O Banco Central (BC) arquivou o inquérito que apurava irregularidades na CBSF DTVM, antiga Reag Trust DTVM, submetida à liquidação extrajudicial em janeiro. A decisão também suspende a indisponibilidade dos bens dos ex-administradores e controladores da instituição, entre eles o fundador João Carlos Mansur, conforme aponta publicação do Valor Econômico.
A comissão de inquérito identificou infrações administrativas graves e indícios de crimes. No entanto, a análise técnico-contábil concluiu que não foram constatados prejuízos a terceiros na data em que o regime especial foi decretado, em 15 de janeiro. Na ocasião, a administradora de fundos de investimento e serviços fiduciários apresentava patrimônio líquido ajustado de R$ 12,86 milhões.
O arquivamento, porém, não encerra as demais apurações relacionadas ao caso. O Banco Central deverá encaminhar as irregularidades administrativas identificadas ao departamento responsável por avaliar a abertura de um processo sancionador contra os controladores e ex-administradores da instituição.
A autoridade também vai complementar a comunicação de indícios de crimes de ação pública feita anteriormente ao Ministério Público Federal (MPF), por meio do Ofício 28318/2025-BCB/Desup. A nova comunicação deverá incluir fatos e fraudes estruturadas identificados ao longo das investigações.
Reag não era sócia do Master, conclui investigação
Outra conclusão da comissão é que a Reag não era sócia do Banco Master nem de nenhum de seus clientes. O possível desfecho para a instituição ainda depende de uma nova avaliação de sua situação.
Entre as alternativas estão o encerramento do regime especial e a conversão da liquidação da Reag DTVM em uma liquidação ordinária.
Essa decisão dependerá da fotografia patrimonial atualizada da instituição, da situação dos credores, das contingências existentes e do tratamento dos fundos que permanecem pendentes.
Entenda o contexto de liquidação pelo BC
Em 15 de janeiro, o BC determinou a liquidação extrajudicial da CBSF após identificar “reiterada e desidiosa atuação irregular”, associada a violações graves das normas legais e regulamentares aplicáveis à atividade da instituição.
Segundo a supervisão, a Reag apresentava problemas de governança e não conseguia manter estruturas consideradas adequadas de controles internos, compliance — conjunto de mecanismos voltados à conformidade com regras e normas —, gerenciamento de riscos e auditoria interna.
A supervisão também apontou que a Reag atuava de forma coordenada com o conglomerado Master e teria sido utilizada como veículo para operações fictícias e sem fundamentação econômica. De acordo com o relatório, uma extensa cadeia de fundos de investimento movimentava recursos entre si, produzindo liquidez artificial para o Banco Master. Essas operações teriam beneficiado partes relacionadas ao controlador da DTVM.
A investigação apontou ainda que a instituição registrou e negociou direitos creditórios lastreados em cártulas de ações do BESC. Os ativos eram considerados ilíquidos e sem valor societário e, segundo a supervisão, foram registrados por preços unitários irreais e sem a provisão correspondente. O resultado teria sido a geração de rentabilidades e ampliações patrimoniais fictícias nos fundos.
Outro episódio citado pelo relatório ocorreu em 2022. Naquele ano, a Reag permitiu que o Reag Cash Special Situation FIDC adquirisse créditos de baixa qualidade da BRK CFI sem o provisionamento adequado, o que, segundo a supervisão, mascarou a situação patrimonial da emitente.
Entre 2023 e 2024, a instituição também teria realizado operações vedadas de concessão de crédito ao utilizar recursos próprios para pagar encargos dos fundos. Na tentativa de corrigir a irregularidade, teria transferido obrigações de fundos de investimento imobiliário para uma empresa não supervisionada pertencente ao grupo.
O relatório registrou ainda recorrentes desenquadramentos dos limites operacionais de capital e de exposição por cliente, além de falhas na contabilidade diária e da utilização de controles paralelos, conhecidos como off-book.
Mansur contesta interpretação sobre o papel da Reag
Mansur tem sustentado a interlocutores próximos que o grupo Reag prestava serviços de administração, gestão e custódia, mas que essas funções não significavam exercer o controle econômico dos recursos, definir as operações ou atuar como beneficiário final.
Segundo essa argumentação, o patrimônio dos fundos pertence aos cotistas e não se confunde com o patrimônio da instituição financeira.
Quando o Banco Central decretou a liquidação, a Reag Trust tinha quase 800 fundos e patrimônio superior a R$ 300 bilhões. A expansão da instituição ocorreu também a partir da obtenção de mandatos de fundos de gestão patrimonial, que acomodavam participações societárias e ativos reais.
A gestora de recursos, que está sob supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), também acompanhou essa expansão.
Para os envolvidos nos fundos e demais credores, o próximo passo será a definição sobre o regime aplicável à instituição. A eventual transformação da liquidação especial em ordinária dependerá da atualização da situação patrimonial, da posição dos credores, das contingências e do encaminhamento dos fundos ainda pendentes.











