O fechamento de empresas no varejo brasileiro pode atingir em 2026 níveis próximos aos registrados nos dois maiores choques da última década, em 2018, ano da greve dos caminhoneiros e do pico da Lava Jato, e 2021, a ressaca econômica da pandemia.
Segundo estudo do IBEVAR em parceria com a FIA Business School, intitulado “O Terremoto de 2026”, o cenário deste ano reúne características mais próximas das crises institucionais observadas nesses períodos do que da recessão econômica de 2015-2016.
Para avaliar 2026, os pesquisadores compararam o cenário atual com quatro referências históricas: anos considerados normais e os períodos de 2015, 2018 e 2021. A conclusão do modelo é que 2026 apresenta maior proximidade com 2018 do que com 2015. O estudo considera que o ano eleitoral reúne forte polarização e uma crise institucional apontada como a maior desde o pico das operações da Lava Jato em 2018.
Do outro lado, a recessão de 2015-2016, período associado a uma queda de cerca de 3,5% do PIB, acrescentou 5,5 pontos percentuais ao fechamento de empresas. Embora o efeito seja estatisticamente robusto (p < 0,001), ele foi o menor entre os três principais choques identificados na série.
“Os dados são claros: crise política e ruptura institucional fecham mais empresas do que recessão econômica pura. O mercado brasileiro tolera mal a incerteza institucional — muito pior do que tolera a incerteza econômica convencional”, afirma Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School.
“Pelos parâmetros históricos, 2026 não se parece com 2015, mas com 2018”, afirma Felisoni.
Se essa relação histórica se confirmar, o fechamento de empresas em 2026 poderá testar os níveis extremos registrados em 2018 e 2021, em vez de reproduzir a estabilização observada em 2022.
Crises institucionais têm maior impacto sobre empresas do varejo
O maior rompimento ocorreu em 2018. Naquele ano, a greve dos caminhoneiros, uma eleição marcada pela polarização e o desgaste acumulado pela Lava Jato estiveram associados a um aumento de 25,9 pontos percentuais no fechamento de empresas.
O impacto foi quase cinco vezes maior que o observado durante a recessão de 2015-2016 e representa o maior choque identificado em toda a série analisada.
Em 2021, ocorreu o segundo maior movimento. A reversão da onda de formalização por meio do MEI, combinada ao aumento da Selic de 2% para 9,25% em 12 meses, levou a um impacto adicional de 21,3 pontos percentuais no fechamento de empresas. A diferença para o pico de 2018 foi de 4,6 pontos percentuais.
Vestuário tem maior fechamento crônico entre setores do varejo
O estudo também identificou diferenças importantes entre os segmentos do varejo. Vestuário e Acessórios apresentou o maior nível crônico de fechamento, 20,35 pontos acima da referência adotada pelo modelo.
Alimentos Especializados aparece em seguida, com 14,5 pontos, enquanto Tecidos e Armarinho registra 10,6 pontos. De acordo com a pesquisa, os três segmentos apresentam baixa barreira de entrada e maior sensibilidade ao orçamento das famílias.
Na outra ponta, Farmácias e Saúde, com 2,5 pontos abaixo da referência, e Esporte e Lazer, com 4,6 pontos negativos, foram os únicos segmentos identificados como mais resistentes, considerando as categorias que ficam entre os últimos itens cortados pelas famílias quando o consumo é pressionado.
Essa diferença, porém, diminui quando o choque econômico e institucional alcança maior intensidade. Em 2018, até o segmento considerado mais resistente chegou a uma taxa de fechamento de 23,5%.
O percentual superou o pior resultado registrado, em um ano considerado normal, pelo segmento mais vulnerável da série. O dado indica que crises severas podem atingir simultaneamente os diferentes segmentos do varejo, reduzindo a proteção oferecida pelas características específicas de cada atividade.
O estudo reconstruiu 12 anos de dados, de 2011 a 2022, sobre abertura, fechamento e saldo líquido de empresas em 13 segmentos do varejo brasileiro. Para identificar o efeito de cada período sobre o encerramento de negócios, os pesquisadores utilizaram um modelo estatístico de efeitos fixos, que desconta as características estruturais próprias de cada setor.











