Por Luciano Gioielli*
A Arábia Saudita se encurralou. Durante anos, Riad tentou fazer algo que parecia, no papel, bastante inteligente: manter a proteção militar dos Estados Unidos enquanto estreitava relações com China e Irã. O problema é que diplomacia permite ter vários amigos ao mesmo tempo; uma crise militar, nem sempre. Agora, com os Houthis avançando no Iêmen, o Estreito de Ormuz sob pressão e suas rotas alternativas de exportação comprometidas, os sauditas estão descobrindo uma ironia incômoda: ter petróleo é uma coisa. Conseguir colocá-lo no mercado é outra.
O delicado equilíbrio de Riad — a guerra contra o Irã colocou a Arábia Saudita em uma posição especialmente delicada. O reino precisa tentar restaurar algum nível de estabilidade regional e, ao mesmo tempo, administrar sua relação com os Estados Unidos — há décadas seu principal garantidor de segurança — enquanto se aproxima cada vez mais de Pequim e Teerã.
Desde 2023, quando a China intermediou o acordo de normalização entre sauditas e iranianos, Riad vinha tentando mostrar que era possível conversar com todos sem necessariamente escolher um lado. Durante algum tempo, parecia funcionar. O processo chegou a um ponto simbólico quando o ministro das Relações Exteriores saudita entregou ao líder supremo iraniano uma carta do rei saudita, aparentemente manifestando apoio a um acordo de segurança entre os dois países. Era a velha estratégia saudita em sua forma mais sofisticada: diminuir inimigos, ampliar parceiros e deixar Washington, Pequim e Teerã acreditarem que ainda tinham espaço em Riad.
A partir de meados de março, o Irã deixou de atacar diretamente alvos na Arábia Saudita e concentrou seus ataques nos Emirados Árabes Unidos, que haviam adotado uma postura mais crítica em relação a Teerã. Sauditas e iranianos também sinalizaram repetidamente que pretendiam manter relações funcionais depois da guerra. Os sauditas chegaram a enviar uma delegação oficial ao funeral do aiatolá Khamenei em julho. E, aparentemente, isso não incomodou Donald Trump. No mesmo mês, Trump anunciou um acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita — algo que os sauditas vinham tentando obter havia anos. Até aqui, Riad parecia ter encontrado uma maneira de andar sobre o muro sem cair para nenhum dos lados.
Quando o petróleo encontrou uma saída
Presidentes americanos anteriores haviam condicionado esse tipo de acordo à normalização das relações entre Arábia Saudita e Israel. Trump também havia sinalizado que esperava o mesmo. Os sauditas, porém, praticamente ignoraram a exigência. Enquanto a diplomacia fazia seu trabalho, o petróleo também ajudava a esconder os problemas. As exportações pelo Estreito de Ormuz haviam despencado, mas a Arábia Saudita conseguiu compensar parte da perda redirecionando suas exportações pelo oleoduto Leste-Oeste até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
Os números da Saudi Aramco ajudavam a sustentar a aparência de normalidade. A produção caiu de aproximadamente 12,6 milhões de barris por dia no primeiro trimestre para 9,5 milhões no segundo. Só que o preço médio de venda subiu de aproximadamente US$ 77 para US$ 108 por barril. Ou seja: Riad estava produzindo menos, mas vendendo cada barril por muito mais. Era uma situação desconfortável, mas administrável. O petróleo ainda estava encontrando uma saída. Até que deixou de encontrar.
O petróleo está preso
Na última semana, a situação começou a desandar. A Arábia Saudita passou a sofrer ataques de diferentes grupos ligados ao Irã. O governo Trump aparentemente se recusou a ajudá-la diretamente. E, para piorar, as exportações de petróleo praticamente chegaram a zero. É aqui que a história muda de natureza. O ponto de virada provavelmente começou quando os Houthis lançaram uma ofensiva contra posições das forças do governo do Iêmen, no sudoeste do país. O governo iemenita, embora internacionalmente reconhecido, depende fortemente da Arábia Saudita para apoio econômico e militar. Os Houthis, por outro lado, são frequentemente descritos como aliados do Irã.
O conflito deixou os Houthis controlando grande parte do oeste do Iêmen, enquanto o governo apoiado pelos sauditas manteve apenas alguns bolsões territoriais. Agora, com a nova escalada, os Houthis passaram a anunciar um bloqueio contra navios entrando ou saindo dos portos sauditas através do Bab el-Mandeb. E aqui está a ironia que transforma uma guerra regional em um problema econômico para Riad: o Bab el-Mandeb havia justamente se tornado uma das alternativas para as exportações sauditas depois dos problemas no Estreito de Ormuz.
A situação piorou quando os Houthis avançaram pelo litoral. Eles tomaram áreas como Mocha e Murdad e consolidaram seu controle sobre a região do Bab el-Mandeb. No momento da análise, avançavam em direção a Taiz e Marib — dois dos principais centros populacionais ainda controlados pelas forças apoiadas pela Arábia Saudita. É difícil imaginar uma metáfora mais simples para o problema saudita. Riad pode ter petróleo suficiente. Pode ter dinheiro suficiente. Pode até ter aliados suficientes no papel, mas precisa de uma rota. E, quando as rotas começam a desaparecer uma por uma, a riqueza subterrânea deixa de significar liberdade estratégica.
