Por Bianca Medran Moreira*
Durante muito tempo, investir em segurança da informação era uma decisão tomada apenas depois de um incidente, de uma exigência regulatória ou da perda de uma oportunidade de negócio. Hoje, esse cenário mudou. Em um ambiente marcado pelo aumento dos riscos cibernéticos, pela digitalização das operações e por clientes cada vez mais exigentes em relação à proteção de dados, governança deixou de ser apenas uma pauta de compliance e passou a influenciar competitividade, confiança e crescimento.
Nesse contexto, as certificações ISO/IEC 27001 e ISO/IEC 27701 vêm ganhando espaço como um reflexo da maturidade das organizações. As certificações assumem papel estratégico ao fornecer referenciais e padrões internacionalmente reconhecidos para a implementação de sistemas capazes de integrar segurança da informação, gestão de riscos e privacidade em uma estrutura organizacional coerente e auditável.
Esse movimento pode ser observado no próprio mercado brasileiro: em 2024, o país já contabilizava 1.670 certificados ISO 27001 emitidos, cobrindo mais de 4 mil unidades organizacionais, um crescimento de 16% em relação ao ano anterior, segundo o relatório Cost of a Data Breach do IBM.
Cada vez mais, clientes, parceiros e investidores querem saber como uma organização gerencia riscos, controla acessos, protege informações sensíveis e responde a incidentes. Antes mesmo de assinar um contrato, muitas empresas passam por extensos processos de avaliação de segurança, privacidade e compliance. Em diversos setores, a capacidade de comprovar boas práticas já influencia negociações, reduz o tempo de due diligence e fortalece a confiança comercial.
Existe um equívoco comum de acreditar que uma certificação começa quando a auditoria é agendada. Na prática, ela começa muito antes, quando a organização decide revisar sua cultura, seus processos e sua gestão de riscos. Esse movimento também faz sentido do ponto de vista financeiro. Segundo estudo do Serasa Experien, o custo médio de uma violação de dados no Brasil chegou a R$7,19 milhões em 2025. Investir em governança antes de um incidente deixou de ser apenas uma medida preventiva e passou a representar uma decisão econômica.
Esse cenário também acompanha um novo desafio das organizações: incorporar mecanismos de gestão de riscos para tecnologias que evoluem mais rápido do que os processos internos. Segundo o relatório Cost of a Data Breach, da IBM, 87% das empresas brasileiras ainda não possuem políticas formais de governança para inteligência artificial e 61% não implementaram controles específicos para o uso dessas ferramentas.
O cenário reforça que amadurecer processos de governança deixou de ser apenas uma questão regulatória e passou a ser condição para utilizar novas tecnologias de forma segura.
No fim, a pergunta deixou de ser se uma empresa sofrerá tentativas de ataque ou enfrentará novas exigências regulatórias. A pergunta passou a ser: quando isso acontecer, ela estará preparada para responder?
As organizações que começam essa preparação antes da crise não apenas reduzem riscos. Elas constroem um ambiente mais resiliente, fortalecem sua reputação e criam condições para crescer de forma sustentável em um mercado onde confiança passou a ser um dos ativos mais valiosos.
*Bianca Medran Moreira é Mestre em Direito, advogada e Data Protection Officer (DPO) da doc9











