O Ministério Público de São Paulo abriu procedimento preparatório para apurar se a Caixa Econômica Federal cobrou indevidamente cerca de R$ 255,75 milhões do Corinthians no financiamento da Neo Química Arena.
A investigação, iniciada em 1º de setembro, foi motivada por perícia independente feita pelo perito criminal Anísio Costa Castelo Branco, do Instituto de Perícia Investigativa — microempresa individual criada por ele mesmo, como revelou Demétrio Vecchioli em sua coluna no Metrópoles — que aponta erro no cálculo de multa e pode levar à revisão do saldo devedor de R$ 642 milhões — ou até à conclusão de que o estádio já está quitado.
O que a perícia encontrou
Em sua pesquisa, Castelo Branco sustentou que a Caixa aplicou multa de 10% sobre o valor total do contrato — R$ 487.357.139,34 — quando deveria incidir apenas sobre as obrigações vencidas e em atraso, de R$ 37.865.968,46.
Segundo o laudo, a divergência teria gerado cobrança indevida de R$ 255,75 milhões em agosto de 2019, valor que, atualizado pelas taxas contratuais, chegaria a R$ 402,7 milhões até agosto de 2026.
Para o promotor Cássio Conserino, responsável pelo caso, os números indicam que a arena “já estaria quitada”. Em entrevista ao Jornal da Record, ele afirmou que a Caixa teria errado nos cálculos apresentados ao clube, criando um pagamento maior. “Pela perícia encaminhada ao Ministério Público pelo perito, aquele documento reflete um pagamento a mais. Por via de consequência, a arena já estaria quitada”, disse.
O perito também afirmou ao UOL que a diferença atualizada pode chegar a R$ 460 milhões e que a dívida real hoje seria de cerca de R$ 280 milhões, não os R$ 642 milhões reconhecidos. Castelo Branco, porém, ponderou: “Eu não disse que a Arena está paga, mas eu disse que ela pode estar paga.”
Contexto do financiamento do Corinthians e reação da Caixa
O financiamento original da arena foi contratado em 2013, na gestão de Andres Sanchez, por até R$ 400 milhões, com repasse de linha do BNDES pela Caixa. Em 2019, o banco ajuizou execução cobrando R$ 536,09 milhões.
A perícia aponta que, na época, o saldo correto seria de R$ 280,34 milhões. Após reestruturação em 2022, na gestão de Duílio Monteiro Alves, a dívida foi fixada em R$ 611 milhões, com prazo de 20 anos e amortização a partir de 2025. Hoje, Corinthians e Caixa consideram saldo devedor de R$ 642 milhões.
A Caixa negou irregularidades. Em nota, o banco afirmou que o contrato “observou rigorosamente a legislação vigente, as normas do Banco Central do Brasil e do Sistema Financeiro Nacional”. No entanto, a instituição invocou sigilo bancário para não detalhar a evolução do saldo. O Corinthians não se manifestou oficialmente até a publicação das reportagens.
A dívida da arena é o maior passivo individual do clube. No balanço de 2025, aprovado em abril de 2026, a dívida total corintiana era de R$ 2,72 bilhões, dos quais R$ 723 milhões referentes ao estádio. Em abril de 2026, o total já superava R$ 3,3 bilhões, segundo levantamento do mercado.
Envolvimento de perito com Daniel Vorcaro e Banco Master
Segundo apuração do jornalista Demétrio Vecchioli, o perito Anísio Costa Castelo Branco atua em duas ações de grande repercussão envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro:
- Contratado pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar (IPSSC), que investiu R$ 87 milhões no Banco Master
- Contratado como assistente da defesa da produtora GoUp, que recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro para o filme Dark Horse
O que pode acontecer agora
O procedimento do Ministério Público é administrativo e preparatório, sem caráter criminal. O promotor determinou a realização de perícia oficial e apontou que, se a cobrança indevida for confirmada, a Caixa pode ter que devolver o dobro do excesso, com base no artigo 940 do Código Civil. Nesse cenário, o banco teria de pagar cerca de R$ 510 milhões ao clube — mais do que o saldo devedor atual.
O perito Castelo Branco foi recebido no Parque São Jorge (sede social do clube) nesta quarta-feira (2) pelo presidente Osmar Stabile, e lhe foi prometido integrar uma comissão interna do clube para averiguar o contrato. Em paralelo, o clube segue em negociações com a SAFiel, que propôs estruturar recursos para quitar a dívida da arena junto à Caixa, mas ainda enfrenta resistências.
Entre os riscos, estão a complexidade técnica dos cálculos — com juros de mora que, segundo o perito, variaram de 19% a quase 450% ao mês — e a ausência de planilhas de memória de cálculo na execução de 2019. A Caixa afirma que o contrato seguiu a legislação, e a confirmação dos valores dependerá de perícia oficial e, eventualmente, de processo judicial.











