Por Luciano Gioielli*
Há duas formas de olhar para a política externa de Donald Trump. A mais comum talvez seja também a mais superficial. Ela enxerga uma sucessão de impulsos, declarações contraditórias, tarifas anunciadas pela manhã e revistas à tarde, aliados tratados como adversários e adversários tratados como parceiros circunstanciais. Ele teria substituído a diplomacia tradicional por uma política de confrontação permanente. Existe, porém, uma segunda leitura, menos popular, mais incômoda e que, ao mesmo tempo, faz muito mais sentido: e se o aparente circo e caos da administração Trump escondessem uma lógica política e econômica fria, calculista e muito mais consistente do que parece?
O debate costuma recair sobre dois extremos igualmente preguiçosos: de um lado, a teoria da conspiração; de outro, a ideia de que tudo depende do temperamento do presidente norte-americano. Porém, nenhuma das duas explica muita coisa. Estados não improvisam sua estratégia a cada quatro anos; presidentes mudam; os interesses nacionais quase sempre permanecem.
É justamente aqui que o debate público costuma olhar para o lugar errado. Enquanto todos discutem presidentes, poucos observam aquilo que continua movendo a política internacional: energia.
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O petróleo nunca deixou de ser um instrumento de poder
Desde o início da história, o controle das commodities e das rotas comerciais figura entre os principais instrumentos de poder das nações. Elas financiam Estados, moldam o comércio, fortalecem moedas e redefinem o equilíbrio de forças no sistema internacional.
O atual confronto entre Estados Unidos e Irã está longe de ser um episódio isolado. Sempre que um país ou bloco passa a concentrar recursos estratégicos, commodities ou corredores logísticos essenciais, Washington raramente permanece indiferente. Suez, o embargo do petróleo de 1973, a Doutrina Carter e a Guerra do Golfo revelam um padrão difícil de ignorar. Na geopolítica, petróleo nunca foi apenas petróleo.
O petróleo é o sangue que corre nas veias de qualquer império. Sem energia abundante e barata, exércitos não se movem, indústrias não produzem e economias deixam de crescer. Os Estados Unidos aprenderam essa lição da forma mais cara possível durante os choques do petróleo provocados pela Guerra do Yom Kippur, em 1973. Em poucos meses, o embargo árabe quadruplicou o preço do barril, alimentou uma onda de inflação, mergulhou economias em recessão e expôs uma vulnerabilidade estratégica impensável para a maior potência do planeta: sua prosperidade dependia de decisões tomadas a milhares de quilômetros de Washington.
No início dos anos 2000 os Estados Unidos ainda importavam grande parte do petróleo que consumiam. A resposta veio da tecnologia. Entre 2008 e 2015 a combinação da perfuração horizontal com o fraturamento hidráulico (fracking) desencadeou a Revolução do Shale. A produção americana saltou de cerca de 5 para mais de 12 milhões de barris por dia. O maior importador líquido de energia do planeta tornou-se um dos maiores produtores mundiais de petróleo e o principal exportador de gás natural liquefeito, redesenhando o mapa energético global.
Essa transformação redefiniu as prioridades de Washington. Durante décadas a principal preocupação americana era proteger o fluxo de petróleo do Golfo Pérsico para abastecer sua própria economia. Com a autossuficiência energética o Oriente Médio deixou de representar uma questão de sobrevivência para os Estados Unidos, mas permaneceu no centro da disputa entre as grandes potências. O motivo, porém, mudou.
O erro de boa parte das análises atuais é interpretar a política externa dos Estados Unidos como se essa transformação nunca tivesse ocorrido. A disputa já não gira apenas em torno do abastecimento energético americano, mas da competição estratégica com a China. Pequim depende crescentemente do petróleo do Golfo Pérsico e cerca de metade de suas importações atravessa o Estreito de Ormuz.
Quem influencia essas rotas não controla apenas o fluxo de petróleo, controla parte da capacidade de crescimento da segunda maior economia do mundo. A questão deixou de ser como garantir energia para os Estados Unidos e passou a ser como impedir que a dependência energética chinesa se transforme em influência global.
Um padrão difícil de ignorar por trás do aparente caos de Trump
É nesse ponto que a palavra “coincidência” começa a ficar desconfortável. Basta observar onde se concentram as atuais frentes de atrito com Washington: Rússia, Irã, Venezuela e Brasil. Todos compartilham diferenças políticas, históricas e culturais profundas, mas também uma característica em comum: são grandes produtores de petróleo e gás que escapam, em maior ou menor grau, da órbita de influência americana.
