A desaceleração da atividade econômica e a inflação próxima do teto da meta ampliam o espaço para novos cortes da taxa básica de juros, a Selic, mas a situação fiscal brasileira pode limitar a intensidade do movimento, segundo o economista e CFO da Quartzo Capital, Luís Gustavo Budziak, em análise exclusiva ao Monitor do Mercado.
O especialista também aponta a dívida pública, o resultado das contas do governo e o cenário eleitoral como fatores centrais para o comportamento dos juros ao longo de 2026 e em 2027.
Budziak avalia ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) dificilmente crescerá acima de 2% este ano e que, apesar de as vendas do varejo terem avançado 0,5% em junho, a atividade econômica vem perdendo ritmo nos últimos meses. Para o especialista, essa desaceleração pode se tornar até mais relevante do que a inflação na definição dos próximos passos da política monetária.
A inflação de julho ficou praticamente estável, em 0,07%, enquanto o acumulado em 12 meses foi apontado em 4,44%, dentro do teto da meta, de 4,5%, quadro que, segundo Budziak, pode dar “espaço matemático” para uma redução maior de juros por parte do Copom. O cenário, à primeira vista, cria uma combinação favorável para a redução dos juros: inflação sob controle e desaceleração da atividade econômica, que pode levar o governo a pressionar por uma queda acentuada da Selic já em 2026, diante de uma ilusão de cenário ideal e do contexto eleitoral, afirma Budziak.
Porém, inflação baixa não significa, necessariamente, juros menores; o economista pondera que a leitura do índice de inflação precisa considerar sua composição. A queda recente foi influenciada principalmente por alimentos, cujo comportamento é sazonal e pode se inverter nos meses seguintes. Na avaliação de Budziak, isso não significa que os componentes considerados mais estruturais da inflação tenham sido efetivamente contidos.
Outro fator é o El Niño, que, segundo o especialista, poderia acrescentar entre 0,3 p.p. e 0,5 p.p. à inflação. Por isso, ele considera possível um cenário de crescimento próximo de zero em 2027, com Selic ainda entre 13% e 14% e inflação próxima de 5%, no pior cenário.
Por esses fatores, o economista diz que os dados de inflação não devem ser comemorados antecipadamente, uma vez que a inflação estrutural não foi contida, pois está nos gastos do governo.
“Hoje temos que olhar mais para a curva dos juros futuros, em 2027, do que comemorar uma inflação baixa nesses últimos dois meses. Ela é o componente principal hoje”, afirma.
Política fiscal é o principal ponto de atenção
Segundo o especialista, a política fiscal segue como um componente estrutural preocupante e como principal obstáculo para uma queda mais acentuada da Selic. Atualmente, a dívida bruta brasileira foi apontada em 81,9% do PIB, enquanto o resultado primário tem déficit entre 1,12% e 1,19% do PIB.
A avaliação é que a combinação entre dívida elevada, déficit primário e custo dos juros aumenta a pressão sobre as contas públicas. Nesse contexto, uma redução da Selic poderia não ser suficiente para derrubar as taxas de longo prazo caso o mercado passe a exigir uma remuneração maior para financiar o governo.
O economista destaca que o Banco Central poderia reduzir os juros diante da desaceleração da economia e da inflação mais baixa, mas o mercado poderia reagir elevando as taxas futuras diante da percepção de deterioração fiscal. Nesse caso, a autoridade monetária poderia ser obrigada a subir os juros posteriormente.

Budziak destaca um detalhe ainda mais preocupante: nos 12 meses até junho, os juros nominais atingiram 8,8% do PIB, levando o déficit nominal para 9,9% do PIB, segundo dados do Bacen. Isso, na leitura do especialista, ajuda a explicar por que a dívida evolui tão rapidamente, mesmo com um déficit primário que parece relativamente pequeno.
Eleições aumentam pressão sobre a Selic
A aproximação das eleições de 2026 aparece como outro elemento relevante. Na avaliação do especialista, o governo deverá sofrer e exercer pressão por uma redução maior dos juros, especialmente diante da desaceleração da atividade e da inflação aparentemente mais baixa.
Na avaliação do especialista, o mercado já vinha precificando Lula como vencedor das eleições, mas, após pesquisas demonstrarem empate técnico e agências de rating rebaixarem o grau de investimento no Brasil devido ao cenário eleitoral incerto e ao peso do descontrole fiscal, deve aguardar para ver indicadores mais consistentes e então repercutir uma reação na política monetária e no mercado de capitais.
Lula continuaria sendo considerado favorito, mas a possibilidade de uma disputa mais equilibrada teria levado investidores a adotar uma postura de espera.
Emendas parlamentares entram no radar
O especialista também chama atenção para o aumento das emendas parlamentares. Em 2022, ano pré-eleitoral, salienta, foram liberados R$ 28 bilhões; em 2023, R$ 34 bilhões; em 2024, R$ 40 bilhões; e em 2025, R$ 45 bilhões. Para 2026, a estimativa é de R$ 49 bilhões.
Ele destaca que, até julho, já haviam sido liberados R$ 34 bilhões em emendas parlamentares, antes do que normalmente aconteceria. A comparação apresentada é com cerca de R$ 3,6 bilhões, aproximadamente dez anos atrás. Para ele, o ritmo de liberação reforça a percepção de que não há disposição suficiente para um ajuste fiscal.
Cenário para Selic, PIB e inflação em 2026 e 2027
Para o fim de 2026, o especialista avalia que, diante do cenário eleitoral, o Copom deve ceder, com redução de 0,25 ponto percentual na Selic na próxima reunião de setembro e, eventualmente, realizar outro corte. A faixa considerada para a Selic ao final do ano ficaria em 12,5%, enquanto cenários mais otimistas chegam a considerar 13%.
A inflação (IPCA), por sua vez, deve ficar entre 4% e 4,5% no fim do ano, em um cenário otimista, enquanto, para o PIB, a estimativa é de crescimento entre 1,8% e 2% em 2026.
O economista prevê ainda, com base nos movimentos do Banco Central americano, um câmbio estável e talvez mais apreciado em relação ao real, e possibilidade de queda dos juros de longo prazo, a depender do cenário fiscal previsto para os próximos anos, devendo contribuir para a melhora do crédito.
Segundo Budziak, o comportamento dos juros longos, porém, dependerá principalmente da política fiscal. Em um cenário de maior austeridade nos próximos quatro anos, as taxas de longo prazo poderiam cair, favorecendo as condições de crédito. Sem ajuste fiscal, a projeção apresentada é de juros acima de 13,5%, câmbio mais depreciado e taxas longas elevadas.











