Por Bruno Perottoni*
Poucos temas despertam tanta atenção no ambiente de negócios quanto a cotação do dólar. Basta uma mudança na política monetária dos Estados Unidos, um novo conflito geopolítico ou uma alteração nas expectativas econômicas para que o câmbio volte ao centro das discussões. Para as empresas brasileiras, especialmente as pequenas e médias que importam insumos, exportam produtos ou contratam serviços internacionais, o principal desafio não está em prever para onde a moeda americana vai, mas saber como administrar a incerteza.
O segundo semestre de 2026 reúne uma combinação de fatores capazes de manter o câmbio em constante oscilação. No cenário doméstico, o calendário eleitoral tende a aumentar a atenção dos mercados sobre os rumos da política econômica. No exterior, a trajetória dos juros norte-americanos continua influenciando os fluxos globais de capital, enquanto conflitos geopolíticos podem afetar preços de energia, inflação e percepção de risco. O próprio Banco Central destaca que o ambiente internacional permanece mais incerto diante das tensões geopolíticas e seus impactos sobre as condições financeiras globais.
Ao mesmo tempo, é importante separar percepção de realidade. Quando pegamos os históricos das eleições, por si só, não explicam toda a volatilidade do mercado brasileiro. Em diversos ciclos eleitorais, os maiores movimentos do dólar foram provocados por fatores externos ou por eventos macroeconômicos paralelos. Ou seja, embora o calendário político mereça atenção, ele deve ser analisado juntamente com o comportamento da economia global e da política monetária internacional.
Nos Estados Unidos, a atuação do Federal Reserve continua exercendo forte influência sobre os mercados emergentes. Sempre que os juros permanecem elevados por mais tempo, ativos denominados em dólar tendem a se tornar mais atrativos, reduzindo a liquidez disponível para economias como a brasileira. Simultaneamente, conflitos internacionais e mudanças nas cadeias globais de comércio aumentam a busca por ativos considerados mais seguros, reforçando movimentos de valorização da moeda americana.
Para muitas empresas, especialmente as pequenas e médias, essa volatilidade pode significar muito mais do que um indicador financeiro. Ela impacta diretamente margens de lucro, formação de preços, fluxo de caixa e planejamento de investimentos. Um contrato fechado hoje pode apresentar uma rentabilidade completamente diferente poucas semanas depois caso não exista uma estratégia de proteção cambial.
Ainda é comum encontrar empresários que enxergam o hedge cambial como uma ferramenta destinada apenas às grandes corporações. Essa percepção, porém, já não corresponde à realidade. A evolução das plataformas digitais e dos serviços especializados tornou esse tipo de proteção mais acessível, permitindo que empresas de diferentes portes reduzam sua exposição às oscilações da moeda estrangeira.
O hedge não elimina o risco de mercado, mas reduz a imprevisibilidade sobre um componente fundamental da operação. Em vez de transformar a taxa de câmbio em uma variável capaz de comprometer resultados, a empresa passa a incorporá-la ao planejamento financeiro. Essa previsão é especialmente importante para negócios que trabalham com margens apertadas, contratos de longo prazo ou dependem da importação de matérias-primas e equipamentos.
A gestão cambial deve ser encarada como parte da estratégia empresarial e não mais somente como uma ferramenta financeira. Isso envolve definir políticas internas, acompanhar a exposição da companhia, diversificar instrumentos de pagamento internacional e utilizar mecanismos de proteção compatíveis com o perfil de cada operação.
Esse movimento ocorre justamente quando os pagamentos internacionais também passam por uma transformação tecnológica, por exemplo, com soluções digitais reduzindo custos, aumentando a transparência das operações e diminuindo o tempo necessário para liquidação das transações, o que permite que empresas integrem gestão cambial, pagamentos internacionais e administração financeira em um único ambiente.
O cenário econômico dos próximos meses continuará trazendo desafios. A recente combinação entre incertezas fiscais, tensões internacionais e mudanças na política monetária tem levado investidores a buscar maior proteção e manter atenção redobrada aos mercados emergentes. Embora a inflação brasileira tenha apresentado sinais de desaceleração, o ambiente segue sujeito a choques externos que podem alterar rapidamente as expectativas.
Em um contexto como esse, tentar descobrir qual será a cotação do dólar no fim do ano talvez seja a pergunta menos importante. A questão realmente estratégica é outra: quanto custa para a empresa permanecer exposta às oscilações cambiais sem qualquer proteção?
Em mercados cada vez mais integrados, competitividade não depende apenas de vender mais ou comprar melhor. Também passa pela capacidade de administrar riscos de forma inteligente. E, quando falamos de câmbio, proteger o caixa deixou de ser uma decisão reservada às grandes empresas para se tornar um elemento essencial da gestão financeira de qualquer negócio conectado ao mercado global.
*Bruno Perottoni é diretor de Tesouraria do Banco Braza











