslin, com capacidade para cerca de 3 mil cabeças por dia, em 13 de agosto, também ajudou a sustentar os preços. O banco ressalta, contudo, que a alta já havia começado antes do anúncio.
Pastagens ruins pressionam reconstrução do rebanho
Outro ponto de atenção está nas condições das pastagens americanas. Em agosto, 48% das áreas de pastagens e pastos dos Estados Unidos estavam classificadas como ruins ou muito ruins, ante 31% um ano antes.
A deterioração pode favorecer temporariamente as margens dos frigoríficos ao estimular a venda antecipada de animais. Ao mesmo tempo, dificulta a reconstrução do rebanho, reduzindo a disponibilidade futura de gado. “Pastagens ruins podem ser boas para os spreads dos frigoríficos hoje, mas ruins para eles amanhã”, afirma o BTG.
O banco também avalia que parte dos fatores que sustentam os preços no curto prazo tende a perder força. As compras associadas ao feriado devem diminuir após o fim da janela sazonal.
Além disso, uma medida que permite a entrada sem tarifa de até 300 mil toneladas de carne bovina destinada à produção de carne moída pode ampliar a oferta doméstica e pressionar os preços, caso seja integralmente implementada e utilizada.
A maior disponibilidade de gado mexicano também pode trazer algum alívio à oferta americana, mas o impacto deve ocorrer de forma gradual.
Frigoríficos fecham unidades, mas oferta de gado também cai
A restrição de animais já levou os frigoríficos a reduzir capacidade. O fechamento das unidades da Tyson em Lexington e Joslin, da operação de abate da JBS em Souderton e a redução para um turno da planta da Tyson em Amarillo equivalem, segundo estimativa do BTG, a um aumento de cerca de 11 pontos porcentuais na taxa de utilização da capacidade da indústria.
Com a expectativa de retomada do segundo turno em Amarillo, o ganho líquido deve ficar próximo de 8 pontos porcentuais.
O problema é que a disponibilidade de gado vem recuando em ritmo semelhante. Com menos animais terminados para abate, parte do ganho de utilização provocado pelo fechamento de plantas é anulada.
O BTG estima que a indústria opere com 84,9% de utilização da capacidade em 2026, acima dos 83,4% projetados para 2025, mas abaixo dos níveis superiores a 90% registrados em 2023 e 2024.
“Os frigoríficos estão, em grande parte, fechando plantas para acompanhar o declínio do número de bovinos, e não criando uma verdadeira escassez de capacidade”, afirma o banco.
Reconstrução do rebanho pode reduzir utilização em 2027
Para 2027, a recuperação da oferta de gado também deve ser gradual. Embora as importações do México possam aliviar parte da restrição, a reconstrução do rebanho americano tende a aumentar a retenção de fêmeas.
Com menos fêmeas enviadas ao abate, a disponibilidade de animais para os frigoríficos diminui. O BTG estima que esse processo possa retirar quase 4 pontos percentuais da utilização das plantas no próximo ano.
Mesmo com importações robustas do México, a utilização da capacidade chegaria a cerca de 86%, segundo o banco. A retenção de fêmeas pode já ter começado, mas ainda está distante do nível observado no início da reconstrução do rebanho no ciclo anterior.