Rússia
A Rússia oferece o exemplo mais evidente. Antes da invasão da Ucrânia, cerca de 40% do gás natural consumido pela União Europeia vinha da Rússia. A Alemanha havia construído, ao longo de décadas, uma relação de profunda interdependência energética com Moscou, consolidada pelos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2. Essa colaboração ruiu em poucos anos.
As sanções econômicas, o abandono do gás russo pelos europeus, a sabotagem dos gasodutos Nord Stream em 2022 e a reorganização das cadeias de abastecimento reduziram drasticamente a presença russa no mercado europeu. No mesmo período, os Estados Unidos ampliaram de forma expressiva suas exportações de gás natural liquefeito (GNL) para a Europa, ocupando parte do espaço deixado por Moscou.
Paralelamente, a Ucrânia — amplamente financiada, armada e apoiada pelos países da OTAN — passou a atacar refinarias, terminais de armazenamento, oleodutos e instalações energéticas russas, além de atacar a chamada “frota fantasma” de petroleiros utilizada por Moscou para contornar as sanções internacionais. Independentemente da justificativa militar dessas operações, o efeito econômico é evidente: reduzir a capacidade russa de exportar energia significa enfraquecer a principal fonte de financiamento do Kremlin e reconfigurar o mercado energético europeu.
Venezuela
O país detém uma das maiores reservas provadas de petróleo do planeta, mas produz apenas uma fração de seu potencial. Sanções, isolamento financeiro, restrições tecnológicas e anos de deterioração institucional reduziram drasticamente sua capacidade de transformar reservas em produção.
Ao mesmo tempo em que Washington endureceu as sanções e exerceu intensa pressão política e jurídica sobre Caracas — culminando na captura de Nicolás Maduro pelas forças americanas — empresas norte-americanas voltaram a ocupar posição central na exploração do petróleo venezuelano por meio de licenças especiais e joint ventures com a PDVSA. A Chevron tornou-se o principal símbolo desse modelo, ao lado de prestadoras de serviços como Halliburton, Baker Hughes e Schlumberger, que voltaram a atuar no setor sob diferentes regimes de autorização.
A Venezuela continua submetida a severas restrições econômicas, mas parte crescente de sua produção retorna ao mercado internacional por meio de empresas autorizadas por Washington. Para os Estados Unidos, faz muito mais sentido econômico importar petróleo pesado produzido a poucos dias de navegação das refinarias da Costa do Golfo que é extraído por empresas americanas, do que depender de cadeias logísticas muito mais longas e vulneráveis no Golfo Pérsico. O petróleo venezuelano reduz custos de transporte, encurta o tempo de abastecimento e se adapta naturalmente ao parque de refino construído durante décadas para processar esse tipo de óleo bruto.
Irã
Desde que nacionalizou seu petróleo, em 1951, retirando das mãos britânicas o controle de sua principal riqueza, Teerã passou a ser tratado como um inimigo permanente das potências ocidentais. A resposta veio rapidamente: Reino Unido e Estados Unidos organizaram o golpe de 1953, derrubaram Mohammad Mossadegh e recolocaram o petróleo iraniano sob uma ordem mais conveniente aos interesses ocidentais. Décadas depois, o método mudou, mas o objetivo permaneceu o mesmo; sanções financeiras, bloqueios comerciais, restrições ao transporte marítimo e ameaças constantes transformaram um dos maiores produtores de petróleo do planeta em um exportador permanentemente limitado.
Na prática, trata-se de uma política de contenção energética: impedir que milhões de barris iranianos entrem livremente no mercado internacional. Quanto menor a presença do petróleo iraniano, menor a oferta global e maior a capacidade de influência das potências que controlam as rotas financeiras, o sistema de sanções e seus próprios fluxos de exportação.
Não por acaso, essa pressão também atinge todo o Golfo Pérsico. O Irã é a principal potência da margem norte do estreito por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. Manter Teerã economicamente encurralado significa limitar o potencial energético de toda a região e preservar uma arquitetura internacional na qual o acesso ao mercado de petróleo continua sendo menos uma questão de eficiência econômica e mais uma ferramenta de poder geopolítico.
Seria intelectualmente desonesto afirmar que todos esses conflitos decorrem de uma única estratégia ou de uma mesma motivação. Geopolítica raramente funciona dessa maneira. Mas também seria precipitado tratar como mera coincidência o fato de que todos produzem um efeito semelhante: restringem a oferta global de energia, dificultam a atuação de grandes concorrentes ou aumentam significativamente o risco associado ao fornecimento mundial de petróleo e gás.
Costuma-se dizer que o mercado negocia petróleo. Não exatamente. O mercado negocia previsibilidade. O barril é apenas a unidade de medida.
