A estratégia da China para a inteligência artificial (IA) pode alterar a forma como investidores avaliam empresas do setor. Durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial de 2026, realizada em Xangai, o presidente chinês, Xi Jinping, defendeu uma abordagem baseada em código aberto.
O discurso, que defendeu a cooperação internacional e compartilhamento de tecnologia, contrasta com a visão predominante dos últimos anos, da qual a vantagem competitiva estaria concentrada nas empresas capazes de desenvolver e controlar a infraestrutura necessária para operar a IA.
No novo episódio do podcast Ligando os Pontos, Marcos de Vasconcellos, CEO do Monitor do Mercado, explica como a mudança de narrativa levou investidores a reavaliar uma das principais premissas que sustentam as elevadas avaliações das empresas ligadas ao setor.
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Mercado passou a precificar escassez de IA
Nos últimos anos, fabricantes de chips, empresas de computação em nuvem e operadoras de data centers passaram a receber grandes volumes de capital diante da expectativa de que poucas companhias dominariam a tecnologia. Essa visão impulsionou investimentos bilionários de empresas como Microsoft, Google, Amazon e Meta em infraestrutura para IA.
Segundo estimativa da consultoria McKinsey, a IA generativa pode adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões por ano à economia mundial, reforçando as expectativas de crescimento do setor.
China defende código aberto
Durante o evento, Xi Jinping afirmou que a inteligência artificial deve ser desenvolvida com base em abertura, colaboração e compartilhamento tecnológico.
O presidente chinês declarou que o país deve aproveitar “essa rara oportunidade histórica para incentivar o código aberto, a abertura, a colaboração e o compartilhamento”. Em outro momento, afirmou que “a IA não deve ser uma apresentação solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”.
Na prática, o conceito de código aberto (open source) permite que desenvolvedores tenham acesso ao funcionamento da tecnologia para adaptá-la, aprimorá-la e utilizá-la em diferentes aplicações, reduzindo barreiras de entrada para novos participantes.
Essa estratégia difere da lógica baseada em tecnologias proprietárias, nas quais apenas uma empresa controla o desenvolvimento e a comercialização do produto.
Se a tecnologia se tornar mais acessível, o diferencial competitivo pode deixar de estar concentrado em quem desenvolve os modelos mais avançados e passar para quem consegue utilizá-los de forma mais eficiente em produtos, serviços e processos produtivos.
Nesse cenário, a IA deixaria de ser vista apenas como um ativo escasso e passaria a funcionar como uma infraestrutura tecnológica disponível para diversos setores da economia. A mudança pode alterar a forma como investidores precificam empresas ligadas ao setor.
Estratégia é utilizada em outros setores
A estratégia defendida por Pequim segue um modelo já adotado em outras áreas consideradas estratégicas. O país consolidou posição de liderança em segmentos como energia solar, baterias para veículos elétricos e manufatura avançada ao desenvolver cadeias produtivas completas, ampliar a escala de produção e reduzir custos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), empresas chinesas concentram cerca de 80% da capacidade global de fabricação de módulos solares. O país também lidera a produção mundial de células para baterias utilizadas em veículos elétricos.
A avaliação é que uma estratégia semelhante pode ser aplicada à inteligência artificial, ampliando sua utilização por empresas de diferentes setores da economia.











