Por Wesley Ribeiro*
O crédito consignado ocupa um espaço relevante no sistema financeiro brasileiro, mas o modelo que conhecemos está passando por uma mudança muito significativa. A digitalização deixou de ser apenas uma forma de tornar a contratação mais conveniente e passou a interferir na própria maneira como o crédito é analisado, ofertado, contratado e administrado.
Durante muito tempo, modernizar uma operação significava colocar no ambiente digital processos que já existiam no papel. Hoje, entendo que isso não é mais suficiente. O avanço da inteligência artificial, da análise de dados e da automação está criando condições para que possamos repensar processos inteiros, reduzir etapas e tomar decisões com mais velocidade e precisão.
No consignado, esse movimento ganha uma dimensão ainda maior. Trata-se de um mercado que envolve diferentes convênios, regras, margens, sistemas e perfis de clientes. Quanto maior a complexidade operacional, maior a importância de contar com tecnologia capaz de integrar informações e adaptar os processos às características de cada operação.
Não à toa, a inteligência de dados já é um dos principais vetores dessa mudança. Dados bem estruturados permitem compreender melhor o comportamento das operações, identificar inconsistências, aprimorar modelos de análise e oferecer produtos mais adequados a diferentes perfis. Não se trata apenas de ter mais informações, mas sim de conseguir transformá-las em melhores decisões.
A IA amplia ainda mais esse potencial. Agentes podem assumir tarefas repetitivas, desde a captação e qualificação de leads até consultas, conferências documentais, atendimento e acompanhamento de processos. Ao mesmo tempo, sistemas integrados permitem que diferentes etapas da jornada do crédito conversem entre si, reduzindo retrabalho e burocracia.
Tudo é muito inovador, mas há um ponto que considero fundamental para que essa transformação seja realmente sustentável, a tecnologia precisa estar acompanhada de controle, segurança e capacidade de adaptação. No setor financeiro, um erro pode representar não apenas um custo, mas também impacto para o consumidor e riscos para a própria instituição.
É por isso que tecnologias proprietárias tendem a ganhar cada vez mais espaço. Ao desenvolver sistemas internamente não significa necessariamente que vai ter que abandonar antigos parceiros ou soluções de mercado. Significa ter maior domínio sobre processos estratégicos, dados e integrações, além da capacidade de adaptar rapidamente a operação quando as necessidades mudam.
A infraestrutura também passa a ter importância econômica. Com a evolução dos modelos de IA, executar determinadas aplicações internamente podem reduzir dependências, ampliar o controle sobre dados e, em alguns casos, tornar mais previsível o custo de processamento. Isso tudo será especialmente relevante à medida que o uso de IA deixe de estar restrito a experimentos e passe a fazer parte da operação cotidiana das instituições.
Ou seja, essa combinação entre tecnologia, dados e automação pode resultar em uma jornada mais simples para o consumidor e, ao mesmo tempo, em operações mais eficientes para as empresas. Tudo depende de que a competição deixe de estar concentrada apenas em taxas, prazos e canais de distribuição, passando a envolver também a capacidade tecnológica de cada companhia.
O futuro do consignado, portanto, não será definido apenas por quem oferecer crédito. Será direcionado por aqueles que conseguirem estruturar melhor os dados, automatizar processos, proteger informações sensíveis e utilizar tecnologia para tomar decisões mais eficientes.
E posso afirmar com a consciência tranquila que essa mudança já começou. Nos próximos anos, a diferença estará menos em digitalizar o que existe e mais em usar a tecnologia para construir uma operação nova que funcione de maneira única.
*Wesley Ribeiro é fundador e CEO da Liberty Card










