Por Nayhara Cardoso*
Um levantamento da IOB, divulgado pela Folha de S.Paulo, revela um dado que deveria acender um alerta para o setor produtivo: 95% das empresas brasileiras ainda correm o risco de ter notas fiscais rejeitadas por não estarem preparadas para as novas exigências da Reforma Tributária. O estudo, realizado com 967 empresas de diferentes portes e regimes tributários, mostrou que apenas 5,18% já adequaram seus cadastros fiscais às novas regras.
O dado chama atenção porque a primeira mudança prática da Reforma Tributária já tem data para acontecer. A partir de 3 de agosto, entram em vigor novas regras para a emissão de documentos fiscais eletrônicos, exigindo que empresas enquadradas no regime regular preencham corretamente os novos campos relativos ao IBS e à CBS.
Embora esses tributos ainda estejam em fase de transição, a mensagem é clara: a Reforma Tributária deixou de ser um tema para o futuro. Ela já faz parte da rotina das empresas e exigirá uma mudança de postura muito maior do que muitos imaginam.
Não basta atualizar o sistema
Existe uma percepção equivocada de que a adaptação depende apenas da atualização do ERP ou do emissor de notas fiscais. Essa talvez seja a maior armadilha dessa primeira etapa da reforma.
Os fornecedores de software vêm disponibilizando versões compatíveis com os novos layouts, mas isso representa apenas uma parte do processo. A tecnologia executa aquilo que recebe. Se os cadastros estiverem desatualizados, se a classificação tributária das operações estiver incorreta ou se as parametrizações não refletirem a realidade da empresa, o sistema continuará produzindo erros.
Mais do que uma atualização tecnológica, a Reforma Tributária exige uma revisão da qualidade das informações utilizadas no dia a dia. Produtos, serviços, benefícios fiscais, natureza das operações e regras tributárias precisam estar corretamente cadastrados para que a emissão das notas fiscais ocorra sem inconsistências.
A reforma, na prática, expõe fragilidades que muitas empresas carregam há anos, mas que até então permaneciam escondidas dentro dos sistemas.
Impacto da reforma tributária vai além da área fiscal
Durante muito tempo, problemas relacionados à tributação eram percebidos apenas pelo contador ou pelo departamento fiscal. Quando havia alguma inconsistência, ela normalmente aparecia durante uma fiscalização ou na apuração dos tributos. Agora, esse cenário muda.
Uma nota fiscal rejeitada pode significar atraso no faturamento, interrupção da entrega de mercadorias, descumprimento de contratos e impacto imediato no fluxo de caixa da empresa. Um simples erro de preenchimento ou de parametrização pode impedir que uma operação seja concluída.
Por isso, a adaptação às novas regras não deve ser vista apenas como uma obrigação legal. Trata-se de uma medida essencial para garantir a continuidade das operações e reduzir riscos financeiros. A Reforma Tributária transforma a conformidade fiscal em uma questão estratégica para o negócio.
A adaptação à reforma tributária envolve toda a empresa
Outro erro comum é acreditar que essa mudança pode ficar concentrada exclusivamente na contabilidade. O contador tem papel indispensável, mas não consegue conduzir sozinho uma transformação dessa dimensão. A equipe fiscal precisa revisar a classificação das operações; a área de tecnologia deve adaptar e testar os sistemas e o comercial precisa compreender possíveis reflexos na formação de preços e nas negociações com clientes. O financeiro deve avaliar impactos sobre faturamento e fluxo de caixa.
Ao mesmo tempo, a atuação do advogado especialista em Direito Tributário torna-se fundamental para interpretar corretamente a nova legislação, orientar a aplicação das regras e oferecer segurança jurídica às decisões da empresa durante esse período de transição.
A Reforma Tributária exige integração entre áreas que, até então, muitas vezes trabalhavam de forma isolada. E essa integração será determinante para uma adaptação segura.
O momento de agir é agora
O período de transição não foi criado para que as empresas aguardem a implementação definitiva dos novos tributos. Ele existe justamente para permitir testes, revisões e ajustes antes que as novas validações passem a impactar diretamente a operação.
Esperar a primeira nota fiscal ser rejeitada para descobrir que o sistema não está corretamente parametrizado pode gerar prejuízos muito maiores do que o investimento necessário para uma preparação antecipada.
A experiência demonstra que os maiores problemas tributários raramente decorrem da falta de legislação. Eles surgem quando processos internos não acompanham as mudanças legais.
Mais do que alterar a forma de arrecadação, a Reforma Tributária representa uma oportunidade para que as empresas revisem sua governança, fortaleçam seus processos internos e invistam na qualidade das informações que sustentam suas operações.
A adaptação não deve ser encarada apenas como um custo ou uma obrigação burocrática. Ela é uma medida de gestão, de organização e de competitividade.
Porque a Reforma Tributária não começa quando os novos tributos forem efetivamente cobrados. Ela começa quando a empresa entende que uma informação fiscal incorreta pode impedir a emissão de uma nota, interromper o faturamento e comprometer toda a sua operação.
Quem compreender isso desde agora fará da transição uma oportunidade. Quem deixar para depois poderá descobrir que o maior impacto da reforma não estará no valor do imposto, mas na impossibilidade de continuar operando normalmente.
* Nayhara Cardoso é advogada empresarial com especialidade em Direito Tributário e Previdenciário da RGL Advogados











