As ações do Bradesco registram forte queda nesta quinta-feira (7), arrastando todo o setor e o Ibovespa, após a divulgação do balanço do primeiro trimestre. As ações preferenciais (BBDC4) recuam 3,06%, cotadas a R$ 18,68. Já os papéis ordinários (BBDC3) caem 2,58%, negociados a R$ 16,21 na B3.
Com impacto sobre o setor financeiro, o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), cai 2,20%, aos 183.560,39 pontos, no início da tarde.
O banco reportou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões de janeiro a março, valor que representa alta de 4,5% em relação ao quarto trimestre e avanço de 16,1% na comparação anual. O resultado veio acima da expectativa do mercado, que projetava crescimento de R$ 6,2 bilhões.
O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), indicador que mede a rentabilidade do banco sobre os recursos dos acionistas, atingiu 15,8%, acima dos 15,2% registrados no trimestre anterior e dos 14,4% de um ano antes.
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“O ano começou em ritmo acelerado para o Bradesco, e o bom desempenho das nossas receitas é prova disso. Avançamos com cautela. O cenário macro piorou, vimos guerra, e ainda assim gerimos bem os riscos, preservamos a qualidade dos nossos ativos. Reforçamos o nosso balanço, aproveitamos as oportunidades que apareceram e aumentamos a nossa rentabilidade”, disse em nota o CEO do banco, Marcelo Noronha.
Hugo Queiroz, gestor de portfólio da Soho Capital, avalia que o resultado do Bradesco para o primeiro trimestre foi satisfatório, com a continuidade da evolução da rentabilidade, ROE buscando 16%, reflexo de spreads melhores e redução de custos (melhora do índice de eficiência operacional).
Por outro lado, o especialista destaca como principal aspecto negativo o lado do risco, com aumento de PDD e inadimplência, que aparentemente é pontual, mas que se persistir pode voltar a ser um fator negativo ao banco.
Alta das provisões preocupa investidores
O principal ponto de atenção do mercado ficou concentrado no avanço das despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), reserva que os bancos fazem para cobrir possíveis perdas com inadimplência.
As despesas com PDD chegaram a R$ 9,66 bilhões no primeiro trimestre, alta de 9,5% em relação ao trimestre anterior e crescimento de 26,5% em 12 meses.
Na carteira de pessoas físicas, o índice permaneceu em 5,4%. Entre grandes empresas, o indicador caiu para 0,2%, ante 0,3% nos períodos anteriores. Já em micro, pequenas e médias empresas, a taxa subiu para 4%, frente a 3,8% no trimestre anterior.
Segundo o Bradesco, a alta do custo de crédito está ligada a casos pontuais no atacado e a um movimento mais disseminado na carteira massificada.
“Parte do aumento do custo de crédito no massificado está relacionado a operações com programas emergenciais, dada sua dinâmica de provisionamento versus prazo de recebimento, crédito rural de safras mais antigas, redução das operações em estágio 3 [crédito de pior qualidade] e da carteira reestruturada”, informou o banco.
Carteira de crédito do Bradesco supera R$ 1 trilhão
A carteira de crédito expandida do Bradesco encerrou março em R$ 1,09 trilhão, que corresponde a um crescimento de 0,1% no trimestre e avanço de 8,4% em relação a março do ano passado.
A carteira de empresas somou R$ 615,9 bilhões, com queda de 1,1% no trimestre e alta de 7,6% em 12 meses.
Já o crédito para pessoas físicas atingiu R$ 473,98 bilhões, crescimento de 1,6% na comparação trimestral e de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo o banco, a expansão das linhas de melhor qualidade continua sendo prioridade. “Por outro lado, seguimos com forte tração nas linhas consideradas de melhor qualidade, com bons ratings e garantias. Como mostramos na apresentação, continuamos crescendo de forma consistente”, afirmou o CEO Marcelo Noronha.
Margem financeira avança
A margem financeira, que representa o ganho do banco com operações de crédito e atividades financeiras, somou R$ 20,05 bilhões no trimestre. O crescimento foi de 4,2% frente ao trimestre anterior e de 16,4% em 12 meses.
