A Bolsa brasileira continua barata, negociando em múltiplos considerados baixos em comparação com outros mercados, mesmo após dois meses consecutivos de saída de investidores estrangeiros. A avaliação é da Wiser Asset, divulgada na carta mensal de julho.
Segundo a empresa, o mercado brasileiro continua interessante pelo ciclo de cortes na taxa Selic, apesar de não ter sido suficiente para reduzir os juros dos títulos públicos de longo prazo. O Tesouro IPCA+ 2032 chegou a oferecer juro real de 8,23% ao ano, refletindo o prêmio exigido pelos investidores diante das preocupações com a trajetória fiscal e com a inflação.
A inflação segue acima do teto da meta e as expectativas para 2026 continuam em alta, embora a prévia da inflação de junho (IPCA-15) tenha surpreendido positivamente. Já o cenário fiscal e as eleições de outubro foram citados como os principais pontos de atenção para investidores.
Juros altos pressionam mercado financeiro
Um dos principais acontecimentos de junho foi a queda de cerca de 23% do petróleo Brent, que voltou aos níveis observados antes da escalada do conflito no Oriente Médio. Mesmo assim, a redução dos preços não foi suficiente para alterar a postura dos bancos centrais em todo o mundo.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75%. Banco Central Europeu (BCE) e Banco do Japão (BoJ) mantiveram ou elevaram suas taxas de juros, indicando que a prioridade é combater a inflação.
Para a Wiser, o cenário reforça a tese apresentada na carta anterior: em um ambiente de custo do dinheiro elevado, empresas capazes de manter crescimento consistente dos lucros tendem a continuar atraindo investidores, enquanto ativos mais sensíveis aos juros enfrentam maior dificuldade para avançar.
O setor de tecnologia foi fortemente afetado por esse ambiente de juros elevados. Segundo a carta, as chamadas Magnificent 7, grupo formado pelas sete maiores empresas de tecnologia, perderam cerca de US$ 2,3 trilhões em valor de mercado durante junho, acumulando queda próxima de 10%.
A Microsoft, por exemplo, registrou seu pior desempenho mensal desde dezembro de 2000, enquanto o S&P 500 recuou 1,3% no período.
Apesar da correção, a Wiser observa que instituições como Goldman Sachs, J.P. Morgan e BlackRock continuam enxergando potencial para as ações americanas, apoiadas pelo crescimento dos lucros corporativos e pelos investimentos em inteligência artificial (IA).
Na direção oposta, o investidor Ray Dalio voltou a alertar para a concentração do mercado. Segundo ele, as dez maiores empresas já representam mais de 40% do S&P 500, nível comparável aos registrados antes da crise de 1929 e do estouro da bolha da internet, em 2000.
Outro ativo pressionado pelos juros foi o bitcoin (BTC). A criptomoeda caiu cerca de 20% durante junho e rompeu temporariamente sua média móvel de 200 semanas pela primeira vez desde 2023. O Ethereum recuou aproximadamente 22%.
De acordo com a Wiser, ETFs de bitcoin registraram os maiores resgates desde seu lançamento, enquanto investidores de longo prazo continuaram aumentando posições, segundo indicadores on-chain.
IA começa a mudar mercado de trabalho
A carta também aponta os efeitos da inteligência artificial sobre o emprego nos EUA. Segundo dados da consultoria Challenger, Gray & Christmas, empresas americanas anunciaram 97 mil demissões em maio, das quais 38.579 tiveram a inteligência artificial como principal motivo.
Nos anos anteriores, a tecnologia representava entre 1% e 5% das justificativas para cortes de pessoal. Em maio deste ano, essa participação chegou a aproximadamente 40%.
IPOs de empresas de IA
Outro destaque da carta é a retomada das grandes ofertas públicas iniciais de ações (IPOs). A SpaceX estreou na Nasdaq avaliada em US$ 1,77 trilhão, tornando-se o maior IPO da história. Após avançar 19% no primeiro pregão, os papéis recuaram nas sessões seguintes.
Ao mesmo tempo, a OpenAI adiou sua abertura de capital para 2027, enquanto a Anthropic protocolou pedido confidencial para listar suas ações.
As três empresas representam um valor potencial de mercado próximo de US$ 3,7 trilhões, em um ano no qual as estimativas apontam para captações entre US$ 150 bilhões e US$ 200 bilhões em IPOs, segundo a gestora.
Desempenho das carteiras
A Wiser afirma que junho inverteu o comportamento observado em maio. A parcela internacional das carteiras foi prejudicada pela queda das ações de tecnologia e do bitcoin, enquanto a renda fixa doméstica e a valorização do dólar ajudaram a reduzir as perdas.
No mês, o perfil Conservador teve retorno de 0,26%, o Moderado recuou 0,66% e o Agressivo caiu 1,01%, diante de um CDI de 1,12%.
Desde o início da gestão, em julho de 2024, o perfil Agressivo acumula retorno de 31,4%, equivalente a 109% do CDI, enquanto os perfis Conservador e Moderado apresentam desempenho próximo ao indicador de referência.











