Por Priscila Almeida*
A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa distante. Ela escreve textos, analisa documentos, organiza dados, atende clientes, cria imagens, auxilia programadores e começa a assumir tarefas que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente de pessoas.
Com isso, uma pergunta ganhou espaço dentro e fora das empresas: a IA vai substituir trabalhadores? A resposta parece ser menos simples do que o medo sugere.
Um estudo divulgado pelo FGV IBRE mostra que quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada no terceiro trimestre de 2025. Cerca de 5,2 milhões estavam no nível mais elevado de exposição.
Estar exposto, porém, não significa necessariamente perder o emprego.
Inteligência artificial já substitui as tarefas
A discussão sobre tecnologia e trabalho não começou com o ChatGPT. Máquinas substituíram atividades industriais, caixas eletrônicos mudaram a rotina dos bancos e a internet transformou profissões inteiras. Em muitos desses processos, algumas funções desapareceram, outras foram criadas e diversas simplesmente passaram a ser realizadas de outra forma.
Com a IA, algo semelhante começa a acontecer, mas em uma velocidade maior. Atividades repetitivas, produção de textos padronizados, preenchimento de informações, organização de documentos e análises mais simples são exemplos de tarefas que podem ser automatizadas com relativa facilidade.
Isso não significa necessariamente eliminar toda a função de um profissional. Em muitos casos, significa retirar uma parte do trabalho e modificar aquilo que passa a ser esperado daquela pessoa. O profissional deixa de executar apenas a tarefa e passa a precisar revisar, interpretar, decidir e usar a tecnologia a seu favor.
O risco pode ser maior justamente para quem está começando
Um dos pontos mais interessantes do debate está nas funções de entrada. Tradicionalmente, profissionais mais jovens começam suas carreiras realizando atividades mais operacionais e, conforme ganham experiência, assumem tarefas mais complexas.
Mas são justamente algumas dessas atividades iniciais que a inteligência artificial consegue executar com maior facilidade. O estudo analisado pela FGV aponta impactos especialmente relevantes entre trabalhadores mais jovens e mostra que a exposição à IA não está distribuída igualmente entre as ocupações.
Isso cria uma questão importante para empresas e trabalhadores: se parte das tarefas usadas para formar profissionais iniciantes for automatizada, como será construída a experiência necessária para chegar aos cargos mais avançados?
Talvez esse seja um dos desafios menos discutidos da transformação atual.
Saber usar IA pode se tornar parte da própria profissão
Existe também o outro lado dessa mudança. A inteligência artificial pode aumentar produtividade, reduzir tempo gasto em atividades operacionais e permitir que profissionais se concentrem em decisões que exigem contexto, criatividade, relacionamento ou julgamento.
Nesse cenário, a diferença pode não estar apenas entre profissões que serão ou não afetadas pela IA, mas entre profissionais que aprendem a trabalhar com a tecnologia e aqueles que continuam realizando suas atividades exatamente da mesma forma.
O próprio FGV IBRE destaca que o impacto não deve ser interpretado apenas como uma disputa entre substituição e manutenção de empregos. Há também um processo de reconfiguração do conteúdo do trabalho, com possibilidade de ganhos de produtividade em determinadas ocupações.
Isso ajuda a mudar a pergunta. Em vez de apenas questionar quais empregos a IA vai eliminar, talvez seja mais útil perguntar: quais habilidades passarão a valer mais em um mercado no qual todos terão acesso às mesmas ferramentas?
Capacidade de interpretar informações, tomar decisões, resolver problemas, comunicar ideias e compreender o contexto de um negócio podem ganhar ainda mais importância.
A tecnologia pode executar uma tarefa em segundos. Saber qual tarefa deve ser feita, por que ela importa e o que fazer com o resultado ainda é uma discussão muito mais humana.
E talvez seja exatamente aí que esteja a próxima transformação do mercado de trabalho.
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*Priscila Almeida é head do setor educacional da Atom Educacional











