Por Marcus Valverde*
Desde o final do ano passado, o Brasil acompanha o desenrolar do caso envolvendo o Banco Master e seu então controlador, Daniel Vorcaro. A cada nova revelação, surgem fatos e circunstâncias que tornam essa história profundamente brasileira.
Talvez seja justamente essa familiaridade que mais impressione. Há algo nesse enredo que faz pensar que ele não nasceu na Faria Lima ou em festas em Trancoso, mas nas páginas do décimo romance de Machado de Assis. Não se trata de heróis e vilões. Trata-se de personagens que confundem interesse privado com virtude republicana, figuras de destaque que preferem preservar relações a falar verdades inconvenientes e, acima de tudo, de indivíduos que, antes de enganar os outros, passam anos enganando a si mesmos.
E se isso fosse verdade? E se o Bruxo do Cosme Velho tivesse sido o autor dessa história? Mais interessante ainda: qual desfecho Machado de Assis reservaria para um escândalo dessa magnitude?
Em Machado, a política raramente nasce apenas de princípios. Ela costuma nascer da conveniência. Pedro e Paulo passam um romance inteiro discutindo monarquia e república, apenas para descobrir que suas diferenças talvez fossem menores do que imaginavam. O caso Master parece repetir esse roteiro. Direita, esquerda e centro aparecem sucessivamente como personagens da mesma narrativa, cada qual movido por interesses particulares, relações pessoais ou simples instinto de sobrevivência. Mudam-se os discursos, permanecem os incentivos.
Também não surpreenderia Machado a parcimônia das revelações. Em “Teoria do Medalhão”, o pai aconselha o filho a cultivar uma qualidade acima de todas: jamais desagradar. O verdadeiro medalhão não denuncia, não rompe amizades, não cria embaraços. Sua maior virtude é permanecer socialmente útil a todos. Talvez por isso tantas narrativas terminem dizendo tão pouco. Não porque lhes faltem fatos, mas porque lhes sobra prudência.
Mas talvez o traço mais machadiano de todos seja outro: a extraordinária capacidade humana de transformar interesse em convicção. Machado compreendia que poucas pessoas se enxergam como vilãs. Quase todas encontram uma justificativa moral para aquilo que desejam fazer. Seus personagens mentem menos ao leitor do que a si próprios. Talvez por isso seus romances envelheçam tão pouco.
Resta a pergunta inevitável: como Machado encerraria esse romance? Dificilmente com um julgamento exemplar, uma condenação retumbante ou uma lição de moral. Esses finais pertencem aos tribunais e aos folhetins; não ao Bruxo do Cosme Velho.
Talvez encerrasse a narrativa alguns anos depois. O escândalo já distante. Os personagens bem-vestidos. Alguns ainda ocupando cargos públicos, outros dirigindo empresas, outros concedendo entrevistas sobre ética, governança ou responsabilidade institucional. As relações recompostas. Os antigos adversários trocando cumprimentos discretos em algum coquetel. E cada um deles absolutamente convencido de que fizera apenas aquilo que as circunstâncias exigiam.
Esse talvez fosse o verdadeiro desfecho machadiano. Não a vitória do mal, nem a derrota da justiça, mas o triunfo silencioso do autoengano. Porque, para Machado, poucas tragédias eram maiores do que a capacidade humana de transformar conveniência em princípio, interesse em virtude e memória em esquecimento.
Talvez seja justamente por isso que, mais de um século depois, ainda pareça que Machado continua escrevendo o Brasil. O décimo romance de Machado talvez nunca tivesse sido publicado. Apenas continuasse sendo reescrito, geração após geração, pelos próprios personagens.
Talvez o verdadeiro legado de Machado não seja explicar o Brasil, mas nos lembrar de que nenhuma sociedade será melhor do que a honestidade com que seus próprios membros conseguem enxergar a si mesmos. Enquanto continuarmos confundindo conveniência com convicção e interesse com virtude, o décimo romance de Machado de Assis continuará sendo escrito.
*Marcus Valverde é sócio-fundador do Marcus Valverde, sociedade de advogados











