A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, alertou que o boom de investimentos em inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos deve encarecer o crédito na zona do euro e pressionar as taxas de juros em economias emergentes, como o Brasil.
Em seu discurso, afirmou que as grandes empresas de tecnologia norte-americanas emitiram mais de US$ 100 bilhões em títulos em 2025, a maior parte de longo prazo. As emissões já respondem por quase um décimo das novas emissões de dívida em euros de empresas não financeiras.
O investimento em IA na zona do euro também avança: para 2026, as empresas devem destinar cerca de 10% do investimento total à tecnologia, e os empréstimos ligados à IA representaram cerca de um quarto do crescimento do crédito a empresas no primeiro trimestre.
A diferença é que, do outro lado do Atlântico, a escala do financiamento por dívida já altera a curva de juros. Segundo o BCE, a construção de data centers com volumes recordes de dívida é um dos responsáveis pelo aumento nos rendimentos dos títulos de longo prazo nos EUA.
Como as taxas de longo prazo da zona do euro acompanham os rendimentos dos títulos norte-americanos, a Europa pagará parte do custo desse boom em suas próprias condições de financiamento, afirmou a presidente.
O alerta se soma ao Relatório de Estabilidade Financeira do BCE de novembro de 2025, que já apontava a concentração do boom de IA em poucas empresas americanas como vulnerabilidade central para o sistema financeiro global.
Europa tem pressa para construir infraestrutura própria
Além do alerta sobre custos, Lagarde defendeu que a Europa acelere a construção de data centers e modelos próprios para reduzir a dependência. Hoje, os Estados Unidos concentram três quartos da capacidade de computação de IA do mundo; a Europa, apenas 5%.
A lacuna de data centers europeus pode crescer mais de seis vezes em uma década, exigindo investimentos de até 600 bilhões de euros.
O movimento não é isolado: famílias da zona do euro detêm cerca de 440 bilhões de euros em ações de empresas de tecnologia americanas, exposição que amplifica o risco de contágio financeiro em caso de correção nos mercados de IA.
A mensagem do BCE é clara: o boom de IA terá custos de financiamento para todos, e quem não investir em capacidade própria ficará apenas com a conta.
Contágio já alcança o Brasil
No Brasil, o Banco Central (BC) já incorporou o tema à comunicação oficial: a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) passou a mencionar explicitamente o monitoramento do ciclo de investimentos em IA e seus efeitos sobre condições financeiras globais e fluxos de capital.
O receio é que a emissão recorde de dívida para data centers nos EUA atraia capital global, elevando custos de captação também para empresas e para o governo brasileiro.











