O compromisso de US$ 1,7 bilhão firmado na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26) entre governos e financiadores para apoiar direitos territoriais de povos indígenas e comunidades locais foi superado em 35%, com desembolso de US$ 2,35 bilhões entre 2021 e 2025.
No último ano do compromisso, em 2025, apenas 7,2% dos recursos fornecidos pelos doadores foram repassados diretamente às organizações desses povos, enquanto a maior parte continuou fluindo por intermediários, como ONGs, consultorias e bancos de desenvolvimento, segundo o relatório do Forest Tenure Funders Group (FTFG), divulgado nesta quarta-feira (7) pela Mongabay.
No primeiro ano do compromisso, a parcela direta foi de 2,9% dos US$ 351 milhões fornecidos pelos doadores em 2021, antes de cair para 2,1% dos US$ 514 milhões em 2022. Em 2023, subiu para 10,6% dos US$ 533 milhões, mas recuou para 7,6% dos US$ 467 milhões em 2024 e fechou 2025 em 7,2%, quando os doadores forneceram cerca de US$ 486 milhões.
Myrna Cunningham Kain, da comunidade indígena Miskito de Waspam e presidente do comitê de orientação do Pawanka Fund, disse à Mongabay que o compromisso foi positivo, mas o resultado final não mostra quanto de fato chegou aos territórios. O Pawanka Fund é uma organização global liderada por indígenas que repassa recursos técnicos e financeiros diretamente a povos indígenas e outras comunidades locais. Segundo ela, uma parcela significativa ainda passa por intermediários e há grandes desigualdades na distribuição por região e país.
América Latina concentrou 71% dos desembolsos; África ficou com 13%
O relatório aponta que 71% do financiamento foi para a América Latina, 16% para Ásia-Pacífico e 13% para África. A maior parte dos recursos latino-americanos, 85%, foi direcionada a países amazônicos. Na Ásia-Pacífico, 97% foram para a bacia Bornéu-Mekong-Sudeste Asiático; na África, 34% foram para países da Bacia do Congo.
O relatório alertou que regiões com menos recursos estão particularmente vulneráveis a cortes de ajuda, desmatamento e pressões extrativistas. A queda no financiamento para a África nos anos finais do compromisso se explica, em parte, porque vários financiadores do grupo com atuação relevante no continente não reportaram dados para 2025, incluindo a USAID, que teve as atividades encerradas no início do ano passado, informou o secretariado do FTFG por e-mail.
Igualdade de gênero foi objetivo principal em 4% do financiamento de 2025; jovens, menos de 1%
Somente 4% do financiamento de 2025 teve igualdade de gênero como objetivo principal, abaixo dos 15% registrados em 2024. Para a juventude, a participação foi ainda menor: menos de 1% dos recursos de 2025 tiveram jovens como foco principal. Cunningham reforçou que mulheres e jovens receberam uma quantia muito pequena.
Para Cristián Samper, diretor-geral e líder de soluções para a natureza do Bezos Earth Fund, um dos principais financiadores do compromisso, ampliar a fatia destinada a povos indígenas e comunidades locais exige combinar caminhos, como fundos diretos para organizações indígenas com capacidade institucional, apoio a mecanismos liderados por indígenas e parcerias com intermediários confiáveis. Samper afirmou à Mongabay que financiamento direto pode ser valioso, mas não é inerentemente mais simples ou eficaz.
Na Conferência do Clima da ONU de 2025 em Belém (COP30), 39 doadores governamentais e filantrópicos anunciaram US$ 1,8 bilhão para o período de 2026 a 2030. O novo compromisso ampliou o escopo ao incluir explicitamente comunidades afrodescendentes e outros ecossistemas, e prometeu aumentar a parcela de financiamento direto, flexível e de longo prazo.
Nota de transparência: Este conteúdo contou com o auxílio de inteligência artificial na seleção e organização das informações, com base nas fontes citadas, e foi revisado por jornalistas antes da publicação.