A economia política da hegemonia
Minha hipótese é que o crescente endividamento dos Estados Unidos e a necessidade de prolongar sua condição de potência hegemônica passaram a convergir para um mesmo objetivo: ampliar sua participação no mercado internacional de energia, fortalecendo uma das principais fontes de geração de riqueza da economia americana.
Essa lógica produz uma consequência previsível. Não basta aumentar as próprias exportações de petróleo e gás. É igualmente necessário limitar a capacidade de expansão dos demais grandes produtores, reduzir a influência de concorrentes e impedir que potências rivais convertam recursos energéticos em poder econômico e político. Em mercados altamente concentrados, ampliar participação raramente depende apenas de crescer; depende também de restringir o espaço disponível aos concorrentes.
Os Estados Unidos convivem hoje com uma dívida pública superior a US$ 37 trilhões, a maior de sua história em tempos de paz. Financiar esse passivo exige muito mais do que arrecadação. Exige que governos, bancos centrais e investidores continuem comprando títulos do Tesouro americano, preservando o dólar como principal moeda de reserva internacional e mantendo o fluxo global de capitais em direção à economia dos Estados Unidos. Um país capaz de influenciar a oferta mundial de energia fortalece suas empresas, atrai investimentos, amplia sua arrecadação e reforça a confiança na própria economia.
Essa disputa ocorre justamente quando a ordem internacional se torna mais competitiva. A ascensão da China como potência tecnológica e industrial, a expansão dos BRICS, o avanço de sistemas alternativos de pagamento, as tentativas de reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais e a crescente competição por terras raras, semicondutores e cadeias globais de suprimento desafiam uma posição que Washington ocupou quase sem contestação desde o fim da Guerra Fria.
Minha hipótese é que o crescente endividamento dos Estados Unidos e a necessidade de prolongar sua condição de potência hegemônica passaram a convergir para um mesmo objetivo: ampliar sua participação no mercado internacional de energia, fortalecendo uma das principais fontes de geração de riqueza da economia americana.
Essa lógica produz uma consequência previsível. Não basta aumentar as próprias exportações de petróleo e gás. É igualmente necessário limitar a capacidade de expansão dos demais grandes produtores, reduzir a influência de concorrentes e impedir que potências rivais convertam recursos energéticos em poder econômico e político. Em mercados altamente concentrados, ampliar participação raramente depende apenas de crescer; depende também de restringir o espaço disponível aos concorrentes.
Essa leitura parece oferecer uma explicação mais convincente do que a confortável ideia de que a maior potência do planeta simplesmente improvisa. Sob essa ótica, muitas decisões da administração Donald Trump deixam de parecer improvisações de um líder impulsivo ou simples espetáculos para consumo doméstico. Passam a integrar uma estratégia coerente de preservação da primazia econômica americana em um cenário de competição crescente com a China e de fragmentação da ordem internacional. Estados dificilmente fazem é conduzir sua política externa durante décadas sem perseguir interesses permanentes.
Naturalmente, essa interpretação admite objeções. Poder-se-ia argumentar que Washington também aplica sanções a países cuja importância energética é limitada, como Cuba ou Coreia do Norte. A observação é pertinente. Nenhuma hipótese séria deve pretender explicar toda a política externa americana por um único fator.
O ponto central, contudo, é outro. Quando se observam justamente os episódios capazes de alterar de forma relevante o mercado internacional de energia, o padrão reaparece com frequência suficiente para merecer consideração. O petróleo talvez não explique tudo, mas parece explicar mais do que normalmente se admite.
O Brasil nesse contexto
O Brasil hoje é um exportador relevante de petróleo, consolidou o pré-sal como um dos principais ativos da economia nacional e passou a ocupar posição cada vez mais importante no mercado internacional de energia. Ao mesmo tempo, procura preservar relativa autonomia em sua política externa, diversificando relações comerciais e evitando alinhamentos automáticos com qualquer bloco de poder.
Essas características não transformam o Brasil em um adversário dos Estados Unidos, tampouco autorizam a ingenuidade de imaginar que Washington seja indiferente à ascensão de um novo fornecedor relevante no comércio internacional. Na geopolítica a irrelevância costuma ser a melhor garantia de tranquilidade. À medida que um país ganha peso, inevitavelmente passa a ser observado com maior atenção.
Somos uma das maiores potências agropecuárias do planeta, um dos principais exportadores mundiais de alimentos, membro fundador do BRICS e um país que historicamente preservou uma tradição de relativa autonomia em sua política externa. Além disso, possuímos um mercado interno de mais de 200 milhões de consumidores, capaz de absorver parte significativa dos choques externos e reduzir nossa vulnerabilidade em períodos de turbulência internacional.
