A fama do ABC paulista é de chaminé e linha de montagem. A geografia conta outra história. Em São Bernardo do Campo, a maior parte do município fica do lado de lá da represa, numa faixa de Mata Atlântica que desce a Serra do Mar e guarda, no meio da floresta, a estrada que ligou o planalto ao litoral e um calçamento de pedra construído no século XVIII.
Como metade de uma cidade industrial virou área protegida?
Por causa da água que abastece a metrópole. Segundo a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, cerca de 50% do território municipal está em área de proteção aos mananciais, região onde ficam a Represa Billings e o bairro do Riacho Grande.
Área de manancial é aquela cuja ocupação é restringida por lei porque a água que corre ali vai virar abastecimento urbano. Na prática, isso congelou o avanço da cidade construída e preservou um trecho contínuo de serra dentro de um dos municípios mais industrializados do Brasil. A mesma fonte descreve a Billings como um dos maiores espelhos d’água do país, e nela funciona o Parque Estoril, com canoagem, teleférico, pedalinho e o zoológico municipal.

O que a estrada de 1920 tem de inédito na América Latina?
O material do piso. Conforme a Prefeitura de São Bernardo do Campo, a Rodovia Caminhos do Mar foi a primeira da América Latina a receber pavimentação em concreto, inaugurada na década de 1920 e traçada aproveitando os contornos da Serra do Mar para ligar o planalto paulistano ao litoral.
Para entender o feito, vale lembrar o contexto: naquele momento, quase toda estrada brasileira era de terra batida ou macadame, e a serra impunha declividades que destruíam qualquer revestimento frágil. O concreto resolveu o problema e transformou o percurso na principal saída de mercadorias entre o Porto de Santos e a capital. Antes disso, o mesmo traçado já vinha sendo usado por povos indígenas, tropeiros e imigrantes.

Por que um calçamento de pedra de 1792 continua de pé?
Porque foi feito para durar mais que a tecnologia da época exigia. De acordo com o Guia de Áreas Protegidas do Estado de São Paulo, a Calçada do Lorena foi o primeiro caminho pavimentado com rochas a ligar o planalto ao litoral, construído por ordem do então governador da capitania de São Paulo, Bernardo José Maria de Lorena.
Hoje o trecho integra o Núcleo Caminhos do Mar do Parque Estadual da Serra do Mar, aberto à visitação pública desde 2004. A área reúne o que a fonte oficial descreve como patrimônio ambiental de beleza cênica ímpar somado a um acervo histórico que marca fases inteiras do desenvolvimento paulista, num mesmo percurso de serra.
O que fazer entre a represa e a serra?
O município separa bem as duas experiências: de um lado, a área urbana com equipamentos de lazer; do outro, a serra e o reservatório. Confira os pontos que estruturam o roteiro:
- Núcleo Caminhos do Mar: trecho do Parque Estadual da Serra do Mar com a Estrada Velha de Santos, a Calçada do Lorena e monumentos históricos ao longo do percurso.
- Represa Billings: navegação, pesca e esportes náuticos no reservatório que divide a cidade em duas.
- Parque Estoril: teleférico, pedalinho, canoagem, jardim sensorial e zoológico municipal, à beira da represa.
- Prainha do Riacho Grande: faixa de areia e restaurantes flutuantes na margem do reservatório.
- Rota do Peixe: apelido do trecho da Rodovia Caminhos do Mar concentrado em restaurantes especializados, segundo a Prefeitura de São Bernardo do Campo.
- Núcleo Itutinga-Pilões: entrada do parque estadual alcançada pela mesma rodovia, em plena Mata Atlântica.
- Ciclismo de estrada: a rodovia é usada para treinos e provas de ciclismo e triatlo por atletas de toda a região metropolitana.
O vídeo do canal Juntos Andando Por Aí, com mais de 12 mil visualizações, apresenta um passeio pelos principais pontos turísticos, comércios, avenidas e parques da cidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
Como é o clima em São Bernardo do Campo ao longo do ano?
A proximidade da serra e do oceano produz um clima instável, com mudanças bruscas em poucas horas. Conforme a Prefeitura de São Bernardo do Campo, a temperatura média anual fica em 19,9°C e o período mais chuvoso vai de outubro a março, com julho como mês mais seco. Veja abaixo o comportamento médio de cada estação na cidade:
Médias aproximadas com base no Climatempo e nos dados da própria Prefeitura. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, e vale conferir a previsão atualizada no próprio Climatempo, já que chuva forte pode fechar trechos de trilha na serra.
Conheça o lado da cidade que a fama industrial escondeu
São Bernardo do Campo carrega o rótulo de capital do automóvel, mas metade do seu território é área de manancial, com floresta em pé, represa navegável e um conjunto de estradas históricas que atravessa três séculos de engenharia, da calçada de pedra ao concreto.











