Em agosto de 2026, o Brasil registrou um total de 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, equivalente a 51% da população adulta, segundo dados do Serasa. Dez anos atrás, eram 59 milhões. No mesmo período, o volume de dívidas em atraso cresceu 70%, passando de R$ 348 bilhões para R$ 592 bilhões.
O avanço da inadimplência ocorre em um cenário de expansão do crédito e juros elevados. O volume de crédito concedido a pessoas físicas passou de R$ 213,7 bilhões em 2011 para R$ 406,4 bilhões em julho deste ano, aumento de 90%, segundo reportagem do UOL, com base em números do Banco Central (BC).
Para Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o endividamento das famílias “é uma bomba-relógio”, que ainda não explodiu no caixa dos restaurantes porque o emprego continua firme.
Em junho, as famílias destinavam 28,8% da renda ao pagamento de dívidas, incluindo juros e amortizações, segundo o BC. Com uma parcela maior da renda comprometida, sobra menos dinheiro para outros gastos.
Dados da Tendências Consultoria mostram que, em fevereiro de 2026, restavam às famílias 21% da renda depois do pagamento de despesas essenciais, impostos e dívidas. É o menor nível da série iniciada em 2011. Um ano antes, essa parcela era de 23%.
“A renda disponível das famílias, depois dos gastos essenciais, dos impostos e das dívidas, está no nível mais baixo em 15 anos. É dessa sobra que sai o almoço fora de casa”, afirmou Solmucci. Dessa forma, o dinheiro que iria para o bar ou restaurante vai para quitar as dívidas.
Apostas também entram no debate sobre consumo
Outro fator apontado pela Abrasel é o crescimento das apostas online. Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em abril, estima que as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026.
Segundo a entidade, as apostas também contribuíram para levar 270 mil famílias à inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias.
A avaliação é que parte dos recursos destinados às apostas deixa de circular em outros segmentos do consumo. Solmucci afirmou que o impacto é maior entre famílias de menor renda. Segundo o Serasa, 78% dos endividados recebem até dois salários mínimos.
Endividamento também afeta comércios
A pressão financeira chega aos próprios estabelecimentos. Uma pesquisa da Abrasel, realizada em agosto, aponta que 37% dos bares e restaurantes tinham pagamentos em atraso. Entre as empresas com contas atrasadas, os principais compromissos eram impostos federais, citados em 75% dos casos, impostos estaduais, em 51%, e empréstimos bancários, em 32%.
Ao mesmo tempo, os estabelecimentos têm limitado os reajustes de preços para preservar a demanda. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 36% dos bares e restaurantes não haviam aumentado os preços. Das empresas que fizeram reajustes, a maior parte aplicou aumentos iguais ou inferiores à inflação.
Solmucci afirmou que o setor vem tentando manter os preços para evitar perda de clientes, mas avaliou que a estratégia pode pressionar as margens das empresas caso o endividamento das famílias continue avançando.










