Por Erick Boano*
Durante anos, o debate no universo de Procurement e gestão de suprimentos permaneceu concentrado em variáveis tradicionais como inflação, taxas de juros, volatilidade cambial e oscilações do petróleo. Embora essas métricas continuem indispensáveis, tenho observado que as mudanças mais profundas para a competitividade das empresas estão emergindo de fontes menos óbvias: transformações estruturais na demanda, reconfiguração geográfica do comércio global e avanço acelerado da tecnologia.
Diante desse cenário, analiso três movimentos estratégicos que mostram como as cadeias globais entram em uma nova era, na qual antecipar tendências se tornou tão vital quanto negociar preços: em primeiro lugar, os dados oficiais sobre a desaceleração e revisões no mercado de trabalho norte-americano publicados pelo U.S. Bureau of Labor Statistics, combinados ao avanço do déficit comercial impulsionado por investimentos em tecnologia e inteligência artificial, revelam que o crescimento econômico mundial está cada vez mais setorializado.
Quando os aportes em infraestrutura tecnológica e energia absorvem grande fatia dos recursos, cadeias ligadas a semicondutores e data centers mantêm ritmo aquecido, enquanto outros segmentos enfrentam desaceleração. Para os líderes de compras, a lição é clara: não basta acompanhar indicadores macroeconômicos genéricos, é preciso mapear onde os fluxos de capital estão se concentrando.
Paralelamente, presenciamos o fortalecimento do comércio regionalizado em detrimento da globalização irrestrita. Decisões governamentais recentes, como a resolução da Secretaría de Economía do México impondo tarifas antidumping ao aço laminado proveniente da China e do Vietnã, somadas às barreiras tarifárias impostas pelas autoridades norte-americanas, reforçam o movimento de governos e empresas para reduzir dependências estratégicas.
Ao optar por parceiros comerciais mais próximos — o chamado nearshoring —, a seleção de fornecedores passa a ponderar estabilidade regulatória e exposição geopolítica. O Custo Total de Aquisição (TCO) ganha nova dimensão em um ambiente onde barreiras comerciais podem alterar a competitividade de toda uma operação de uma hora para outra.
Por fim, a transição energética deixou de ser uma promessa distante para se tornar um dado operacional do presente. No Brasil, os levantamentos de planejamento do transporte e matriz energéticas divulgados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) demonstram que o avanço dos veículos elétricos e híbridos já provoca reflexos mensuráveis na curva de demanda por combustíveis fósseis tradicionais, como a gasolina. Essa transformação na frota afeta não apenas o setor automotivo, mas recalibra toda a matriz logística e energética nacional, exigindo estratégias de suprimento alinhadas com novas infraestruturas de recarga e insumos para baterias.
O grande desafio da liderança em supply chain não é apenas reagir à volatilidade de curto prazo, mas distinguir ruídos passageiros de mudanças permanentes. As empresas que ajustarem suas estratégias a essa nova realidade geográfica, tecnológica e energética garantirão resiliência e liderança nos próximos anos.
*Erick Boano é CEO da GEP Brasil, empresa global de tecnologia e consultoria estratégica para procurement e supply chain











