Os executivos Pedro Albuquerque (CEO da Economatica, antigo TC) e Felipe Miranda (ex-estrategista-chefe da Empiricus) fizeram um acordo para pagar R$ 1,7 milhão para Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para encerrar o processo que apurava possível manipulação de preços das ações do TC, antigo Traders Club. O caso ficou conhecido pela circulação de um vídeo com uma mulher maquiada como uma palhaça, fazendo diversas acusações ao TC.
O acordo do caso envolve também o empresário Thiago Eiki Bonfim Nagumo, que pagará R$ 612 mil para encerrar o processo por possível manipulação por meio de negociações com ações da TC realizadas a partir de outubro de 2021.
A disputa entre TC e Empiricus começou após um relatório assinado por três analistas da Empiricus, entre eles Felipe Miranda, questionar a avaliação das ações do TradersClub, então negociadas sob o código TRAD3. Segundo eles, os papéis não valiam metade dos R$ 6,10 pelos quais eram negociados. O documento fez com que as ações despencassem 19% nos pregões seguintes.
A briga seguiu pelos próximos meses, passando pela resposta do TC dois dias depois, em documento assinado por Felipe Pontes, então sócio da empresa, que acusou os analistas de não conseguirem entender o negócio da companhia.
O vídeo da “palhaça” que virou parte da investigação
Em junho de 2022, um vídeo anônimo passou a circular em aplicativos de mensagens e redes sociais. No conteúdo, uma mulher caracterizada como palhaça fazia acusações contra o TradersClub e citava supostas irregularidades envolvendo a companhia.
O episódio levou o TC a afirmar que poderia estar sendo alvo de uma tentativa de manipulação de mercado. A companhia sustentou que a divulgação de informações negativas poderia pressionar as ações e beneficiar investidores posicionados na queda dos papéis, como o Monitor do Mercado noticiou na época.
Após a divulgação, Pedro Albuquerque acusou a Empiricus de estar por trás da produção do material. A casa de análise negou envolvimento com o conteúdo.
O episódio também foi levado às autoridades. Em julho de 2022, Albuquerque apresentou acusações contra executivos da Empiricus e afirmou ter evidências que relacionariam a empresa à produção e divulgação do vídeo.
O conteúdo passou a fazer parte do contexto da investigação posteriormente conduzida pela CVM. No processo atual, porém, a autarquia trata a participação de Miranda na suposta produção do vídeo como uma conduta investigada, e não como um fato reconhecido por meio de julgamento, conforme parecer técnico.
O que a CVM investigava
O processo foi conduzido pela Superintendência de Processos Sancionadores (SPS) e envolveu operações realizadas a partir de outubro de 2021 com ações da TC.
No caso de Pedro Albuquerque, a CVM apurou possível manipulação de preços por meio de negociações com ações da própria companhia. O processo também investigou operações realizadas por ele, na condição de diretor-presidente da TC, durante período em que a negociação dos papéis era vedada. Albuquerque pagará R$ 765 mil.
Thiago Nagumo foi investigado por possível manipulação de preços por meio de negociações com ações da TC realizadas a partir de outubro de 2021. O empresário pagará R$ 612 mil.
Já Felipe Miranda foi incluído na investigação por dois motivos. Um deles foi sua participação indireta, por meio de fundos exclusivos, em negociações com TRAD3 realizadas no mesmo dia da divulgação de um relatório de análise que havia sido assinado por ele. A CVM também investigou a suposta produção, em junho de 2022, do vídeo da “palhaça do TC”. Segundo a autarquia, a conduta poderia caracterizar manipulação de preços dos papéis.
Em nota, Miranda afirmou que “o instrumento [pagamento] não implica confissão dos fatos nem reconhecimento de ilicitude”. O executivo inicialmente havia proposto o pagamento de R$ 200 mil para encerrar o processo, mas o Comitê da CVM elevou a obrigação para R$ 1,012 milhão.
O Comitê considerou, entre outros fatores, que o processo ainda estava em fase pré-sancionadora e avaliou a natureza e a gravidade, em tese, das condutas investigadas. Com a aprovação dos termos, os três se comprometem ao pagamento dos valores em parcela única. Assim que as obrigações forem cumpridas, o processo poderá ser arquivado.
A Economatica, como é hoje chamado o TC, não divulgou qualquer documento sobre o caso em sua seção de Relações com Investidores e, até a publicação desta reportagem, não respondeu aos questionamentos do Monitor do Mercado.










