A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revisou para cima as estimativas de crescimento do Brasil e prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro chegue a 2% no final do ano, ante projeção de 1,6% realizada em junho, segundo o relatório de projeções econômicas “Resistindo a choques sucessivos”, divulgado nesta quarta-feira (23).
A OCDE atribui parte da sustentação da atividade no Brasil à força da demanda doméstica e às medidas adotadas pelo governo para reduzir os efeitos do aumento dos custos de energia sobre famílias e empresas.
Para 2027, porém, o cenário projetado pela OCDE é de desaceleração. A estimativa para o PIB brasileiro foi reduzida de 2,1% para 1,9%, abaixo da média global esperada, de 3%.
Para a economia global, a previsão subiu de 2,8% para 2,9%. Entre as economias selecionadas pela organização, Argentina, Canadá e Arábia Saudita foram as únicas que tiveram suas estimativas reduzidas para este ano. A previsão para a economia mundial em 2027 também caiu, de 3,1% para 3%, abaixo do crescimento registrado em 2025.
A revisão ocorre em um cenário marcado pelos efeitos da guerra no Oriente Médio, pela alta dos preços de energia e por investimentos crescentes em inteligência artificial (IA). Segundo a OCDE, esses investimentos têm ajudado a sustentar a atividade econômica global e a compensar parte dos impactos do conflito.
Crescimento do PIB vem acompanhado de pressão sobre os preços
Apesar da revisão positiva para o PIB, a OCDE se mostra menos otimista para o próximo ano, elevando a estimativa para a inflação brasileira. A previsão para 2026 passou a 5,1% e em 2027 deve desacelerar para 4,3%, 0,7 ponto percentual acima da previsão junho.
No mercado brasileiro, o boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira (21), que reúne projeções de economistas, apontava inflação de 4,92% para 2026.
Num recorte mais amplo, abrangendo o G20, a OCDE projeta inflação de 4,1% em 2026, com redução para 3,6% em 2027. A organização avalia que a inflação deve permanecer pressionada no curto prazo devido ao aumento dos preços das commodities. A expectativa é de desaceleração gradual a partir de 2027, à medida que os preços de energia moderem e uma política monetária mais restritiva limite a pressão sobre os preços.
“O crescimento de várias economias emergentes do G20, como Índia, Indonésia e Brasil, foi sustentado pela resiliência da demanda doméstica e por políticas governamentais que amorteceram o impacto dos preços mais altos da energia sobre famílias e empresas”, afirma o relatório.
A trajetória dos preços dependerá, entre outros fatores, do comportamento das commodities e do mercado de energia. Uma normalização mais rápida dos mercados de energia reduziria as pressões inflacionárias e ajudaria a atividade econômica.
Por outro lado, novas interrupções no fornecimento ou uma duração maior dos problemas existentes poderiam produzir uma combinação de inflação mais elevada e crescimento mais fraco.
A organização também inclui o El Niño entre os riscos para o cenário. O fenômeno climático pode afetar a produção agrícola e elevar os preços dos alimentos, aumentando a pressão sobre a inflação.
Inteligência artificial sustenta investimentos
A OCDE aponta os investimentos em inteligência artificial como um dos fatores que ajudaram a economia mundial a absorver parte dos impactos dos conflitos geopolíticos.
De acordo com a Organização, nos Estados Unidos, Canadá e Austrália, o crescimento do PIB real no segundo trimestre foi impulsionado por investimentos em estruturas para data centers e equipamentos tecnológicos. O movimento também estimulou a atividade em países responsáveis pela produção de componentes tecnológicos e materiais utilizados nessas estruturas, citando Coreia do Sul, Japão e China entre as economias beneficiadas por esse ciclo de investimentos.
A organização, porém, chama atenção para os riscos associados à dependência do crescimento global em relação aos investimentos em IA.
“Há o risco de que os retornos dos investimentos em IA sejam decepcionantes ou demorem mais para se concretizar”, afirma o relatório. A OCDE acrescenta que “as crescentes preocupações com a segurança relacionadas à IA também podem desacelerar o desenvolvimento da tecnologia ou sua adoção”.
Além do PIB, juros e dívida pública entram no radar da OCDE
Além da inflação e do crescimento, a OCDE chama atenção para a situação fiscal dos governos. O aumento da parcela dos gastos destinada ao pagamento de juros da dívida tem elevado a preocupação com os custos de financiamento.
Stefano Scarpetta, economista-chefe da OCDE, afirma que uma das razões para o aumento desses custos é a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas.
O rendimento médio dos títulos públicos de referência de dez anos dos países do G7 chegou a 4% neste ano, pela primeira vez desde 2008. O movimento ocorreu em meio a uma onda de vendas desses papéis, associada às preocupações dos investidores com a inflação e com a alta dos preços de energia provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã.
Nesse ambiente, a combinação entre juros mais elevados e emissão recorde de títulos pelas economias desenvolvidas ampliou as despesas destinadas ao serviço da dívida — os pagamentos de juros e encargos relacionados ao endividamento.










