A projeção da Nvidia de crescimento de 70% na receita no próximo ano reforçou o debate sobre a corrida pela inteligência artificial (IA), mas também trouxe à tona uma discussão sobre os impactos da tecnologia sobre empresas, trabalhadores e a sociedade.
O tema foi abordado por Marcos de Vasconcellos, CEO do Monitor do Mercado, em coluna publicada na Folha de S.Paulo, neste domingo (30). Para ele, o resultado da Nvidia representa mais do que o avanço de uma companhia de tecnologia: sinaliza a expectativa de investidores em torno dos próximos vencedores da expansão da IA.
“Projetar um crescimento desse tamanho quando você é uma startup, ainda buscando uma base de clientes, é algo esperado. Mas quando um gigante da tecnologia, já dominante em seu setor, aponta para uma expansão dessa magnitude, o sinal é outro: você encontrou a onda perfeita para surfar”, disse Vasconcellos.
Bill Gates e Zuckerberg têm visões diferentes sobre IA
Para avaliar o impacto dessa transformação, além dos números financeiros, Vasconcellos recorre às posições recentes de Bill Gates, fundador da Microsoft, e Mark Zuckerberg, CEO da Meta.
Os dois são defensores do desenvolvimento da inteligência artificial, mas apresentam visões diferentes sobre como a tecnologia deve avançar e quais problemas podem surgir durante esse processo.
Gates defende a criação de uma tributação sobre a inteligência artificial e os robôs como forma de reduzir o incentivo para que empresas substituam trabalhadores por sistemas automatizados.
A lógica é que a automação pode reduzir custos, elevar a produtividade e melhorar os resultados das companhias. Para os acionistas, esse processo pode representar aumento dos lucros. Ao mesmo tempo, porém, surge a questão de como financiar a requalificação e a proteção dos trabalhadores que perderem espaço para as máquinas.
Na visão apresentada por Gates, parte da riqueza gerada pela automação poderia ser direcionada para financiar essa adaptação.
Zuckerberg parte de outro ponto. Para ele, o principal risco não está na disseminação da inteligência artificial, mas na possibilidade de a tecnologia ficar concentrada nas mãos de poucas empresas ou governos.
A defesa do executivo é de uma distribuição mais ampla da tecnologia, permitindo que mais pessoas tenham acesso às ferramentas de IA. Nesse cenário, a inteligência artificial funcionaria como uma forma de ampliar a capacidade de trabalho dos indivíduos.
Tecnologia pode criar riqueza sem distribuição automática
A coluna também destaca que grandes transformações tecnológicas anteriores produziram mudanças econômicas acompanhadas de períodos de adaptação social.
Eletricidade, motor a combustão e internet alteraram modelos de produção e consumo e criaram novas oportunidades econômicas. Os benefícios, porém, não foram distribuídos automaticamente.
Para Vasconcellos, a inteligência artificial pode seguir caminho semelhante, mas em uma velocidade maior. Os resultados financeiros de empresas como Nvidia, Microsoft e Meta mostram o volume de recursos direcionados à nova economia. A questão, segundo a análise, passa a ser como essa riqueza será distribuída e quais serão os efeitos da automação sobre o mercado de trabalho.











