Mesmo com a adoção massiva de inteligência artificial (IA) nos últimos anos pelos grandes bancos, o CEO do Itaú (ITUB4), Milton Maluhy Filho, não trata a tecnologia como uma substituição do trabalho humano.
Durante sua participação nesta segunda-feira (24) no painel de abertura da Febraban Tech 2026, Maluhy afirmou que a tecnologia deve ser utilizada como instrumento para construir relações de longo prazo com os clientes.
“Nos últimos anos, o Itaú passou por uma extensa transformação tecnológica”, relembra o executivo. Nesse meio tempo, a instituição entrou em uma nova etapa, voltada à aplicação da inteligência artificial, agora com uma modernização da arquitetura de dados, adoção de computação em nuvem e democratização do acesso às informações.
A transformação na Caixa Econômica Federal (CEF) foi ainda mais evidente, segundo Carlos Vieira, presidente do banco estatal. “Há 3 anos, a Caixa era uma ‘selva analógica’. Todos os processos eram analógicos, incluindo áreas mais complexas, como o financiamento imobiliário”, disse.
A mudança, segundo o executivo, alterou o nível de digitalização da instituição e abriu espaço para novas aplicações da tecnologia.
Bancos usam IA para ganhar escala e personalizar serviços
O painel, que contou também com a presença dos CEOs dos principais bancos brasileiros, também discutiu como a tecnologia está alterando crédito, atendimento, produtividade e relacionamento com clientes.
Para Marcelo Noronha, CEO do Bradesco (BBDC4), a transformação tecnológica também passou a ser associada diretamente à produtividade. Segundo ele, o banco atravessa um processo de transformação iniciado em fevereiro de 2024, com mudanças na relação com os clientes e nos processos internos.
Um dos exemplos citados foi a BIA, assistente virtual do banco, que completou dez anos em 2026. Segundo Noronha, a ferramenta, atualmente baseada em inteligência artificial, realizou cerca de 74 milhões de transações no primeiro semestre.
A instituição também ampliou o desenvolvimento de ferramentas próprias após a aquisição da Kunumi, com a criação da BiaTech. A estratégia, segundo o executivo, busca adaptar a relação do banco às necessidades individuais dos clientes.
A transformação, no entanto, não foi tão significante para todos os bancos. O BTG Pactual (BPAC11) e o Nubank (NUBR34) — representado pela primeira vez na Febraban Tech — passaram por processos mais suaves, visto que nasceram em um ambiente com processos digitalizados e com uma estrutura tecnológica preparada.
Na visão de Roberto Saloutti, CEO do BTG, desde março, a velocidade de adoção de novos modelos de IA passou a transformar em realidade possibilidades que antes eram tratadas como hipóteses. Para ele, o setor financeiro está preparado para utilizar a tecnologia em benefício dos clientes, mas a mudança também pode afetar os preços dos serviços.
Crédito entra no centro da transformação
A inteligência artificial também começa a alterar áreas diretamente ligadas à atividade bancária, como o crédito.
Livia Chaves, CEO Latam do Nubank, dividiu a evolução da tecnologia em duas frentes. A primeira é a IA preditiva, que utiliza técnicas de machine learning para identificar padrões e fazer previsões a partir de dados.
A segunda é a IA generativa, capaz de produzir textos, códigos, análises e outros conteúdos a partir de comandos. Segundo Chaves, essa é a principal novidade do atual ciclo de desenvolvimento da tecnologia. Entre os campos em que a aplicação da IA mais avança está justamente o crédito.
A executiva também destacou a relação entre tecnologia e segurança. Segundo ela, a evolução tecnológica também é acompanhada pelo avanço dos crimes digitais. “A inovação é inexorável. O crime evolui com a tecnologia e parte da nossa responsabilidade é usá-la de forma defensiva, mas também ofensiva.”
Juros altos limitam crédito e pressionam bancos
As discussões sobre tecnologia ocorreram paralelamente a uma avaliação do cenário econômico brasileiro.
Para Maluhy, o ambiente de juros elevados representa um desafio para os bancos, porque o crédito é um dos principais produtos dessas instituições. O executivo defendeu uma trajetória de juros menores associada à expansão do crédito.
Na avaliação do CEO do Itaú, o debate fiscal também precisa considerar o déficit nominal, que inclui o resultado primário e os gastos com juros da dívida pública.
Segundo ele, juros elevados funcionam como consequência de desequilíbrios mais amplos, e a redução sustentável das taxas depende da melhora desse cenário.
“Estamos diante de uma oportunidade [no cenário macroeconômico]. Temos desafios no exterior, mas não podemos controlar isso, e o Brasil também está repleto de desafios locais. O social e o fiscal andam de mãos dadas”, afirmou Maluhy.
Em complemento, Noronha afirmou que o setor deve acompanhar as propostas dos candidatos nas eleições presidenciais de outubro, independentemente de qualquer posição política.
Para o CEO do Santander Brasil, Gilson Filkensztain, o setor precisa aprender a operar em um ambiente internacional mais tenso. Segundo ele, não há sinais de que esse cenário deva se normalizar nos próximos anos.
Bancos se preparam para um mundo mais volátil
Os executivos também relacionaram a transformação tecnológica a um ambiente internacional marcado por mudanças econômicas e geopolíticas.
Sallouti afirmou que o cenário geopolítico atual é diferente daquele observado na década de 1990. Para ele, o Brasil precisa avançar em três frentes: custo de capital, segurança e produtividade.
A segurança mencionada pelo executivo envolve os ambientes público, jurídico e tributário. Na avaliação dele, essa agenda deve ser tratada como um processo de longo prazo, com horizonte de 15 anos.
No Nubank, Livia Chaves também destacou o aumento da volatilidade. Segundo ela, embora o Brasil continue sendo a principal operação da companhia, a instituição observa o cenário macroeconômico de forma global.
Para a executiva, a estabilidade deixou de ser uma característica predominante do ambiente econômico, enquanto períodos de alta e baixa se tornaram mais frequentes.











