Os efeitos climáticos associados ao El Niño já atingem importantes regiões produtoras no mundo e colocam em alerta as perspectivas para as safras de commodities agrícolas. Na Europa, uma seca intensa vem reduzindo a produção de trigo e milho. Nos Estados Unidos, áreas de pecuária e algodão também enfrentam condições de estiagem, enquanto as expectativas para a produtividade de milho e soja foram reduzidas.
No Brasil, porém, a diversificação de culturas e a dimensão territorial do país devem limitar os efeitos de um El Niño mais intenso. Além desses fatores, a distribuição geográfica da produção tende a permitir que perdas concentradas em determinadas regiões sejam parcialmente absorvidas por outras áreas produtoras.
Para Luciano Gioielli, analista internacional do Portal das Commodities, essa característica diferencia o Brasil de países com menor extensão territorial ou uma base agrícola menos diversificada.
“O Brasil é muito grande, tem diversos biomas, diversas safras e culturas, então, por ser muito extenso, o país sai ganhando em comparação com países de área menor ou com poucas culturas”, afirma Gioielli.
O especialista ressalta ainda que a diversidade regional pode ajudar o país a acomodar melhor eventuais perdas localizadas, embora a demanda por alimentos continue elevada.
“O país consegue acomodar melhor essa produção, ainda que a gente tenha uma demanda maior, mas essa diversificação regional vai ajudar a aguentar melhor essa turbulência causada pelo El Niño”, avalia o analista.
El Niño pode reduzir oferta e exportações brasileiras
A principal ameaça do fenômeno para o agronegócio brasileiro, segundo Gioielli, está na irregularidade climática. Ele explica que um El Niño mais forte tende a produzir excesso de chuvas no Sul e condições mais secas no Centro-Oeste, criando impactos diferentes entre as regiões produtoras.
Essa distribuição desigual das condições climáticas pode comprometer parte da produção de commodities relevantes para o comércio exterior brasileiro. Entre os produtos diretamente expostos estão milho, soja, café e proteínas.
Além desse aspecto, o especialista pontua que, com uma produção menor em determinadas regiões, o Brasil pode não conseguir manter os mesmos volumes destinados ao mercado externo. Nesse sentido, embora o fenômeno não deva comprometer estruturalmente a posição do país como fornecedor mundial de alimentos, pode haver redução das exportações.
Evento climático é pontual, mas pode elevar percepção de risco
Gioielli avalia que um El Niño forte não deve colocar em xeque a segurança do abastecimento brasileiro nem a posição do país no mercado internacional. Segundo o especialista, o fenômeno deve ser tratado como um evento pontual e de curto prazo. Mesmo com uma intensidade maior, seus efeitos não necessariamente atingirão todas as regiões brasileiras da mesma maneira.
“A gente pode interpretar que o El Niño pode gerar uma percepção do mercado de maior risco no curto prazo, mas não deve colocar em xeque estruturalmente a posição brasileira. Trata-se de um evento pontual; haverá um momento em que esse evento passa e as coisas retornam à normalidade, o Brasil retorna à normalidade”, afirma Gioielli.
O analista acrescenta que a redução da produção em determinadas áreas não significa perda da relevância brasileira no comércio internacional.
“É um evento que reduz a oferta de determinadas culturas em algumas regiões do país, mas dificilmente vai eliminar a relevância do Brasil como fornecedor global no médio e longo prazo”, completa.
A produção agrícola distribuída por diferentes regiões é apontada por Gioielli como um dos elementos que podem favorecer essa capacidade de absorção. Ainda assim, o impacto sobre as exportações pode aparecer nos números.
“A exportação de US$ 170 bilhões que o país fez em 2025 deve ser um pouco menor em 2026, mas é uma chuva passageira que a gente tem que esperar passar”, conclui.
Mercados da China e do Oriente Médio estão mais expostos aos efeitos do El Niño
Os efeitos de uma eventual redução das exportações brasileiras tendem a aparecer primeiro nos mercados que possuem maior dependência da produção do país. No caso da soja, a China está entre os principais pontos de atenção. Gioielli ressalta que o país asiático possui elevada dependência do complexo de soja e já comprou US$ 35 bilhões do Brasil no primeiro trimestre deste ano.
Já no mercado de proteínas, principalmente o Oriente Médio, além de países asiáticos, é apontado como um mercado especialmente exposto, em razão da dependência das importações de carne brasileira.
Segundo o especialista, para o mercado financeiro, uma menor oferta brasileira pode afetar simultaneamente os volumes exportados e a formação de preços das commodities, dependendo da intensidade das perdas e das condições de produção nos demais grandes fornecedores.
