A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo terminou nesta semana com 760 mil visitantes e aumento de 57% na média diária de faturamento dos expositores em relação à edição de 2024. O resultado, no entanto, coloca o evento no centro de uma questão que vai além dos dez dias de programação: o brasileiro está comprando mais livros ou o consumo segue concentrado em grandes eventos?
O Monitor do Mercado entrevistou executivos de editoras que participaram do evento e, apesar de os números apontarem para um crescimento consistente das vendas, para eles o comportamento do consumidor ainda precisa ser analisado junto com inflação, renda disponível e custos da cadeia editorial.
Anderson Cavalcante, CEO da Buzz Editora, afirma que a companhia cresceu 62% em faturamento na Bienal deste ano, acima da média de 57% informada para os expositores. Segundo ele, parte relevante do resultado veio do lançamento de um novo selo (Neon), voltado à ficção e romance, que ocupou as dez posições entre os mais vendidos da companhia. Em 2026, o ticket médio também aumentou, cerca de 12,7%.
“A Bienal mostra que o brasileiro não perdeu o desejo pelo livro. Ela é uma oportunidade de acesso aos livros e à literatura como um todo, mas ela não representa o mercado; é apenas uma fatia muito pequena”, explicou.
Setor busca que a procura não fique concentrada em grandes eventos
O resultado geral do evento inclui crescimento de público e de vendas. A Bienal ocupou 87 mil metros quadrados, recebeu 269 expositores e colocou 3,65 milhões de livros à disposição dos visitantes. Cinco dias tiveram ingressos esgotados, exemplificando o desejo dos brasileiros por livros.
Para Cavalcante, o ponto central após o término do evento é transformar o movimento concentrado na Bienal em compras ao longo do ano. “A Bienal dura dez dias, mas e os outros 355 dias do ano? Precisamos transformar esse entusiasmo eventual em um hábito recorrente, para criarmos uma economia muito mais positiva para o país”, disse.
A avaliação ajuda a explicar por que o evento pode registrar crescimento mesmo em um mercado que ainda convive com perda de livrarias, pressão sobre custos e restrições no orçamento das famílias.
Já Eduardo Lacerda, CEO e editor da Editora Patuá, avalia que o mercado editorial passa por um problema sério de falta de incentivo ao livro no país e tudo no setor se torna sazonal.
“Nós sabemos das dificuldades que é manter uma editora no Brasil, seja ela pequena ou grande, dos desafios de distribuição, de circulação, do acesso aos leitores e de venda. Da mesma maneira como está ótimo hoje, no próximo ano, dependendo do que acontecer com o país, pode não ser tão bacana”, afirma.
A edição deste ano marcou a estreia da Editora Patuá com um estande próprio na Bienal — antes ela dividia espaço com outras seis editoras em um estande menor da Livraria Diversa. Segundo Lacerda, o movimento foi necessário devido ao crescimento do número de autores na editora.
“Tivemos um gasto entre R$ 100 mil e R$ 110 mil e conseguimos vender entre R$ 130 mil e R$ 140 mil. Não é um número tão alto em relação ao lucro, mas, por ser a primeira participação e ser uma editora independente, considero como um resultado positivo”, afirmou.
Quanto sobra no bolso depois das despesas
Na última sexta-feira (11), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,32% no mês de agosto, levando a inflação brasileira para 4,22%. Na visão de Cavalcante, a inflação afeta o mercado de livros por dois lados.
Para as editoras, a alta de preços aumenta despesas com papel, gráfica, mão de obra, logística e armazenamento. Para o consumidor, reduz a renda disponível depois do pagamento das despesas básicas.
“O problema não é o preço absoluto do livro. O problema é quanto sobra no bolso do brasileiro depois que ele paga tudo que é essencial na casa dele”, disse.
Para ele, quanto maior for o juro e a inflação, mais cara fica a aposta editorial da companhia, “porque todo livro é uma aposta e a gente não sabe se ela vai vender ou não”, resumiu.
Nem toda editora sente os juros da mesma forma
Segundo Lacerda, desde que a Patuá foi fundada há 16 anos, a empresa opera sem depender de empréstimos bancários. “Para uma editora pequena, que não tem necessidade de empréstimo ou de financiamento de dívida, o juro alto não me impacta em nada.”
Por outro lado, empresas que dependem de crédito enfrentam um custo maior para financiar operações, segundo o executivo. Ao mesmo tempo, Lacerda aponta outro efeito do ambiente atual: a alta demanda por serviços gráficos.
Segundo ele, gráficas que antes conseguiam entregar um trabalho em sete dias agora chegam a pedir 15, 20 ou até 30 dias para concluir a impressão.
Monopólio da Suzano afeta preço do papel
O principal insumo para a produção de livros, o papel, figura como principal fator de risco para o mercado editorial, segundo Lacerda. Para ele, a produção brasileira concentrada na Suzano (SUZB3) gera um monopólio que, na avaliação dele, afeta os custos enfrentados por editoras e gráficas.
“O principal risco para o mercado editorial é o monopólio da produção de papel na Suzano. Isso força que todas as gráficas e editoras usem os mesmos papéis, com os mesmos valores que seguem essa lógica [da Suzano], que no fim não tem uma lógica”, afirma Lacerda.
O executivo defende maior concorrência na produção do insumo e afirma que a ampliação do número de fornecedores poderia reduzir o preço do papel. “Acredito que isso seja algo urgente para o próximo governo, seja ele qual for, porque é algo ilegal em todas as áreas”, conclui.
Além do preço, Lacerda aponta a menor presença de livrarias e a falta de democratização desses espaços em áreas mais afastadas dos bairros nobres em São Paulo como um obstáculo ao crescimento recorrente do setor.
Segundo ele, havia 586 livrarias consideradas relevantes em dezembro de 2016, contra 183 em dezembro de 2022, com base nos números que ele cita de levantamentos do setor. O efeito, na avaliação do CEO da Patuá, reduziu o espaço para compras por impulso.
Resultado de editoras e livrarias na Bienal do Livro
Dados oficiais da Bienal do Livro apontam algumas das editoras e livrarias que registraram avanços de dois dígitos na edição deste ano. Confira:
| Editora/livraria | Resultado na Bienal |
|---|---|
| Rocco | +121% em faturamento vs. 2024 |
| Sextante e Arqueiro | +82% |
| Intrínseca | +85% em faturamento |
| Companhia das Letras | +67% em faturamento e +55% em volume |
| Mostarda | +50% em vendas |
| VR Editora | +32% em vendas |
| Buzz Editora | +62% em faturamento |
| Livraria Loyola | +60 mil exemplares vendidos |











