Por Douglas Domingues*
Uma pesquisa realizada pela FGV com 1.361 ex-alunos de programas corporativos me chamou a atenção recentemente. O levantamento mostra que a capacidade de levar o conhecimento para a rotina profissional está diretamente relacionada à percepção de valor da educação corporativa. Entre os entrevistados, 88,1% dos egressos de MBA e 90,6% dos participantes de programas de Curta e Média Duração afirmaram aplicar os conhecimentos adquiridos no trabalho de forma ocasional ou frequente. A aplicabilidade prática, aliás, está entre os atributos mais valorizados nesses programas.
O estudo revela ainda que 89,9% dos egressos de MBA e 92% dos participantes de programas de Curta e Média Duração afirmaram que a formação contribuiu parcial ou totalmente para sua trajetória profissional. A melhoria de performance foi o principal impacto percebido na carreira, citada por 54,7% dos participantes de MBA e 63,9% dos profissionais de Curta e Média Duração.
Esses dados refletem uma mudança na própria lógica de desenvolvimento profissional. Defendo há tempos uma formação que conecte conhecimento e realidade profissional, e os números da FGV confirmam essa percepção. Não basta mais saber. É preciso saber aplicar, adaptar e transformar aquele conhecimento em uma decisão ou solução concreta. O profissional que consegue aprender diante de um problema real e imediatamente transformar esse aprendizado em ação passa a ter uma vantagem importante no mercado.
A partir dessa reflexão, listo abaixo seis fatores que, na minha visão, devem ganhar cada vez mais espaço na formação profissional.
- Aprender fazendo acelera o desenvolvimento: quando o profissional trabalha com um caso real, precisa tomar uma decisão, analisar consequências e buscar uma solução, o aprendizado ganha outro significado. Ele deixa de ser apenas conteúdo e passa a fazer parte do repertório que aquela pessoa poderá utilizar novamente.
- O profissional precisa aprender diante de problemas novos: em um mercado marcado por inteligência artificial, automação e mudanças constantes, nem sempre será possível encontrar uma formação pronta para cada desafio que surgir.
O conhecimento técnico continua sendo importante, mas ele envelhece mais rápido. Por isso, uma das competências mais importantes passa a ser a capacidade de aprender diante de uma situação nova. O profissional precisa saber fazer perguntas, buscar informações, testar possibilidades e ajustar sua estratégia. - Certificado comprova formação, mas não necessariamente competência: a quantidade de cursos realizados pode ajudar a construir um currículo, mas não representa, sozinha, a capacidade de entregar resultados. Um certificado mostra que houve uma formação, mas não necessariamente mostra o que aquele profissional consegue fazer com o conhecimento.
A experiência prática, os projetos realizados e a capacidade de resolver problemas ajudam a revelar competências que não aparecem apenas no currículo. - Empresas também precisam criar ambientes para o aprendizado acontecer: a responsabilidade pelo desenvolvimento não está apenas no profissional. Acredito que as empresas precisam criar condições para que o conhecimento adquirido seja colocado em prática.
Não adianta oferecer um treinamento e esperar que a mudança aconteça automaticamente. É preciso criar espaço para aplicação, acompanhar os resultados e permitir que o profissional teste novas formas de fazer. A aprendizagem precisa entrar na rotina da empresa. - O aprendizado contínuo será parte da própria carreira: se antes a formação era concentrada em momentos específicos, como faculdade, pós-graduação ou cursos de especialização, a tendência é que o desenvolvimento se torne permanente.
O profissional não pode mais pensar que terminou de estudar quando concluiu a graduação ou uma pós. A carreira vai exigir ciclos constantes de atualização. E isso não significa necessariamente fazer um curso atrás do outro, mas desenvolver a capacidade de aprender continuamente com projetos, experiências, pessoas, tecnologia e problemas reais. - O diferencial será transformar conhecimento em resultado: mais do que prever quais profissões existirão no futuro, prefiro pensar na discussão sobre quais profissionais estarão preparados para acompanhar as mudanças.
Estamos saindo de uma lógica em que o diferencial era saber mais para uma lógica em que o diferencial é conseguir fazer melhor.
O conhecimento continua sendo a base, mas a capacidade de transformar esse conhecimento em resultado é o que gera valor para a empresa e para a carreira.
*Douglas Domingues é especialista em educação corporativa, gestão de relacionamento com clientes e CEO da DomEduc











