Por Rodrigo Luz*
Poucas coisas influenciam tanto nossa forma de pensar, agir e tomar decisões quanto o ambiente em que estamos inseridos. Muitas vezes, quando buscamos melhorar nossa vida ou nossa carreira, concentramos toda a atenção em nós mesmos. Procuramos desenvolver novas habilidades, estabelecer metas, aprender mais e melhorar nossa forma de trabalhar.
Tudo isso é importante, mas existe um fator que muitas vezes passa despercebido: as pessoas e os ambientes que fazem parte da nossa rotina. O ambiente não determina quem somos, mas exerce uma influência constante sobre nossos comportamentos. As conversas que ouvimos, as atitudes que observamos, os padrões que consideramos normais e até aquilo que deixamos de questionar são, em parte, construídos a partir da convivência.
Quando estamos cercados por pessoas que buscam aprender, crescer e assumir responsabilidades, determinadas atitudes passam a fazer parte da nossa referência. Da mesma forma, ambientes marcados pelo conformismo, pelas reclamações constantes ou pela falta de iniciativa podem fazer com que comportamentos limitantes pareçam normais.
Grande parte das nossas escolhas é influenciada pelas referências que temos ao nosso redor. Quando convivemos diariamente com profissionais que compartilham conhecimento, buscam soluções e estão abertos a aprender, começamos a enxergar essas atitudes como algo natural. Isso não significa que precisamos estar sempre cercados por pessoas que pensam como nós.
Muitas vezes, são justamente as diferenças que ampliam nossa visão. Conviver com pessoas que possuem experiências, opiniões e trajetórias diferentes pode nos fazer questionar certezas, enxergar novas possibilidades e aprender coisas que dificilmente descobriríamos sozinhos. Uma conversa pode apresentar uma nova perspectiva. Uma pergunta pode provocar uma reflexão. Uma experiência compartilhada pode evitar um erro ou mostrar um caminho que antes não parecia possível.
O ambiente também influencia aquilo que consideramos possível para nossa própria trajetória. Quando convivemos com pessoas que assumem desafios, estabelecem objetivos e buscam novas oportunidades, passamos a ter novas referências.
Não porque somos obrigados a seguir os mesmos caminhos, mas porque percebemos que existem outras possibilidades além daquelas que já conhecemos. O contrário também acontece. Quando estamos em ambientes onde a acomodação, a falta de perspectiva ou a reclamação são constantes, podemos começar a acreditar que aquela realidade é a única possível.
Aos poucos, deixamos de questionar, de buscar alternativas e até de perceber oportunidades. Por isso, mudar de ambiente nem sempre significa trocar de emprego, cidade ou círculo social de forma radical. Às vezes, significa buscar novas conversas, conhecer pessoas diferentes, participar de projetos, ouvir outras opiniões e se aproximar de quem pode ampliar nossa visão sobre a vida e a carreira.
No ambiente profissional, essa influência é ainda mais evidente. Uma empresa pode ter bons processos e metas bem definidas, mas grande parte da experiência de quem trabalha ali é construída pelas pessoas.
É observando como colegas e líderes lidam com problemas, clientes, erros e responsabilidades que aprendemos quais comportamentos são valorizados. Se existe colaboração, as pessoas tendem a compartilhar mais. Se existe abertura para perguntas, é mais fácil aprender. Se os erros são tratados como oportunidades de melhoria, há mais espaço para testar novas ideias.
Por outro lado, quando existe medo de assumir responsabilidades, falta de confiança ou uma cultura em que os problemas são ignorados, esses comportamentos também podem se tornar parte da rotina. Por isso, ao pensar em carreira, não basta avaliar apenas o cargo ou a remuneração.
O ambiente em que passamos boa parte dos nossos dias também influencia nossa forma de trabalhar e, consequentemente, nossa trajetória.