A margem das operações com o mercado ficou positiva em R$ 553 milhões, com avanço de 338,9% na comparação trimestral e de 19,7% em 12 meses.
Já a margem com clientes alcançou R$ 19,94 bilhões, com altas de 2% no trimestre e de 16,3% em relação ao mesmo período do ano passado.
Segundo o Bradesco, o desempenho da margem com clientes foi impulsionado pelo aumento do volume médio das operações, pela margem de passivos e pelos spreads das operações com clientes. O banco destacou, porém, que parte desse efeito foi compensada pelo mix de produtos, alinhado à estratégia de crescimento em linhas com menores spreads e melhor margem líquida.
Bradesco reforça postura conservadora
Mesmo com o avanço do crédito e da rentabilidade, o Bradesco afirmou que seguirá adotando uma estratégia mais conservadora em determinadas linhas de negócio:
“Esse viés mais conservador significa, na prática, que podemos olhar para determinados modelos e concluir que não temos apetite para seguir em algumas modalidades específicas”, disse Noronha.
O executivo também tentou reduzir as preocupações do mercado em relação ao aumento das provisões: “Não posso comentar individualmente sobre operações, mas trata-se de um caso em recuperação no qual, por uma postura mais conservadora, decidimos elevar o nível de provisão”, afirmou.
Segundo ele, mudanças regulatórias também influenciaram o crescimento das reservas para perdas. “A regra contábil da 4.966 exige um volume maior de provisão no momento da originação do que acontecia na antiga 2.682. Por isso, o crescimento das provisões parece quase um relógio.”
Noronha acrescentou que o banco mantém estabilidade nos indicadores mais críticos de atraso: “Tanto que o nosso índice acima de 90 dias continua estável. Onde vemos um pouco mais de atenção é na carteira rural mais antiga, que pode pressionar ratings daqui para frente. Mas nada fora do esperado”.
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Queiroz avalia que o guidance do banco corresponde às expectativas, mantendo a leitura de que haverá uma evolução adicional de rentabilidade se o risco bancário não deteriorar.
O especialista também observa que o valuation atual no mercado está próximo do valor patrimonial e que ao comparararmos o ROE vs ke ajustado pelo crescimento de longo prazo de 3,5%, sinaliza uma possibilidade de expansão de mútiplo para patamar 1,3x valor patrimonial, o que deixa uma possibilidade de valorização adicional de 20%.
Nesse cenário, ele prevê que o banco deve distribuir Dividend Yield (DY) de 7% e considera que a assimetria é interessante para o investidor que busca uma oportunidade de dividendos e valor.
Área de seguros impulsiona resultado
O resultado das operações de seguros totalizou R$ 6,38 bilhões no trimestre, alta de 13% em relação aos três meses anteriores e crescimento de 20,4% em 12 meses.
De acordo com o banco, a operação industrial segue representando cerca de dois terços do resultado do segmento, impulsionada pela expansão comercial e pela melhora nos índices de sinistralidade.
Cenário macro piora, diz CEO do Bradesco
Durante teleconferência com jornalistas, Marcelo Noronha afirmou que houve piora na percepção sobre o cenário econômico em relação ao trimestre anterior.
Na avaliação do executivo, o conflito envolvendo o Irã já gera impactos no mercado internacional, especialmente nos preços do petróleo. A percepção só não é mais negativa, segundo ele, por conta da valorização do real frente ao dólar. Na última sessão, a moeda norte-americana chegou a R$ 4,92, o menor patamar desde 2024.
“Essa valorização do real traz efeitos distintos. Por um lado, pressiona setores exportadores, especialmente o agronegócio. Por outro, beneficia a economia brasileira em diversos aspectos, principalmente no controle inflacionário”, afirmou.
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Noronha também alertou que a alta do petróleo pode levar o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo.
“Dizer que o Brasil está imune ao cenário global simplesmente não faz sentido. É fato que o ambiente macroeconômico piorou. Ainda que existam alguns efeitos positivos pontuais, seguimos vendo uma inflação mais pressionada ao longo do ano. E isso naturalmente influencia as decisões de política monetária”, esclareceu.











