Os crimes ambientais movimentam entre US$ 110 bilhões e US$ 281 bilhões por ano, segundo estimativa da Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF, na sigla em inglês) citada em artigo assinado por Robert Muggah e Ilona Szabó de Carvalho, do Instituto Igarapé, publicado no veículo Mongabay nesta sexta-feira (25).
Os pesquisadores alertam que o valor real provavelmente é muito maior, talvez em trilhões de dólares, e que a repressão local não alcança o problema: o dinheiro do desmate, do garimpo ilegal e do tráfico de animais se mistura a transações financeiras comuns muito longe da floresta.
A lógica é a mesma para madeira, ouro e pescado. Uma árvore derrubada ilegalmente na Amazônia chega a uma serraria, ganha documentação e é misturada a madeira legal. Ouro extraído com mercúrio troca de mãos várias vezes antes de entrar em uma refinaria.
Peixe pescado em área proibida passa por uma planta de processamento e chega ao varejo comum. Quando as mercadorias chegam a um exportador ou consumidor, a procedência foi reescrita, escrevem os autores em artigo para a Brookings Institution.
Investigações rastrearam madeira extraída ilegalmente no Pará até compradores na França, Alemanha, Portugal e Estados Unidos. Um caso recente acompanhou mais de 25 mil metros cúbicos (quase 883 mil pés cúbicos) de madeira, mostrando como a commodity entra no comércio exterior com aparência legal. Esse fluxo usa a mesma infraestrutura comercial de produtos legais, dos portos aos escritórios de exportação, o que torna a fiscalização pontual pouco eficaz.
Garimpo, grilagem e facções criminosas disputam a cadeia do ouro na Amazônia
O ouro é o ativo mais difícil de controlar porque a refinação apaga sua origem. Redes de garimpo ilegal dependem de maquinário, mercúrio e intermediários que ligam as áreas de extração a compradores e refinarias; algumas rotas de transporte do metal são as mesmas usadas para cocaína.
A grilagem converte ocupação fraudulenta de terras públicas em ativo vendável. No Peru, a produção ilegal de ouro em alguns períodos se aproximou da escala da legal, e quando a polícia chega ao acampamento, quem de fato lucra já está em trading houses, refinarias ou escritórios a centenas de quilômetros.
Muitos trabalhadores da extração estão numa economia de sobrevivência e não têm acesso a crédito formal; grupos criminosos oferecem dinheiro, escoamento e transporte quando bancos e compradores legítimos estão ausentes. Por isso, fechar uma mina ou bloquear uma rota de madeira costuma apenas deslocar a atividade para outro ponto. A interrupção duradoura exige cooperação regional e investigações financeiras voltadas a quem organiza o mercado.
Operação Verde Escudo 2026 visa combate a crimes ambientes
No mês passado, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru divulgaram resultados da Operação Verde Escudo. Foram mais de 3.600 oficiais, 1.045 ações de campo e 839 prisões, com apreensões de US$ 280 milhões — contra 94 prisões e US$ 64 milhões no ano anterior. A coordenação entre os cinco países e o uso de imagens de satélite para organizar as operações são apontados como tão relevantes quanto os números.
A pressão também vem do mercado consumidor. A nova regulação europeia contra desmatamento, que passa a valer para operadores de grande e médio porte a partir do final de 2026, exige que empresas comprovem que seus produtos são legais e livres de desmatamento. Bruxelas adiou duas vezes a implementação e reduziu algumas obrigações, mas a exigência muda os incentivos para quem vende madeira, soja e outros produtos à Europa.
Instituições como o Wilson Center – Brazil Institute defendem que reguladores financeiros latino-americanos integrem dados ambientais, como embargos do Ibama e alertas de desmatamento, aos sistemas de risco de crédito bancário. A ideia é que passivos socioambientais apareçam no custo de financiamento, e não apenas em autuações administrativas, reduzindo a vantagem de quem opera fora da lei.
Para os autores, a resposta precisa seguir a mercadoria e o dinheiro por todo o sistema. Enquanto governos concentram fiscalização no local do dano, os controladores do negócio estão a jusante, no processamento, no comércio e nas finanças. Esquemas de lavagem na Amazônia dependem de documentos falsos e empresas de fachada, seguidos de transações financeiras que dão aparência legal a produtos extraídos ilegalmente.
Nota de transparência: Este conteúdo contou com o auxílio de inteligência artificial na seleção e organização das informações, com base nas fontes citadas, e foi revisado por jornalistas antes da publicação.