Um bom ambiente, porém, não é aquele em que tudo é confortável. Estar cercado pelas pessoas certas não significa estar perto apenas de quem concorda conosco. Algumas das relações mais importantes para nosso crescimento são justamente aquelas que nos fazem pensar diferente.
Um colega que faz uma pergunta difícil pode trazer uma reflexão importante. Um líder que apresenta novos desafios pode contribuir para nosso desenvolvimento. Uma pessoa mais experiente pode mostrar algo que ainda não conseguimos enxergar.
Crescer também exige contato com perspectivas diferentes. O importante é que existam respeito e abertura para a troca. Não precisamos concordar com todas as pessoas, mas podemos aprender com muitas delas.
As conversas que fazem parte da nossa rotina também têm um impacto maior do que imaginamos. Aquilo que ouvimos repetidamente começa a influenciar nossa maneira de interpretar situações.
Se estamos constantemente cercados por conversas sobre problemas, limitações e impossibilidades, podemos começar a enxergar o mundo apenas por essa perspectiva. Se, por outro lado, convivemos com pessoas que discutem ideias, soluções e possibilidades, nossa forma de pensar pode se tornar mais aberta.
Isso não significa ignorar dificuldades ou acreditar que tudo será simples. Significa perceber que o ambiente também influencia a maneira como interpretamos os desafios.
Muitas vezes, não conseguimos controlar os problemas que aparecem, mas podemos escolher quais referências utilizaremos para enfrentá-los.
Também é importante lembrar que não somos apenas influenciados pelo ambiente. Nós fazemos parte dele. Nossas atitudes, palavras e comportamentos também influenciam as pessoas ao nosso redor.
A forma como lidamos com uma dificuldade pode servir de referência para alguém. A maneira como tratamos um colega pode contribuir para tornar o ambiente mais colaborativo ou mais difícil.
Uma pessoa não constrói sozinha toda a cultura de uma empresa ou de um grupo, mas cada comportamento contribui para o ambiente que está sendo criado. Por isso, além de perguntar se as pessoas ao nosso redor estão nos influenciando de forma positiva, também vale refletir sobre que tipo de influência estamos exercendo.
Nem sempre será possível escolher todas as pessoas com quem convivemos. No trabalho, na família e em outros espaços da vida, encontraremos pessoas com comportamentos e visões diferentes.
O ponto não é tentar construir uma realidade perfeita ou evitar qualquer pessoa que pense de outra forma. O ponto é prestar atenção nas influências que ocupam mais espaço em nossa vida.
Quem são as pessoas que ouvimos quando precisamos tomar uma decisão? Quais comportamentos estamos normalizando? Que tipo de conversa faz parte da nossa rotina? Quem nos incentiva a pensar e quem nos mantém presos às mesmas ideias?
Em alguns momentos, também percebemos que determinado ambiente já não contribui da mesma forma para nossa trajetória. Isso não significa que tudo o que vivemos naquele lugar foi negativo.
Existem ambientes que são importantes para uma fase, mas que deixam de fazer sentido para outra. Mudamos nossos objetivos, aprendemos novas coisas e passamos a buscar desafios diferentes. Reconhecer isso faz parte do processo de crescimento.
E a mudança nem sempre precisa ser radical. Ela pode começar com a decisão de buscar novas referências, ampliar o círculo de contatos ou simplesmente se abrir para experiências diferentes.
No fim, o ambiente em que estamos vai muito além do espaço físico que frequentamos. Ele é formado pelas pessoas, pelas conversas, pelos comportamentos e pelas ideias que fazem parte da nossa rotina.
Tudo isso influencia, de forma silenciosa, a maneira como enxergamos a nós mesmos e o mundo ao nosso redor. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que podemos fazer seja: o ambiente em que estou hoje contribui para a pessoa e o profissional que quero me tornar?
A resposta pode revelar muito sobre as escolhas que fazemos, as pessoas que mantemos por perto e os caminhos que estamos construindo.
*Rodrigo Luz é diretor de expansão da Wiser Investimentos | BTG Pactual.