Competitividade dependerá do impacto do El Niño sobre outros produtores
O efeito do El Niño sobre a competitividade brasileira não dependerá apenas das condições climáticas no país. Estados Unidos, Argentina, Austrália e outros grandes exportadores agrícolas também podem ser atingidos pelo fenômeno.
Isso significa que a posição relativa do Brasil poderá mudar ao longo da temporada, conforme os impactos sobre cada região produtora. Gioielli ressalta que o El Niño pode atingir diferentes produtores simultaneamente ou produzir impactos mais concentrados em determinadas áreas.
“É uma especulação… O El Niño pode prejudicar uma determinada região no Brasil, enquanto os Estados Unidos, Argentina e Austrália estão com uma safra melhor, mas pode ocorrer o contrário também e o El Niño pode prejudicar simultaneamente todo mundo. É importante a gente levar isso em consideração”, diz o especialista.
Na formação dos preços internacionais, o balanço entre oferta e demanda é determinante. Por isso, a produção brasileira representa apenas uma parte de um mercado composto por diversos grandes produtores.
“O mercado tem um balanço mundial de oferta e demanda e a produção brasileira não vai afetar tanto esse balanço, pois é mais um um conjunto de produtores que faz o preço final do produto. Dessa forma, centros produtores específicos podem ter uma variação muito maior de preço”, diz Gioielli.
Oferta menor deve pressionar preços das commodities
Uma eventual redução da produção também pode repercutir sobre os preços internacionais. O mecanismo apontado pelo especialista é o tradicional equilíbrio entre oferta e demanda: se a disponibilidade de determinado produto diminui enquanto a procura permanece estável ou aumenta, os preços tendem a subir, segundo o especialista.
No caso da soja, por exemplo, uma redução da oferta brasileira poderia fazer com que compradores internacionais pagassem mais para assegurar o produto.
“Se o Brasil tem menos soja no mercado e a necessidade de soja continua a mesma, o país que importar vai pagar mais caro, vai pagar um prêmio para poder garantir a soja”, afirma Gioielli.
O especialista pondera, contudo, que esse movimento não significa necessariamente uma inflação generalizada dos alimentos para o consumidor final. Segundo ele, o efeito tende a aparecer primeiro nos preços das commodities e, posteriormente, alcançar os produtos processados. Dessa forma, a pressão pode começar nas matérias-primas agrícolas antes de chegar à cadeia de produtos vendidos nos supermercados.
Milho e soja podem encarecer produção de proteínas
O impacto do El Niño também pode se espalhar pela cadeia de proteínas por meio dos custos de alimentação animal. Caso o fenômeno reduza a produção de milho ou soja, a menor disponibilidade desses produtos pode elevar o custo da ração. O aumento, por sua vez, pode pressionar os custos de produção de frangos e suínos e atingir indiretamente a bovinocultura.
Nesse cenário, o mercado árabe aparece entre os mais expostos, devido à importância das proteínas brasileiras para a região.
O mecanismo é relevante porque uma eventual alteração nos preços dos grãos pode atingir setores diferentes do agronegócio, ampliando os efeitos do fenômeno para além das lavouras diretamente afetadas pelas condições climáticas.
Logística pode se tornar gargalo para exportações
Além da produção, a capacidade de transportar, armazenar e embarcar as mercadorias pode se tornar um ponto de atenção caso a demanda internacional pelo produto brasileiro aumente. Gioielli destaca portos, ferrovias e rodovias como os principais modais que podem enfrentar pressão, além da estrutura de armazenagem.
“Eu destacaria três modais, que são os portos, as ferrovias e as rodovias. E também tem a questão da armazenagem. Se houver qualquer tipo de interrupção na produção de algum grande fornecedor mundial (que não seja o Brasil), o Brasil toma o lugar ou a gente pode ter uma super demanda e não conseguir escoar o produto, transportar, armazenar, embarcar o com eficiência. Isso seria um cenário de forte demanda internacional por algo que o Brasil tem e aí o País teria um gargalo logístico”, avalia o especialista.
O risco, portanto, não estaria restrito à capacidade de produção. Caso outros grandes fornecedores tenham sua oferta comprometida e a demanda se desloque para o Brasil, o país poderia enfrentar dificuldades para movimentar rapidamente um volume maior de produtos.
A preocupação também envolve países vizinhos. Gioielli destaca a vulnerabilidade de algumas economias latino-americanas diante de interrupções na produção.
“Há vários vizinhos nossos aqui da América Latina que não precisa de muito para interromper toda a produção do país”, afirma.
Nesse contexto, os efeitos do El Niño para o Brasil devem ser observados em duas frentes: de um lado, a possibilidade de redução da produção e das exportações de determinadas commodities; de outro, a eventual ampliação da demanda internacional por produtos brasileiros caso outros fornecedores sejam mais afetados.