Não surpreende, portanto, que o Brasil tenha passado a enfrentar um endurecimento crescente da política comercial americana, figurando entre os países mais atingidos por medidas tarifárias de Washington em determinados setores. Para uma potência que busca preservar sua liderança econômica, a combinação de recursos naturais abundantes, capacidade exportadora, peso diplomático e aproximação com economias como China, Índia e Rússia naturalmente desperta atenção.
O Brasil já integra o radar estratégico de Washington, embora ainda ocupe uma posição distinta da Rússia, Irã ou Venezuela. Diferentemente desses países, o peso da economia brasileira, sua inserção nos mercados globais e sua tradição diplomática tornam muito mais difícil isolá-lo internacionalmente ou enquadrá-lo na categoria de Estado pária. O Brasil talvez não esteja fora do tabuleiro; apenas seja uma peça valiosa demais para que Washington a sacrifique tão cedo.
A política externa de Donald Trump é muito menos caótica do que costuma parecer e muito mais coerente com os interesses históricos dos Estados Unidos do que frequentemente se admite. Isso não significa que todas as crises tenham sido planejadas, nem que cada decisão presidencial faça parte de um plano perfeitamente executado, pois geopolítica não funciona dessa maneira. Estados erram, revisam estratégias e, muitas vezes, produzem efeitos contrários aos pretendidos. O que dificilmente fazem é abandonar seus interesses permanentes.
Sob essa perspectiva, Rússia, Irã, Venezuela e, em menor medida, o próprio Brasil deixam de parecer episódios desconexos. Quando observados pela lente da economia política da energia, revelam um padrão: grandes produtores de recursos estratégicos, rotas de abastecimento e mercados relevantes tornam-se, repetidamente, o centro das disputas envolvendo Washington.
Essa interpretação possui uma vantagem sobre a leitura predominante de que Donald Trump age movido apenas por impulsos ou improvisações. Em vez de tratar cada crise como um episódio isolado, ela organiza acontecimentos aparentemente desconexos dentro de uma mesma lógica de incentivos. Em ciência, uma hipótese que explica mais fatos com menos pressupostos costuma ser mais robusta do que aquela que depende de uma nova explicação para cada evento.
Ela também revela um paradoxo: a estratégia pode fazer sentido no curto prazo e, ainda assim, enfraquecer os próprios Estados Unidos no longo prazo. Tarifas elevam o poder de barganha, sanções dificultam a expansão de concorrentes e preços mais altos da energia beneficiam produtores americanos. Sob essa lógica, a política parece coerente. O problema é que mercados não vivem apenas de poder. Vivem de confiança.
Durante quase oito décadas, a principal vantagem competitiva dos Estados Unidos não foi apenas possuir o maior exército ou a maior economia do planeta. Foi convencer o mundo de que suas regras eram previsíveis. Foi essa confiança que levou bancos centrais a acumular dólares, investidores a financiar uma dívida pública superior a US$ 37 trilhões e empresas a construir cadeias globais de produção sob a proteção da ordem liderada por Washington.
Quando as tarifas deixam de ser medidas excepcionais e passam a funcionar como um martelo econômico para punir países que Trump considera estar tirando vantagem dos Estados Unidos, a mensagem é clara: as regras deixam de ser previsíveis e passam a mudar conforme a conveniência política do momento. Essa incerteza cria um incentivo para que países busquem fornecedores e parceiros considerados mais previsíveis. Os sinais desse movimento já começam a aparecer.
A Europa procura reduzir vulnerabilidades em setores considerados críticos. Os países do Golfo ampliam suas relações comerciais e estratégicas com a Ásia. Os BRICS discutem mecanismos financeiros capazes de reduzir a dependência da infraestrutura dominada pelo Ocidente. A China, por sua vez, acelera os esforços para fortalecer suas próprias cadeias de suprimentos, ampliar o uso internacional do yuan e diminuir sua exposição ao dólar.
Nenhuma dessas iniciativas, isoladamente, ameaça a liderança global dos Estados Unidos no curto prazo. Em conjunto, porém, pela primeira vez em décadas, a excessiva dependência de Washington passou a ser percebida como uma vulnerabilidade.
Ao utilizar sua posição dominante para preservar a própria hegemonia, os Estados Unidos também incentivam o restante do mundo a buscar alternativas a essa mesma hegemonia. Impérios raramente perdem sua posição por falta de poder. Com muito mais frequência, começam a perdê-la quando seus parceiros deixam de confiar que as regras de hoje continuarão valendo amanhã.
*Luciano Gioielli é analista internacional do Portal das Commodities











