O primeiro mês da nova etapa de implementação da Reforma Tributária indica uma transição sem falhas sistêmicas relevantes, mas empresas ainda enfrentam custos para adaptar sistemas, cadastros e processos internos. A avaliação é de José Antonio Martho, head da área tributária do CGM Advogados.
O início da obrigatoriedade de preenchimento dos campos relativos ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) nos documentos fiscais eletrônicos representa o primeiro grande teste operacional do novo modelo tributário.
Em 2026, a implementação funciona como uma fase de testes, sem impacto financeiro efetivo para a maior parte dos contribuintes. O período permite que empresas, autoridades fiscais e desenvolvedores de sistemas identifiquem inconsistências e façam ajustes antes das etapas seguintes da reforma.
“De maneira geral, fica claro o acerto da estratégia de implementação gradual adotada pelo legislador. O fato de 2026 funcionar como um período de testes, sem impacto financeiro efetivo para a maior parte dos contribuintes, tem permitido que empresas, autoridades fiscais e desenvolvedores de sistemas identifiquem inconsistências e promovam ajustes antes da entrada em vigor das etapas mais sensíveis da reforma”, afirma Martho.
Apesar da ausência de falhas sistêmicas relevantes até o momento, a adaptação exige mudanças na rotina das companhias.
Entre os trabalhos estão a revisão de cadastros, a atualização de sistemas de ERP, softwares utilizados para integrar processos como contabilidade, estoque, vendas e financeiro, além da parametrização dos documentos fiscais eletrônicos. As empresas também precisam adaptar processos internos para operar com o modelo atual e, simultaneamente, preparar a estrutura para o novo sistema.
Custo de adaptação da Reforma Tributária entra no radar das empresas
Segundo Martho, a preocupação de muitas empresas não está concentrada apenas na carga tributária. Os custos temporários associados ao cumprimento das novas obrigações também estão entre os pontos de atenção.
A necessidade de manter dois modelos durante o período de transição aumenta a complexidade operacional. A situação envolve investimentos em tecnologia, revisão de processos e treinamento de equipes.
Também permanecem dúvidas regulatórias sobre temas como apropriação de créditos, split payment, mecanismos de controle e integração entre sistemas federais, estaduais e municipais.
Esses pontos ainda dependem de regulamentações complementares e de esclarecimentos operacionais da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS.
Para o especialista, a existência de mecanismos de correção e regularização sem aplicação imediata de penalidades também reduz a pressão sobre os contribuintes durante a fase de adaptação.
Os testes mais relevantes, porém, ainda estão por vir. A implementação efetiva da CBS e a substituição gradual do ICMS e do ISS pelo IBS devem alterar fluxos de créditos, formação de preços, contratos e organização das cadeias produtivas.
“A Reforma Tributária começou de forma tecnicamente satisfatória, mas ainda está longe de ter seu sucesso assegurado. O verdadeiro desafio não será a mudança dos formulários ou dos sistemas, mas a capacidade de entregar, na prática, a promessa que justificou toda a reforma: um sistema menos complexo, mais transparente e mais eficiente para empresas, consumidores e Administração Tributária”, afirma Martho.
Só 9% das empresas estão preparadas
O nível de preparação das empresas também aparece como um dos pontos de atenção na transição. Uma pesquisa realizada pela ASIS Tax Tech mostrou que apenas 9,2% das organizações atingiram o estágio mais avançado de maturidade fiscal, caracterizado pelo uso de tecnologia, inteligência artificial e dados para antecipar riscos e apoiar decisões.
Na outra ponta, 21,5% das empresas ainda atuam de forma reativa, resolvendo problemas conforme eles aparecem. A maior parcela, de 69,3%, está em um estágio intermediário. Essas organizações já estruturaram processos, mas ainda não transformaram as informações fiscais em inteligência para a tomada de decisões.
A percepção sobre o nível de preparação também varia conforme a posição ocupada na empresa. Analistas representam 43,8% da amostra e são os profissionais que mais acompanham a operação no dia a dia. Entre os coordenadores, 30% classificaram suas áreas como reativas. Entre os gerentes, o percentual foi de 16,7%.
Também existem diferenças entre os setores. O varejo registrou 12,5% das empresas no nível mais alto de maturidade. A indústria apresentou o maior percentual de organizações ainda no modelo reativo, com 25,2%.
“Nossa intenção é transformar esse levantamento em um termômetro permanente do mercado, permitindo acompanhar onde a adaptação avança, onde ela estagna e quais práticas realmente geram resultados. Esse tipo de informação é valioso não apenas para as empresas avaliarem o próprio nível de preparo, mas para todo o ecossistema tributário entender onde estão os principais gargalos e desenvolver soluções mais alinhadas às dificuldades que ainda precisam ser enfrentadas”, afirma Ulisses Brondi, CEO da ASIS Tax Tech.
Segundo o executivo, empresas submetidas às mesmas regras podem apresentar custos e capacidade de resposta diferentes conforme o nível de maturidade fiscal. “O que vai separar essas empresas não será apenas o cumprimento da legislação, mas o nível de maturidade fiscal, que envolve o uso da tecnologia, visibilidade sobre riscos, processos de compliance e capacidade de transformar dados fiscais em inteligência para apoiar a gestão, antecipar problemas e tomar decisões melhores”, conclui Brondi.











