A compra líquida de criptomoedas por brasileiros caiu 58,4% em julho, na comparação anual, segundo dados do Banco Central (BC) divulgados nesta quinta-feira (27). O volume passou de US$ 1,4 bilhão para US$ 600 milhões no período.
A redução foi ainda maior na comparação mensal. Em junho, a aquisição líquida de criptomoedas havia alcançado US$ 2,6 bilhões, o que significa uma queda de aproximadamente 77% em julho.
Os dados fazem parte das estatísticas do setor externo divulgadas pelo Banco Central nesta quinta-feira (27). Segundo Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do BC, a retração indica uma redução na demanda por ativos virtuais.
“Vimos uma redução muito significativa dessa demanda por criptomoedas agora. Ela passou de US$ 1,4 bilhão em julho de 2025 para US$ 600 milhões em julho de 2026. No mês de junho, esse valor estava em US$ 2,6 bilhões”, afirmou Rocha durante coletiva sobre os dados de julho.
Regulação de criptomoedas influencia reorganização do mercado
De acordo com o chefe do departamento de estatísticas do Banco Central, a queda ocorre em um momento de reorganização do mercado de ativos virtuais, acompanhada pelo avanço da regulação e da supervisão de conduta do BC.
Entre os pontos destacados por Rocha estão as exigências relacionadas à governança e aos procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro. Governança, nesse contexto, corresponde às regras e estruturas utilizadas para definir responsabilidades, controles e decisões dentro das instituições.
A aquisição líquida de criptoativos com passivo correspondente, principalmente stablecoins, é registrada pelo BC na conta de outros investimentos, dentro do balanço de pagamentos.
Stablecoins são criptoativos projetados para manter seu valor próximo ao de uma referência, como uma moeda tradicional. O levantamento do BC, portanto, contabiliza essas operações nas estatísticas das contas externas brasileiras.
Déficit externo aumenta em julho
A redução das compras de criptoativos ocorreu enquanto o déficit em transações correntes aumentou em julho. O resultado negativo chegou a US$ 8,1 bilhões, ante US$ 6,9 bilhões em julho de 2025. As transações correntes registram as operações do país com o exterior relacionadas, entre outros itens, à balança comercial, serviços e rendas.
No acumulado de 12 meses até julho, o déficit somou US$ 62,9 bilhões, equivalente a 2,49% do Produto Interno Bruto (PIB). Em junho, o déficit acumulado correspondia a 2,47% do PIB.
A balança comercial registrou superávit de US$ 6,2 bilhões no mês, enquanto a conta de serviços teve déficit de US$ 5,3 bilhões. Já a renda primária apresentou saldo negativo de US$ 9,4 bilhões.
Viagens têm maior déficit para julho desde 2014
Outro destaque da divulgação foi a conta de viagens internacionais, cujo déficit chegou a US$ 1,56 bilhão em julho. Segundo Rocha, esse foi o maior déficit para um mês de julho desde 2014, quando o resultado negativo havia sido de US$ 1,6 bilhão.
“Foi um crescimento de 8% em relação a julho de 2025. Esse é o maior déficit na conta de viagens para o mês de julho desde 2014”, afirmou.
As despesas líquidas de viagens aumentaram 7,9% em relação a julho de 2025. As receitas recuaram 2,9%, enquanto as despesas dos brasileiros no exterior cresceram 3,7%, chegando a US$ 2,5 bilhões. Apesar da alta mensal, Rocha afirmou que as receitas com viagens seguem em nível recorde no acumulado de 2026.
Investimento estrangeiro cobre déficit corrente
Enquanto a demanda por criptoativos diminuiu, os investimentos estrangeiros diretos no Brasil permaneceram em patamar suficiente para financiar o déficit das transações correntes. O Investimento Direto no País (IDP) somou US$ 7,5 bilhões em julho, abaixo dos US$ 8,4 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.
Nos 12 meses encerrados em julho, porém, o IDP acumulou US$ 88,4 bilhões, equivalente a 3,5% do PIB. O montante supera em US$ 25,5 bilhões o déficit de US$ 62,9 bilhões acumulado nas transações correntes no mesmo período.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, o desempenho das exportações, especialmente de commodities, tem contribuído para a melhora das contas externas ao longo de 2026.
Segundo Costa, o déficit em transações correntes deve terminar o ano abaixo do registrado em 2025, mantendo uma posição externa relativamente confortável, apesar da volatilidade no cenário internacional.











