Por Renata G. Moreno e Luara Teixeira*
A pauta climática deixou de ser um capítulo isolado dos relatórios de sustentabilidade e passou a orientar decisões de investimento, contratos com fornecedores e até a reputação de marcas inteiras. Nesse cenário, dois termos se tornaram onipresentes em comunicados corporativos: Carbono Neutro e Net Zero. Usados muitas vezes como sinônimos, eles descrevem compromissos bem diferentes em profundidade, prazo e rigor, e entender essa diferença não é só uma questão semântica: é o que separa uma meta climática consistente de uma promessa sem lastro, ou mesmo greenwashing.
O que diferencia Carbono Neutro de Net Zero
Ser Carbono Neutro significa que uma empresa equilibra a quantidade de dióxido de carbono que emite com uma quantidade equivalente removida ou evitada em outro lugar. Na prática, funciona como uma conta que precisa fechar em zero: de um lado ficam as emissões medidas, do outro as compensações, que costumam vir da compra de créditos de carbono ligados a projetos de preservação florestal, energia renovável ou captura de metano, de investimentos em reflorestamento, que aproveitam a capacidade das árvores de absorver CO₂ durante a fotossíntese, ou ainda de aportes em fontes de energia limpa.
O ponto central é que a neutralidade de carbono não exige, necessariamente, que a empresa reduza suas próprias emissões antes de compensá-las: ela pode manter o nível de emissão atual e simplesmente pagar por essa compensação em outro ponto da cadeia. É um modelo mais acessível e mais rápido de alcançar, por isso funciona bem como primeiro passo, mas é limitado quando tratado como meta final.
Já o conceito de Net Zero representa uma evolução desse compromisso e parte de uma lógica bem mais exigente. Em vez de olhar apenas para o CO₂, a meta abrange todos os gases de efeito estufa, incluindo metano, óxido nitroso e hidrofluorcarbonetos, e a compensação só entra em cena depois que a empresa tiver cortado a maior parte possível de suas próprias emissões, ao longo de toda a cadeia de valor.
Isso envolve normalmente três frentes de emissão, conhecidas como escopos: o escopo 1, que cobre as emissões diretas geradas por fontes controladas pela própria empresa, como frota própria, caldeiras e processos industriais; o escopo 2, ligado à energia elétrica comprada; e o escopo 3, que abrange as emissões indiretas espalhadas por toda a cadeia de valor, da matéria-prima ao descarte do produto, e costuma ser a fatia mais difícil de endereçar.
Só depois de reduzir drasticamente essas três frentes, e não apenas uma parte delas, é que se admite compensar a fração remanescente, considerada tecnicamente inevitável no estado atual da tecnologia.
Por que essa diferença importa na prática
A Science Based Targets initiative, conhecida como SBTi e principal referência internacional para validar metas corporativas de clima, reforça essa distinção: uma meta Net Zero só é considerada legítima quando a empresa demonstra uma trajetória de corte real de emissões, geralmente entre 90% e 95% do total, antes de recorrer a qualquer compensação para o restante, enquanto o Carbono Neutro não segue esse mesmo nível de exigência.
Esse nível de exigência vem sendo continuamente aperfeiçoado. Em 2026, a SBTi atualizou seu padrão internacional de metas Net Zero corporativas, reforçando critérios sobre como as empresas devem comprovar, monitorar e reportar essa redução real ao longo do tempo, um sinal de que o mercado está fechando o cerco contra metas anunciadas sem lastro técnico. Hoje, milhares de empresas ao redor do mundo já têm metas climáticas validadas por esse tipo de padrão, número que cresce ano a ano à medida que reguladores, investidores e consumidores cobram mais transparência.
É essa diferença de rigor, alcance e prazo que explica por que uma empresa pode se declarar carbono neutro já hoje, com relativa facilidade, comprando compensações suficientes para equilibrar suas emissões de CO₂ em um recorte específico da operação, enquanto uma meta Net Zero costuma levar décadas de reestruturação de processos, fornecedores e tecnologia para se tornar realidade.
Justamente por essa diferença de complexidade e percepção pública, quanto mais a sustentabilidade influencia decisões de compra, contratação e investimento, maior é a tentação de usar esses termos de forma solta: uma empresa pode anunciar neutralidade de carbono comprando créditos de projetos de qualidade duvidosa, sem nunca reduzir de fato sua produção, o que, na prática, não resolve o problema climático, apenas o desloca no papel.
Por isso, especialistas recomendam observar não o rótulo usado pela empresa, mas o plano por trás dele: existe uma meta de redução real, com etapas intermediárias verificáveis? A compensação é usada como complemento ou como substituto da redução? Há transparência sobre os escopos 1, 2 e 3? Essas perguntas dizem mais sobre o compromisso climático de uma empresa do que qualquer selo isolado.
Na prática, os dois conceitos não são excludentes, costumam ser etapas de uma mesma jornada. Em um mercado onde compromissos ambientais se multiplicam, entender a diferença entre Carbono Neutro e Net Zero tornou-se essencial para interpretar o que as empresas realmente estão fazendo para enfrentar as mudanças climáticas. A neutralidade pode representar um ponto de partida relevante, mas o Net Zero é o que revela o grau de ambição e transformação envolvido.
No fim, a pergunta mais importante não é qual termo aparece no relatório, mas quais ações concretas estão sendo implementadas para tornar essa promessa uma realidade.
*Renata G. Moreno é especialista em Direito Ambiental e Regulatório, sócia e fundadora do escritório Renata Franco Sociedade de Advogados e Luara Teixeira é estagiária da área ambiental e regulatória do escritório de Direito Renata Franco Sociedade de Advogados










