A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reafirmou nesta terça-feira (11) que o cenário atual segue marcado por elevada incerteza, expectativas de inflação desancoradas e riscos elevados em torno do cenário-base.
Diante desse quadro, o colegiado destacou a necessidade de serenidade e cautela na condução da política monetária. A ata da reunião de agosto também reforçou que a intensidade do ciclo de juros será ajustada conforme a evolução dos indicadores econômicos.
Na reunião encerrada na última quarta-feira (5), o Copom reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. Desde março, a taxa básica acumula redução de 1 ponto percentual. Antes disso, a Selic havia permanecido em 15% por dez meses, desde junho de 2025.
Política fiscal volta ao radar
Um dos principais pontos da ata é a preocupação do Copom com a condução das contas públicas. Segundo o colegiado, uma política fiscal contracíclica, que ajude a conter a demanda quando a economia estiver aquecida e ofereça suporte em momentos de desaceleração, favorece a convergência da inflação para a meta.
O Banco Central voltou a defender políticas fiscais previsíveis, críveis e anticíclicas. O Copom também afirmou que a perda de força na agenda de reformas e de disciplina fiscal, o aumento do crédito direcionado e as incertezas sobre a trajetória da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra (que não estimula nem contrai a atividade econômica).
Quando ela sobe, o Banco Central pode precisar manter a Selic em níveis mais elevados para produzir o mesmo efeito de controle sobre a inflação. Para o Copom, esses fatores também reduzem a potência da política monetária e aumentam o custo do processo de desinflação em termos de atividade econômica.
Copom vê necessidade de manter juros restritivos
Segundo o documento, a última redução da Selic é compatível com a estratégia de levar a inflação para próximo da meta no horizonte relevante. O colegiado, porém, destacou que a inflação continua pressionada pela demanda. Por isso, a política monetária precisa permanecer em território restritivo, ou seja, em um nível capaz de conter o consumo e os investimentos e reduzir as pressões sobre os preços.
“Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo”, afirmou o Copom.
O Banco Central também ressaltou que as evidências de transmissão dos juros para a atividade econômica estão se acumulando gradualmente. A autoridade monetária afirmou ainda que a magnitude do ciclo de cortes será definida de acordo com a evolução do cenário.
Um dos principais pontos de atenção do Copom continua sendo a desancoragem das expectativas de inflação. Segundo a ata, diferentes medidas e pesquisas mostram expectativas acima da meta em todos os horizontes analisados.
“A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, afirmou.
Projeções da ata do Copom
O Banco Central manteve as projeções apresentadas no comunicado da reunião. No cenário de referência, o Copom projeta inflação de 5,1% em 2026, acima do teto da meta, de 4,5%. Para 2027, a estimativa é de 3,8%.
Para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, a projeção é de inflação acumulada em 12 meses de 3,2%.
| Período | IPCA | Preços livres | Administrados |
|---|---|---|---|
| 2026 | 5,1% | 5,1% | 4,9% |
| 2027 | 3,8% | 3,9% | 3,5% |
| 1º tri. de 2028 | 3,2% | 3,1% | 3,5% |
As projeções consideram a trajetória de juros indicada pelo Boletim Focus de 3 de agosto, além de bandeira amarela para a energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027.
O cenário também parte de uma taxa de câmbio inicial de R$ 5,10, com evolução pela paridade do poder de compra, e considera os preços do petróleo próximos da curva futura pelos próximos seis meses.
Mercado vê espaço para novos cortes
O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, classificou a ata como “equilibrada” e afirmou que ainda vê espaço para novos cortes da Selic neste ano. Em entrevista à GloboNews, o executivo reconheceu que o Banco Central precisará acompanhar novos indicadores antes das próximas decisões, mas avaliou que o cenário atual comporta uma continuidade do processo de redução dos juros.
“Eu achei que a ata mais equilibrada e mais pró-continuidade novos ajustes para baixo na taxa Selic do que vimos no anúncio ao final da reunião do Copom passado”, afirmou.
Noronha destacou que considera elevada a taxa real de juros, que corresponde à taxa nominal descontada a inflação esperada. O executivo também reconheceu que as incertezas relacionadas à guerra no Oriente Médio podem dificultar o processo de flexibilização monetária.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, a ata foi fiel ao comunicado divulgado após a reunião de agosto. Segundo ele, o documento reforça que o Banco Central seguirá dependente dos dados para definir os próximos passos.
“Caso o atual cenário se mantenha benigno, com atividade doméstica em desaceleração e dados mais fracos de inflação, há risco de que o Copom volte a cortar 25 bps na reunião de setembro”, afirmou Costa.
O economista, porém, mantém como cenário-base a manutenção da Selic em 14% até o fim de 2026, embora identifique risco crescente de um novo corte no curto prazo.











