As medidas criadas pelo Ministério da Fazenda, para obrigar que as campanhas publicitárias de bets tenham ao menos uma frase de conscientização (“apostar causa dependência”, “apostar faz você perder dinheiro” ou “apostar não é investimento”), diminuíram a percepção dos paulistanos sobre utilizar apostas para obter ganhos como investimento. A parcela caiu de 9% em 2024 para 5% em 2025, segundo a FecomercioSP.
Apesar da regulamentação do setor por meio da Lei 14.790, de 2023, conhecida como a Lei das Bets, a FecomercioSP conclui que as novas regras ainda tiveram impacto limitado sobre o comportamento dos apostadores.
Essa lei proíbe propagandas que tratem o jogo como investimento financeiro, fonte de renda extra ou que tragam falsas promessas de dinheiro fácil, mas apenas 14% dos paulistanos afirmam ter reduzido o volume de apostas após a entrada em vigor da legislação. Além disso, mais de um terço dos entrevistados (37%) declara desconhecer a existência da lei.
Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP, afirma que mudanças focadas apenas em tributação ou nos meios de pagamento não têm produzido alterações significativas no comportamento dos consumidores.
“O ambiente digital, com publicidade algorítmica e pagamento instantâneo, segue com um poder de atração muito superior ao das barreiras regulatórias. Nós temos acompanhado tudo isso de perto e com bastante preocupação. Quando uma parte relevante da população admite que usaria o dinheiro das apostas para pagar contas básicas, o problema extrapola o entretenimento e atinge o Comércio em cheio. O avanço das bets não pode ser tratado como fenômeno neutro,” conclui.
Apostadores recorrem às bets para aumentar renda doméstica
Os apostadores que acreditam ter uma ferramenta de investimento fazem parte de um cenário ainda mais preocupante, que evidencia o quanto as plataformas de aposta online têm servido como saída para resolver problemas no orçamento.
Em maio, levantamento da FecomercioSP mostrava que, no ano passado, 35% dos apostadores afirmaram recorrer às bets para aumentar a renda doméstica. O percentual representa um avanço de 10 pontos percentuais em relação ao levantamento inicial de 2024, indicando uma mudança no perfil da motivação dos apostadores, especialmente entre as famílias de menor renda.
Entre pessoas que recebem até dois salários mínimos, cerca de R$ 3 mil, 40% afirmam apostar para complementar o orçamento. O percentual cai para 30% entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos e para 29% nas famílias com renda entre cinco e dez salários mínimos.
A FecomercioSP avalia que as apostas vêm sendo utilizadas por parte da população como uma tentativa de enfrentar dificuldades financeiras, ao mesmo tempo em que passam a disputar espaço com gastos tradicionais das famílias.
Segundo Kelly Carvalho, “pessoas em situação de vulnerabilidade financeira têm recorrido, cada vez mais, a esse tipo de consumo de risco como uma maneira de superar as condições difíceis do orçamento. Além disso, as apostas disputam um espaço que, antes, estava ocupado pelo consumo tradicional das famílias — em atividades como o comércio, a alimentação e os serviços —, mas também à própria organização financeira dessas apostas”, explica.
Apostas ficam com recursos da poupança e consumo
A pesquisa revela que 26% dos paulistanos deixariam de apostar para guardar o dinheiro. No levantamento anterior, esse percentual era de 19%, o que indica crescimento da parcela da população que reconhece que os recursos destinados às plataformas poderiam ser direcionados à formação de reserva financeira.
O estudo também mostra que parte desse dinheiro seria utilizada em despesas básicas. Segundo os entrevistados, 14% destinariam os valores ao pagamento de contas domésticas e 13% à compra de alimentos.
Faturamento das bets cresce acima de dois dígitos
Enquanto o debate sobre regulação continua, o faturamento das plataformas segue em expansão. Segundo a Pesquisa Conjuntural do Setor de Serviços (PCSS), da FecomercioSP, a receita das empresas de apostas cresceu 11,4% entre janeiro e abril de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.
As bets sediadas na cidade de São Paulo registram faturamento médio de aproximadamente R$ 1,1 bilhão por mês, de acordo com o levantamento.
A entidade ressalta que esses números ainda não incorporam os efeitos da Copa do Mundo masculina realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, evento que voltou a colocar o avanço das apostas esportivas no centro das discussões.
Na avaliação da FecomercioSP, o crescimento do setor é sustentado por mudanças estruturais na economia brasileira.
Entre os fatores apontados estão a digitalização do consumo, que fortaleceu o comércio eletrônico, a consolidação do Pix como principal infraestrutura de pagamentos instantâneos e o acesso praticamente universal da população brasileira a smartphones e outros dispositivos móveis.