A conta da dependência
Segundo relatos, durante a ofensiva dos Houthis, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman teria telefonado duas vezes para Donald Trump pedindo ataques aéreos contra os Houthis. Nas duas ocasiões, Trump teria recusado. A justificativa atribuída a Trump seria que os Estados Unidos queriam concentrar seus esforços no Irã e evitar a abertura de novas frentes de guerra. Para os sauditas, isso representa uma mudança importante. Durante décadas, a segurança do reino esteve fortemente ligada ao apoio militar americano. Só que uma aliança estratégica funciona enquanto os interesses dos dois lados continuam alinhados. Quando deixam de estar, a conta chega.
Turquia e Paquistão, os outros membros da chamada nova Aliança de Meca, também afirmaram que não entrariam diretamente no conflito. A aliança deveria possuir uma cláusula de defesa mútua semelhante ao Artigo 5 da OTAN, mas os dois países posteriormente afirmaram que o acordo ainda não estava legalmente em vigor porque não havia sido ratificado pelos respectivos parlamentos. Mais uma vez, Riad descobriu a diferença entre ter parceiros diplomáticos e ter alguém disposto a entrar em uma guerra por você. E então veio outro golpe.
Durante a ofensiva dos Houthis, o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita também foi atingido por vários drones. Inicialmente, muitos acreditaram que os ataques haviam sido realizados pelos próprios Houthis. Posteriormente, surgiram informações de que os drones teriam sido lançados do Iraque, provavelmente por uma das várias milícias apoiadas pelo Irã que atuam no país.
Imagens de satélite divulgadas posteriormente indicaram danos graves em pelo menos duas estações de bombeamento. Os reparos podem levar semanas — possivelmente até um mês. Com o oleoduto Leste-Oeste fora de operação e o Bab el-Mandeb praticamente fechado, a Arábia Saudita perdeu grande parte de sua capacidade de exportar petróleo por rotas alternativas.
E é nesse momento que a estratégia de Riad começa a parecer menos como diversificação e mais como uma coleção de dependências. Durante anos, a Arábia Saudita tentou reduzir sua dependência dos Estados Unidos aproximando-se da China e do Irã. É uma estratégia perfeitamente compreensível. Mas existe uma diferença entre diversificar relações diplomáticas e construir capacidade própria para proteger as rotas pelas quais a principal fonte de receita do país precisa passar. O problema não é apenas quem está do lado de Riad. É quem está disposto a abrir caminho para o petróleo saudita quando as coisas ficam ruins.
Tudo isso acontece em um momento particularmente ruim para a economia do reino. Durante anos, a Arábia Saudita acumulou enormes superávits fiscais. Agora, enfrenta déficits persistentes e crescentes. Uma das principais razões é o aumento dos gastos relacionados ao Vision 2030, o ambicioso projeto de transformação econômica promovido por Mohammed bin Salman. O déficit chegou a diminuir no trimestre mais recente. Mas existe um detalhe importante: essa melhora ocorreu principalmente porque as receitas do petróleo foram maiores do que o esperado. Se essas receitas despencarem, o déficit fiscal poderá voltar a crescer rapidamente. E aqui está talvez o maior problema de todos: o Vision 2030 foi concebido para reduzir a dependência do petróleo, mas, por enquanto, sua execução continua dependendo justamente da capacidade de o petróleo financiar a transformação.
O verdadeiro problema de Riad
O problema da Arábia Saudita pode ser resumido, olhando em retrospectiva, em uma palavra: dependência. Riad passou décadas construindo uma estratégia de segurança apoiada nos Estados Unidos. Depois começou a diversificar suas relações, aproximando-se da China e do próprio Irã. A diversificação fazia sentido. O que os acontecimentos recentes mostram é que diversificar parceiros não é a mesma coisa que eliminar vulnerabilidades.
A Arábia Saudita pode conversar com Washington, negociar com Pequim e reatar relações com Teerã. Mas nenhuma dessas relações, isoladamente, garante que um navio saudita conseguirá sair de um porto, atravessar um estreito e chegar ao comprador. E petróleo que não chega ao comprador não paga orçamento. Os sauditas já estão tentando reduzir essa vulnerabilidade. A aproximação com a China faz parte dessa estratégia. A criação da Aliança de Meca também pode ser vista nesse contexto. O desenvolvimento de relações mais equilibradas com diferentes potências busca justamente diminuir a dependência de Washington.
Só que existe um problema que diplomacia nenhuma consegue esconder: a Arábia Saudita precisa proteger suas rotas de petróleo agora. No Iêmen, no Bab el-Mandeb, no Estreito de Ormuz e nas rotas alternativas de exportação, Riad está descobrindo que sua verdadeira vulnerabilidade não está debaixo da terra. Está no caminho entre o poço e o mercado. E talvez essa seja a maior ironia de todas: o país que construiu sua riqueza sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta pode acabar tendo justamente petróleo demais e caminhos de menos para vendê-lo.
*Luciano Gioielli é analista internacional do Portal das Commodities











