A inflação brasileira (IPCA) voltou a estourar o teto da meta em setembro após subir 0,82% e atingir 4,58% no acumulado de 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No acumulado de 2026, o índice registra alta de 3,95%. A alta de setembro foi puxada principalmente pelo grupo Habitação, pressionado pelo aumento da energia elétrica residencial.
Alimentação e bebidas e Transportes também registraram elevação de preços, em um cenário que mantém a atenção sobre a trajetória da inflação e os próximos passos da política monetária.
Para Fernando Gonçalves, responsável pelo IPCA, o comportamento dos preços em outubro, novembro e dezembro será importante para determinar o resultado acumulado em 12 meses no fim de 2026. “Caso as variações mensais desse período superem 0,09% em outubro, 0,18% em novembro e 0,33% em dezembro, o índice anual poderá terminar acima do intervalo de tolerância da meta”.
Conta de luz lidera pressão sobre o IPCA
O grupo Habitação subiu 2,31% em setembro e teve o maior impacto sobre o índice, com contribuição de 0,35 ponto percentual. A energia elétrica residencial avançou 7,98%, respondendo sozinha por 0,32 ponto percentual da inflação do mês.
A alta ocorreu após o fim da incorporação do Bônus de Itaipu, que havia reduzido o valor das faturas emitidas em agosto. Também permaneceu em vigor a bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 à conta de luz a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.
Os reajustes tarifários em algumas capitais também influenciaram o resultado. Em Belém, as tarifas subiram 6,63%; em São Luís, 5,42%; e em Vitória, 6,89%, conforme os reajustes incorporados ao índice.
Alimentos voltam a subir após três meses de queda
O grupo Alimentação e bebidas avançou 0,83% em setembro, após três meses consecutivos de recuo. A alimentação no domicílio subiu 0,96%, com aumentos de 37,76% no tomate, 24,07% na batata-inglesa, 10,14% na cebola e 4,56% no arroz. As carnes tiveram alta de 0,63%.
Na direção oposta, o frango inteiro caiu 1,96%, o frango em pedaços recuou 1,41% e as frutas tiveram queda de 1,12%. A alimentação fora do domicílio também acelerou, passando de 0,36% em agosto para 0,48% em setembro.
Para Julio Barros, economista do banco Daycoval, a alta dos alimentos foi uma das principais surpresas do resultado, que superou a projeção de 0,72% da instituição.
Barros destacou os preços dos produtos in natura e do arroz e apontou que o comportamento dos alimentos pode refletir os efeitos do El Niño, fenômeno climático que, segundo sua avaliação, tende a ganhar força no último trimestre do ano.
O economista também observou pressão nos serviços, grupo que recebe atenção do Banco Central por incluir itens sensíveis à atividade econômica e ao mercado de trabalho.
Passagens aéreas e combustíveis pressionam Transportes
O grupo Transportes registrou alta de 0,89% em setembro. As passagens aéreas subiram 9,66%, enquanto os combustíveis avançaram 1,41%. Entre os combustíveis, o etanol aumentou 3,16%, o óleo diesel subiu 1,69%, a gasolina avançou 1,21% e o gás veicular teve alta de 0,10%.
Os serviços também entraram no radar dos economistas. Leonardo Costa, do ASA, avaliou que o resultado mostrou piora na composição da inflação, sobretudo pela aceleração dos núcleos e dos serviços.
Os núcleos são medidas que buscam identificar tendências da inflação ao reduzir a influência de oscilações pontuais ou de itens mais voláteis. Para o economista, a pressão desses componentes exige cautela, mas não altera sua expectativa de continuidade dos cortes de juros.
Economistas veem cortes graduais da Selic
Apesar da aceleração do IPCA, Leonardo Costa avalia que o Banco Central deve manter o processo de flexibilização monetária, com reduções graduais de 25 pontos-base na Selic, a taxa básica de juros da economia.
Na avaliação do economista, a desaceleração recente da atividade doméstica reforça a possibilidade de continuidade dos cortes, embora a política monetária deva permanecer em território contracionista — isto é, com juros que ainda restringem o crédito e a demanda.
Julio Barros, do Daycoval, também afirmou que o IPCA de setembro não muda sua projeção de continuidade do ciclo de cortes. A instituição trabalha com inflação próxima de 5% no fechamento de 2026, segundo o economista, e mantém o alerta para a evolução dos preços dos alimentos.
Dólar e petróleo entram na conta do IPCA
Além dos preços domésticos, a relação entre o câmbio e o petróleo pode influenciar a inflação nos próximos meses. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, destacou que o dólar próximo de R$ 5,02 ajuda a reduzir, em reais, o custo do petróleo negociado no exterior.
Considerando o Brent a US$ 103,80 por barril, o preço convertido pelo câmbio citado equivale a cerca de R$ 521. Na comparação apresentada por Murad, com o dólar a R$ 5,28 — segundo a projeção do boletim Focus — o mesmo barril custaria aproximadamente R$ 548.
Para ele, o câmbio valorizado ajuda a amortecer a pressão externa sobre os preços, mas não elimina os efeitos de uma eventual permanência do petróleo em patamares elevados. Nesse cenário, o espaço para acelerar os cortes de juros dependerá também do comportamento das commodities e da percepção de risco global.
Murad considera que a Selic pode chegar a 12% no fim de 2027, mas ressalta que a trajetória dependerá da evolução dessas condições.










